Comédias nacionais apostam nas celebridades da internet para voltar a lotar os cinemas

Filão das maiores bilheterias, comédias perdem público e passam por transformações para evitar o 'esgotamento' temático

por Mariana Peixoto 28/12/2016 08:00

Downtown Filmes/Divulgação
Downtown Filmes/Divulgação (foto: Downtown Filmes/Divulgação)

O cinema brasileiro (ainda) tem graça, mas ela pode estar mudando de mãos. Pelo menos é esse o sinal que os dados preliminares da bilheteria de 2016 apontam. Apenas três comédias fizeram mais de 1 milhão de espectadores: Até que a sorte nos separe 3 (aparece na lista deste e na do ano passado, pois foi lançado na última semana de 2015), Tô ryca! e Um suburbano sortudo.

Em 2015, foram seis as produções que alcançaram esse patamar (duas delas na casa dos 3 milhões). Já os números de 2016 foram bem modestos. Mais bem-sucedido dos três filmes, o final da trilogia protagonizada por Leandro Hassum foi visto por 3,2 milhões de pessoas nos cinemas. Por sua vez, o filme capitaneado por Samantha Schmütz teve 1,120 milhão de público e o de Rodrigo Sant’Anna, 1,07 milhão, segundo os números da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Diante disso, nenhuma comédia entrou na lista geral dos 10 filmes mais vistos do ano – encabeçada pelo blockbuster religioso Os dez mandamentos, único brasileiro do ranking. “Samantha e Rodrigo Sant’Anna ainda não são comediantes consagrados, mas já garantiram seu lugar”, afirma Bruno Wainer, da Downtown Filmes, maior distribuidora de filmes brasileiros e responsável pelas três comédias citadas como também pelo campeão Os dez mandamentos.

Para ele, os números menores são tanto decorrência da crise econômica como de uma presença menor do que ele chama de “tropa de choque” da comédia brasileira: o diretor Roberto Santucci, que assinou os principais filmes de Ingrid Guimarães e Leandro Hassum, lançou menos filmes, assim como os dois atores.

“Grande decepção foi mesmo o filme do Porta dos Fundos”, admite Wainer. Contrato vitalício, o primeiro longa que reúne o coletivo de humor, hoje com 12 milhões de inscritos em seu canal no YouTube, não alcançou 500 mil espectadores. Esse lançamento, no entanto, antecipou o que pode virar um novo filão da produção comercial para cinema: filmes com astros da internet, os chamados influenciadores digitais.

É fada, longa de Kéfera Buchmann, teve um número satisfatório nos cinemas, mas longe do potencial que a youtuber tem, se for considerado que seu canal tem 10 milhões de inscritos. Dirigido por Cris D’Amato – responsável pela comédia romântica Mulheres ao mar 1 e 2 – , foi a terceira produção nacional mais vista do ano, com 1,7 milhão de espectadores. “É um número simpático, mas não é como nos velhos tempos”, analisa Roberto Santucci. Cris D’Amato defende sua cria. “Não tenho do que reclamar, pois passar de 1 milhão de pessoas no cinema no Brasil de hoje é muito.”

Depois de É fada, outra celebridade da internet que será vista na telona é Christian Figueiredo. Responsável pelo fenômeno editorial Eu fico loko – As desventuras de um adolescente nada convencional, que já gerou três volumes, e com 6,5 milhões de seguidores em seu canal do YouTube, o garoto de 22 anos lança em 12 de janeiro o longa-metragem homônimo. Ao contrário de Kéfera, que atuou numa história ficcional, ele estará na tela numa narrativa sobre sua própria trajetória.

Em 23 de fevereiro, estreia Internet – o filme, que reúne no elenco uma série de estrelas da web, como Felipe Castanhari, Rafinha Bastos, PC Siqueira, entre outros. A história gira em torno do próprio umbigo do elenco: em uma convenção de youtubers, eles entram em conflito porque buscam a fama a qualquer preço.

Kéfera retorna aos cinemas em junho, com a comédia dramática Restô, em que vai dividir a cena com um grande vendedor de ingressos, o comediante Paulo Gustavo. É dele, aliás, o filme que pode ser o tira-teima na seara das comédias populares. Lançado na última quinta-feira, Minha mãe é uma peça 2 chegou a 1.055 salas no país, um recorde para o gênero. Até agora, o investimento fez efeito. Somente em seu primeiro dia, a continuação da história de dona Hermínia vendeu 313 mil ingressos.

“Mesmo antecipando o lançamento para o dia 22, o que nos interessa mesmo é 2017. Nossa meta é chegar ao ano novo com mais de 1 milhão de ingressos vendidos”, afirma Wainer, também distribuidor do filme de Paulo Gustavo. O lançamento foi tão ambicioso porque o filme anterior conquistou a maior bilheteria de uma produção nacional em 2013: 4,6 milhões de pagantes para pouco mais de 400 salas.

Santucci, que se especializou em dirigir comédias populares com elenco televisivo, acredita que o gênero ainda tem fôlego. Mas vê também um esgotamento temático. “O tema de ficar rico se desgastou. Este ano foi uma forçação de barra com Um suburbano sortudo e Tô ryca.” Mesmo assim, ele acredita que os comediantes com talento “encontram muita penetração popular”.

Para Santucci, a crise impactou o cinema. “Como o dinheiro está curto, tenho impressão de que as pessoas estão escolhendo mais. Numa situação antiga, Suburbano e Tô ryca teriam vendido mais de 2 milhões de ingressos”. O diretor acredita que lançamentos muito grandes, chamados filmes-evento, não sofrem tanto. “A pessoa sai de casa de qualquer maneira para ver histórias de super-heróis, por exemplo. E Minha mãe é uma peça 2 é um filme-evento da comédia brasileira.”

O próximo ano será um período atípico para o mercado popular. Santucci, por exemplo, vai filmar duas histórias, mas que serão lançadas somente em 2018: O candidato honesto 2 (que tem Hassum como protagonista) e Os farofeiros, uma versão brasileira da franquia gringa Férias frustradas. Hassum será visto nos cinemas, mas numa história fora de sua zona de conforto. O ator será Teodoro, um dos protagonistas masculinos de nova refilmagem do clássico de Jorge Amado Dona Flor e seus dois maridos.

“Na verdade, teremos menos comédia no formato clássico”, adianta Wainer. A agenda de lançamentos para o primeiro trimestre está cheia de produções estreladas por artistas mais jovens. Além dos filmes de youtubers, há também outra produção com chances de boa bilheteria: TOC – Transtornada, obsessiva, compulsiva. Filme estrelado por Tatá Werneck, chega aos cinemas em 2 de fevereiro.


Na trama, uma atriz-celebridade entra em crise em sua vida pessoal e profissional enquanto precisa lidar com as limitações de seu transtorno. Uma das humoristas mais celebradas da nova geração, Tatá Werneck, que tem participações em algumas comédias, só agora protagoniza seu próprio filme. “É uma boa aposta, mas não é uma comédia popular na veia. É um filme para o pessoal mais antenado”, analisa Wainer.

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