Caio Blat e Sophie Charlotte estrelam 'BR 716', filme que chega nesta quinta (1º) aos cinemas

Dirigido por Domingos Oliveira, longa fala da juventude e dos sonhos do próprio cineasta na mítica Copacabana dos anos 1960

por Pedro Galvão 30/11/2016 20:03

Este ano vem sendo tão difícil para o povo brasileiro que o ator Caio Blat até se sente culpado. “Cara, para mim, está maravilhoso. Um ano cheio de realizações e reconhecimento”, diz. Hoje, estreia o longa BR 716, o grande vencedor do Festival de Gramado, em agosto. Caio Blat interpreta o jovem Domingos – Domingos Oliveira, o próprio diretor do filme.


Forte Filmes/divulgação
Sophie Charlotte (C) interpreta garota suburbana que se torna politizada durante a ditadura militar (foto: Forte Filmes/divulgação)

“Cara, foi uma experiência incrível. Conheci o Domingos através da Maria (sua mulher), contaminado pelo olhar dela. A Maria ama o Domingos, tem profunda gratidão por tudo o que ele fez por ela. Na verdade, ele incorporou a Maria como atriz, ela fez um documentário sobre ele. No processo, Maria cresceu muito como artista, como pessoa. Domingos é movido a sentimento. Vive num estado de amor, cercado de gente que retribui sua generosidade. Acho que ele é único. Domingos é autor da própria vida. Transformou sua biografia em obra de arte. Não são muitos os que conseguem isso”, diz o ator.

BR 716 retrocede ao começo dos anos 1960. O BR do título refere-se a um endereço. Poderia ser Brasil, mas é Barata Ribeiro, rua de Copacabana. O jovem Domingos vivia num estado de exaltação etílica, cercado de amigos e mulheres. Queria ser artista. O filme é sobre esse momento. “Antecede sua explosão com (os filmes) Todas as mulheres do mundo e Edu, coração de ouro. O Domingos anterior a Leila (Diniz, ex-mulher dele). O retorno ao preto e branco, à estética da nouvelle vague”, diz Caio.

SUBURBANA

O ator destaca os planos descontínuos, a memória inventada de BR 716. “Acho genial essa liberdade que ele se concede. A personagem da Sophie (Charlotte) é pura invenção. Uma suburbana que se constrói numa imagem de glamour. Isso é a essência de Domingos. Ao mesmo tempo, dentro do grupo, essa mulher idealizada é a que vai partir para a militância política num momento em que a ditadura está baixando a lenha”, observa o ator.

O Brasil inteiro num apartamento. Não mudou tanto assim. Caio Blat acha que, 50 anos depois, uma outra juventude está vivendo em crise, tentando se afirmar, quem sabe mudar o país. Preocupado, sente em toda a parte o desejo de manipular: “As coisas não estão sendo discutidas como deveriam. Do patrocínio à administração pública, está tudo muito emocional.”

Como é, para um ator, ser Domingos de Oliveira? Como dar voz a Domingos? “Não foi preciso pensar nesses termos. Ele se colocou no texto, e o texto me deu a chave. A cena me pedia um tom, foi só entregar”, explica Caio.

BR 716 levou vários prêmios na 44ª edição do Festival de Cinema de Gramado, em agosto: melhor filme nacional, diretor, atriz coadjuvante (Glauce Guima) e trilha, também assinada por Oliveira.

TV Outro motivo de comemoração para o ator em 2016 foi a novela Liberdade, liberdade, exibida pela Rede Globo. “Só a adesão do público às cenas de sexo gay já foi demais. A gente fez sem alarde. Não criou expectativa – vai ter, não vai? O Vinicius (Coimbra) ousou, fazia sentido dentro da dramaturgia. Foi maravilhoso”, afirma.

Neste finalzinho de ano, Blat se prepara para outra grande experiência. Ele, a mulher, a atriz Maria Ribeiro, e os filhos vão a Londres. “Fui convidado, o único latino-americano, para fazer uma série da BBC, McMafia. Baseia-se num livro investigativo da criminalidade em tempos de globalização. A máfia como organização multinacional. Vou filmar em Londres e na Croácia, em inglês”, conta, entusiasmado.

Simultaneamente, Caio vai apresentar na Alemanha e em Portugal a peça Comédia latino-americana, que recentemente encerrou temporada em São Paulo. “Foi outra coisa enriquecedora. Felipe (Hirsch, o diretor) nos fez investigar muitos autores latinos para chegar ao texto final. E nem era um texto final, porque ele a toda hora estava mudando. Acho que os europeus vão ficar loucos”, revela. (Estadão Conteúdo)

BR 716
Direção: Domingos Oliveira. Com: Caio Blat, Sophie Charlotte e Maria Ribeiro. Em cartaz no Cine 104 (Praça da Estação, 104, Centro), às 17h, 19h e 20h40 (exceto asexta)



ELE NÃO PARA

Aos 80 anos, Domingos Oliveira (foto) enfrenta o mal de Parkinson. Mas continua na ativa. Tanto é que BR 716 é seu 18º longa. Em quase seis décadas de carreira, esse carioca fez de tudo: escreveu, criou roteiros, atuou e dirigiu. Trabalhou no cinema, teatro e televisão. Escreveu 26 peças e dirigiu 57, publicou cinco livros e participou de 50 telefilmes. Um de seus longas de destaque é Todas as mulheres do mundo (1967), estrelado por Leila Diniz, com quem foi casado.

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