Mostra de Cinema de Tiradentes começa no dia 20, apostando em inovação

Na 20ª edição, o evento discutirá como a produção brasileira contemporânea reflete a história e o espaço

por Ana Clara Brant 05/01/2017 08:00

Leo Lara/Universo Produção
A atriz e diretora Helena Ignez será uma das homenageadas, ao lado da atriz Leandra Leal (foto: Leo Lara/Universo Produção)

Por volta de 1702, bandeirantes paulistas descobriram ouro nas encostas da Serra de São José. O arraial que ali se formou foi batizado de Santo Antônio do Rio das Mortes. Anos depois, o lugarejo ganhou seu nome definitivo, Tiradentes, em homenagem ao mártir da Inconfidência Mineira. No fim do século 20, porém, a cidade histórica foi realmente “descoberta”, transformando-se na menina dos olhos de turistas e de produtores de eventos.

Em 1997, um pequeno festival de cinema – que, na época, reuniu pouco mais de 7 mil pessoas – contribuiu para impulsionar o potencial turístico e empreendedor do município, localizado no Campo das Vertentes: a Mostra de Cinema de Tiradentes, que chega este ano à sua 20ª edição. “A mostra foi o evento que projetou Tiradentes no cenário nacional. Em 1998, a cidade tinha apenas 700 leitos; hoje, tem mais de 5 mil. Na época, o festival nasceu porque, além de haver uma lacuna na cidade para este tipo de acontecimento, precisava de algo que pudesse alavancar o recém-inaugurado Centro Cultural Yves Alves. Depois do festival de cinema, surgiram os demais – o de gastronomia, o encontro de motos”, ressalta Raquel Hallak, coordenadora da Mostra de Cinema de Tiradentes.

O festival abre o calendário de eventos cinematográficos no Brasil e será realizado entre 20 e 28 de janeiro. O tema central desta edição será “Cinema em reação, cinema em reinvenção”. A proposta, desenvolvida pelo curador Cleber Eduardo, é promover o debate sobre um cinema que reage a seu espaço e a seu tempo histórico, na maior parte do tempo assumindo pontos de vista através das articulações de linguagem. Esse conceito deve permear os filmes selecionados e as mesas de discussão com especialistas e pesquisadores.

Raquel destaca que a mostra se consolidou como a maior plataforma de lançamento do cinema independente brasileiro e, além de acompanhar as mudanças no audiovisual, inclusive as tecnológicas, o evento viu surgir uma nova geração de realizadores. “O festival sempre esteve atento ao novo jeito de se fazer cinema e também às novas propostas estéticas, às linguagens. A cada edição, apresenta perspectivas do que está por vir, reunindo uma programação de profissionais de diferentes partes do Brasil”, frisa.


AURORA
Outra efeméride desta edição são os 10 anos da Mostra Aurora, um dos segmentos mais aguardados na programação do festival. Dedicada à exibição de longas-metragens inéditos de realizadores em início de carreira, a seção sempre primou pela invenção e experimentação de formas. Os títulos são avaliados pelo Júri da Crítica e concorrem ao Troféu Barroco e a prêmios de parceiros do evento. Nesta edição comemorativa, os selecionados na Aurora são: Baronesa (MG), de Juliana Antunes; Corpo delito (CE), de Pedro Rocha; Eu não sou daqui (MG), de Luiz Felipe Fernandes e Alexandre Baxter; Histórias que nosso cinema (não) contava (SP), de Fernanda Pessoa; Sem raiz (SP), de Renan Rovida; Subybaya (MG), de Leo Pyrata; e Um filme de cinema (SP), de Thiago B. Mendonça.

“De maneira geral, pode-se esperar um conjunto de longas-metragens que, apesar de diversos em seus universos e estratégias formais, partem de situações concretas do presente e do passado, assim se conectando fortemente ao nosso momento. Das denúncias de assédio masculino às mulheres à política de extermínio dos índios pelos ruralistas, da perspectiva crítica das condições de trabalho das mulheres operárias à situação de uma mulher emancipada diante da insistência dos abusos masculinos, do sistema de controle do indivíduo pelo Estado ao uso dos recursos naturais em nome do desenvolvimento, o universo dos filmes reage ao nosso tempo”, analisa Cleber.

 

Três perguntas para

Helena Ignez

Atriz e produtora

 

Sua ligação com o cinema é tão forte que você não só participou de grandes filmes como se casou com importantes cineastas (Glauber Rocha e Rogério Sganzerla). O que lhe atrai nessa arte? 
O que me atrai no cinema é poder falar às pessoas. Falar não só com palavras, mas com imagens, emoções, sons, músicas... No mais, é a realidade: participei e participo de grandes filmes e me casei com importantes cineastas. Coisas do destino.

Além de você, Leandra Leal será homenageada. Como analisa o trabalho dela?
Leandra é uma ótima atriz, empresta um caráter forte a seus personagens e brilha como ativista de coisas boas do Rio. Não conheço ainda seu filme, mas acredito que terá, sem dúvida, uma personalidade interessante como a dela.

