Sônia Braga diz nos EUA que é preciso 'fazer algo' para defender a democracia brasileira

Atriz participou de debate sobre o filme 'Aquarius' e disse que o Brasil de hoje não é mais o que ela conheceu e amou; ela também criticou a Academia de Hollywood e alfinetou Meryl Streep

por AFP 05/11/2016 14:26

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ANNE-CHRISTINE POULOULAT
Sônia Braga em Cannes (foto: ANNE-CHRISTINE POULOULAT)

A atriz brasileira Sônia Braga criticou em Miami o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e pediu que os brasileiros defendam a democracia de um país que "não se parece" com o que ela costumava conhecer.


"Há um golpe no Brasil; não é um golpe militar", disse a atriz em uma conversa com o público após a projeção na noite de sexta-feira de "Aquarius", um filme que se tornou o símbolo da resistência ao novo governo de Michel Temer.


"É muito difícil para as pessoas fora do Brasil saberem exatamente o que está acontecendo e a dimensão do perigo pelo qual estamos passando", prosseguiu a atriz, que vive atualmente em Nova York.


"É inclusive difícil dizer que o prefeito do Rio de Janeiro que venceu (as eleições) no domingo passado é de extrema-direita", comentou, referindo-se à vitória do bispo evangélico licenciado Marcelo Crivella, do Partido Republicano Brasileiro (PRB). Este não parece mais com o país que conheci, onde vivi e que amei tanto".


"Agora estamos em uma posição, todos os brasileiros, na qual sabemos que devemos fazer algo para não perder algo que foi muito difícil conseguir: a democracia. A democracia no Brasil – alcançada nos anos 1980 – é ainda muito jovem".

 

Muito amavelmente, Sônia Braga respondeu às perguntas do público ao apresentar no Tower Theater da Little Havana em Miami (Flórida, sudeste dos Estados Unidos) o filme de Kleber Mendonça Filho, que competiu pela Palma de Ouro de Cannes.

 

A atriz contou que sua mãe teve que cuidar sozinha de sete filhos com um trabalho de costureira e que, graças a essa experiência, se familiarizou com os problemas sociais no Brasil. Sempre tive sentimentos intuitivos sobre o que é bom e o que é justo para meu país e meu povo. E o que posso fazer melhor é dizer em voz alta o que sinto", afirmou. Lamentou que os brasileiros estejam "em uma posição na qual as posturas são tão radicais que não há debates".

VICTOR JUCA/DIVULGAÇÃO
Sônia Braga em 'Aquarius' (foto: VICTOR JUCA/DIVULGAÇÃO)

No filme, Sônia Braga interpreta Clara, uma jornalista aposentada que se nega a abandonar seu apartamento em frente à praia em Recife, apesar das pressões de uma construtora, que quer substituir o edifício por um complexo imobiliário de luxo.


"Este filme abre o debate sobre o que é o país agora e o que queremos para o futuro", disse a atriz de 66 anos, famosa por seus papéis em filmes como "O beijo da mulher-aranha" (1985) e "Dona Flor e seus dois maridos" (1976).

Veja o trailer de 'Aquarius':

 

Sônia Braga também criticou a indústria do cinema nos Estados Unidos por não dar oportunidades a atrizes latinas e estrangeiras. A atriz contou que ela e a italiana Isabella Rossellini aspiravam ao papel principal de "As pontes de Madison" (1995). "Mas não conseguimos, porque Meryl Streep queria atuar nele e o fez. Acredito que a Academia deveria ter uma cadeira permanente para ela". "A indústria não é justa conosco, não sei do que falam quando dizem a palavra diversidade, porque ainda não a vejo. Não vejo muitos latinos".

"Aquarius" era um dos candidatos para representar o Brasil na corrida pelo Oscar, mas o Ministério da Cultura decidiu apresentar para a competição o filme "Pequeno Segredo", de David Schurmann.

VALERIE HACHE/AFP
Elenco de 'Aquarius' protesta em Cannes (foto: VALERIE HACHE/AFP)

A seleção causou controvérsia, e alguns interpretaram que a decisão teve menos a ver com a qualidade do filme eleito do que com interesses políticos.
Isso porque no tapete vermelho do Festival de Cannes, em maio, o diretor e o elenco de "Aquarius" mostraram cartazes que denunciavam "um golpe de Estado" no Brasil.


Horas antes, Dilma Rousseff acabava de ser suspensa pelo Senado em um processo que acabou com sua remoção definitiva em agosto, por acusações de manipulação das contas públicas.


Após o protesto em Cannes e a oposição pública de Sônia Braga e de seus colegas ao novo governo de Temer, o filme se tornou um símbolo do descontentamento da esquerda intelectual.

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