'Snowden: herói ou traidor' narra a saga do jovem que revelou sistema de espionagem dos EUA

Em seu novo trabalho, o diretor Oliver Stone abraça a causa de Edward Snowden para denunciar os excessos do governo americano em narrativa dramatizada e bem atual

por Agência Estado Agência Globo 10/11/2016 08:00

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Buena Vista/divulgação
Joseph Gordron-Levitt interpreta Edward Snowden (foto: Buena Vista/divulgação)
O diretor Oliver Stone é um idealista incansável. Com Snowden: herói ou traidor, o cineasta de 70 anos volta a fazer sua crítica aos Estados Unidos sob o viés de um personagem igualmente idealista. Assim como Platoon (1986), Nascido em 4 de julho (1989) e JFK - A pergunta que não quer calar (1991), o novo filme, que entra em pré-estreia hoje em Belo Horizonte, apresenta um personagem sonhador e em busca do ideal americano de liberdade e democracia. Nesse caso, porém, apesar das licenças poéticas do diretor, o personagem é real e os fatos narrados são bastante recentes. Como todo herói de Stone, é um idealista confrontado com o poder.

Edward Joseph Snowden, técnico em redes de computação, trabalhou para a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos e revelou, em 2013, um esquema de espionagem em massa promovido pelo órgão. Com 29 anos na época, Snowden era um patriota que se decepcionou ao perceber o alcance da espionagem eletrônica feita pela agência, capaz de vigiar praticamente qualquer pessoa no planeta.

O tímido técnico decide então denunciar ao mundo a violação dos direitos individuais cometida pelo governo americano em nome de sua segurança. Sai do país, chama três jornalistas até Hong Kong e torna-se um whistleblower (delator) e vaza milhares de arquivos, expondo programas secretos e comprovando o monitoramento de pessoas físicas, empresas e até chefes de Estado estrangeiros, entre eles a então presidente brasileira Dilma Rousseff. Os documentos deram origem a centenas de reportagens denunciando o sistema de espionagem. Snowden alegava defender a privacidade. Acabou acusado de espionagem pelo governo americano. E hoje vive exilado na Rússia.

Oliver Stone veio ao Brasil para promover seu filme e conta que o projeto foi recusado por todas as grandes produtoras e distribuidoras americanas antes de conseguir financiamento na Europa. “É um milagre que eu ainda consiga dirigir filmes como esse no conservador sistema de estúdios de Hollywood”, reconhece. “Todas as corporações americanas, as grandes, se recusaram a colocar dinheiro nesse projeto. Não só para a produção, mas para a distribuição. A Disney, que distribui o filme no Brasil, só entrou porque comprou os direitos de outras empresas europeias. É um grande xadrez, mas certamente teriam recusado se tivéssemos ido diretamente a eles. Na verdade, eles tentaram afundar o filme colocando esse subtítulo horrível.”

Veja os horários de exibição de Snowden: herói ou traidor nos cinemas 

 

Para o diretor, o subtítulo herói ou traidor influencia no julgamento do espectador. “Odeio esse subtítulo. Isso fica muito preto ou branco, é muito parcial”, protesta. Em sua visão, seu longa-metragem mostra a visão de um jovem programador, patriota e idealista, que abalou o governo de Barack Obama com suas revelações e mudou a percepção que se tinha de uma administração supostamente ética em relação à população americana e de outros países. “Ele é como um escoteiro, é ‘quadrado’. Acha que essas questões éticas interessam à humanidade”, diz Stone sobre o personagem. “Não decidi nada, contei a história do jeito que ele a contou pra mim. É a versão dele, e posso dizer que ele esteve bem envolvido.”

Segurança
Stone e Snowden se encontraram nove vezes ao longo do processo de produção do filme, que também se baseia no livro Os arquivos secretos de Snowden (Leya), escrito por Luke Harding. A maioria dos encontros foi para confirmar informações técnicas. “Ele viu o filme duas vezes e fez muitas observações. A NSA nunca contou a história dele da maneira correta. Disseram que era um peixe pequeno, que não tinha acesso às informações. Nunca fez sentido o que falaram dele”, critica.

Há uma frase repetida como um mantra em Snowden. “As pessoas não querem liberdade, querem segurança.” É contra esse pensamento totalitário que Stone se insurge. “Estamos falando num programa como nunca se viu, criado pelo governo para vigiar os cidadãos e dominar o mundo. Estamos falando de poder, de dinheiro, de supremacia.” Em seu relato sobre o ex-agente americano, o cineasta estica a corda para deixar tudo mais tenso, romântico, heroico. Snowden: herói ou traidor encontra nos excessos o tom correto para lidar com a situação. É um  filme para os tempos diabólicos e paranoicos em que vivemos.

Casa Branca

Até o fechamento desta edição, Stone não havia se pronunciado a respeito da vitória de Donald Trump para a presidência dos EUA, mas já havia chamado o bilionário republicano de louco em outras ocasiões. “As coisas já não andam bem com Obama”, avalia. Para o diretor, o chefe da Casa Branca foi uma decepção completa. “Traiu tudo aquilo que dizia ser seu ideário para ser eleito. Basta prestar atenção em suas sucessivas declarações ao longo do filme. Ele se contradiz, nega, se arrepende o tempo todo. A par de ter construído esse sistema para espiar o público, que custou bilhões de dólares, o que o governo mais faz é mentir”, ele adverte. E sobre o estado do mundo, nesse avanço da direita em toda parte, declara: “É como em Star wars. Os rebeldes enfrentam o Império querendo vencer. E vencem. Que não seja só ficção.”

 

Confira o trailer:

 

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