Como começou sua relação com o cinema? E qual foi o primeiro e o último filme que viu?
Minha relação com o cinema começou exatamente quando comecei a fazê-lo. Antes disso, era distante. O primeiro filme que vi foi Branca de Neve, de Walt Disney, quando criança. E o último foi Elle, de Paul Verhoeven.


Homenagem a duas gerações

 

Certa vez, Nelson Rodrigues proferiu um oráculo: “Uma Helena que também é Inês dá o que pensar. O nome duplo faz supor uma predestinação. Que vínculo tênue, misteriosíssimo, pode ligar a artista da capa a dois símbolos femininos eternos? Não é por acaso, não é por capricho, que uma mulher se chama, ao mesmo tempo, Helena e Inês. Há um apelo e repito: um apelo obsessivo e mortal em cada um desses nomes. Temos Helena que foi amada por um povo, e temos Inês, que foi amada por um homem. Assim, a artista da capa leva na carne e na alma dois nomes tristes – como um presságio, como um destino”. O texto escrito pelo jornalista e dramaturgo se refere a uma das grandes atrizes, diretoras e produtoras do cinema brasileiro, Helena Ignez, de 74 anos.

A artista será uma das homenageadas da Mostra de Tiradentes ao lado de Leandra Leal, meio século mais jovem que a colega. “As duas são atrizes que agora dirigem, mas pararia nesse aspecto em comum. São atrizes de idades muito distantes, de gerações muito distintas, de momentos históricos e cenas culturais que encaravam o papel social das atrizes de modos muito diferentes. Helena é uma atriz de atitude, política em sua essência, no sentido de intervir na cena em andamento. Leandra é mais discreta. É uma atriz que, de algum modo, concilia e equilibra vertentes opostas, como o cinema radicalmente autoral de novos diretores e as telenovelas ou os filmes realizados em esquema industrial, como o ainda inédito O rei da manhã, de Daniel Rezende, ou o sucesso Cazuza”, salienta o curador da mostra, Cleber Eduardo.

Helena, que já esteve no evento em algumas ocasiões, salienta que, em todas as vezes, a experiência foi incrível e se lembra com carinho da última edição, quando apresentou Ralé, filme estrelado por Ney Matogrosso. “A reação dos espectadores que lotavam a sala foi como um grande abraço afetuoso. Um deleite. Vejo essa homenagem como uma grande festa. Sou fã da Mostra de Tiradentes e acho a curadoria brilhante”, celebra.

A atriz está na ativa desde o fim dos anos 1950, quando estreou no curta O pátio (1959), de Glauber Rocha, – que chegou a ser seu companheiro. Sua trajetória é marcante na história do cinema nacional, participando de obras referenciais como O padre e a moça (1965), de Joaquim Pedro de Andrade, e O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, com quem também se casou. Foi uma das estrelas do Cinema Novo e do chamado Cinema Marginal. “O que mais me orgulha é estar tanto tempo, quer dizer, há mais de 50 anos, fazendo o que eu gosto, dirigindo, produzindo e atuando. O Cinema Marginal e eu, como participante dele, somos uma lenda. Mas, na verdade, jamais me senti fazendo Cinema Marginal e sim, cinema muito bom”, salienta.

Por uma feliz coincidência, recentemente as carreiras de Leandra Leal e Helena Ignez se cruzaram. “Leandra fez sob a direção de Bruno Safadi a trilogia Operação Sônia Silk (Sônia Silk é o personagem emblemático de Copacabana mon amour, que Sganzerla dirigiu em 1970). No último dos três filmes, O fim de uma era, o personagem de Leandra narra, com a minha voz, o seu passado jovem. O filme foi lançado em 2015”, revela Helena.

As homenagens para as atrizes serão prestadas na abertura da mostra, na sexta, dia 20, no Cine Tenda, com a entrega do Troféu Barroco. Na sequência, será exibido o documentário Divinas divas, estreia de Leandra na direção. O tributo se estende no fim de semana, com a exibição dos filmes da Mostra Homenagem: Nome próprio (2007), de Murillo Salles, com Leandra Leal; A mulher de todos (1969), de Rogério Sganzerla, com Helena; e o curta A miss e o dinossauro (2007), dirigido por Helena Ignez. Também no fim de semana, ocorre o debate “O percurso de Helena Ignez e Leandra Leal”, que vai reunir as duas em um bate-papo com a plateia. 

 

OFICINAS

A Mostra de Cinema de Tiradentes está com inscrições abertas para os interessados nas oficinas gratuitas de capacitação na área audiovisual. Serão oferecidas 10 oficinas, totalizando 240 vagas. As inscrições podem ser feitas até hoje, 
por meio do site www.mostratiradentes.com.br.

CURTAS SELECIONADOS

A programação de curtas-metragens da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes exibirá 72 filmes de 11 estados brasileiros, divididos em 10 mostras temáticas. Dos selecionados, 19 curtas são mineiros, entre os quais filmes de Juiz de Fora, São João del-Rei, Visconde do Rio Branco, Brumadinho, Mariana, Passos e Tiradentes.

20ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES
>> De 20 a 28 de janeiro de 2017, em Tiradentes.
>> Programação gratuita

>> Informações: www.mostratiradentes.com.br 

  

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