'Brasil S/A' dispensa atores e diálogos para fazer crítica ao modelo de desenvolvimento do país

Com 60 minutos de imagens justapostas e premiado em Brasília, filme estreia hoje em BH. A direção é de Marcelo Pedroso

por Carolina Braga 11/08/2016 10:44

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Ivo Lopes Araújo/Divulgação
(foto: Ivo Lopes Araújo/Divulgação)
Chega a ser uma tarefa inócua qualquer tentativa de classificação de Brasil S/A, longa que chega às telas do Cine 104 hoje. Oficialmente, é apresentado como um documentário. Mas o filme foge totalmente das convenções, inclusive desse gênero, conhecido principalmente por retratar a realidade. Cabe até perguntar se a tela do cinema é o ambiente mais propício para receber tal obra. Brasil S/A ocuparia com o mesmo tom de provocação qualquer galeria de arte contemporânea. Seria então uma instalação performática audiovisual? Talvez.


São apenas 60 minutos de narrativa, sem que qualquer palavra seja pronunciada pelos personagens. Os protagonistas, inclusive, não são apenas pessoas, mas máquinas, navios, plantações. Sujeitos/objetos que transitam entre canaviais, engarrafamentos no trânsito, navios cargueiros, linhas de montagem automobilísticas. Há sempre uma ironia velada no posicionamento de cada “sujeito” em relação à realidade. Brasil S/A tem um nonsense revestido de crítica.

O filme foi dirigido por Marcelo Pedroso. Há uma inegável ousadia da parte dele, reconhecida com os prêmios de melhor diretor e roteiro na edição do Festival de Brasília de 2014. Brasil S/A é puramente cinema de autor. Por isso, há muita abstração na forma como Pedroso tece sua crítica ao desenvolvimento do país, ao achatamento cultural “promovido” pela industrialização. Em cenas grandiosas, expõe o contraste: a força do progresso vive embate permanente com a força da natureza.

Experimentar outras possibilidades cinematográficas – principalmente questionar os modelos e formatos vigentes – é uma característica desse cineasta pernambucano. O primeiro longa-metragem dele, Pacific, foi lançado em 2009. O dispositivo do filme era curioso: Pedroso recolheu imagens amadoras de turistas que partiram para um cruzeiro em direção a Fernando de Noronha. Ao juntar imagens captadas com finalidade caseira, o diretor se interessava em conferir novos sentidos àquelas cenas. Transformar o cotidiano em cinema.

Em Brasil S/A, o cineasta, de certa forma, abandona o improviso que fez parte da elaboração de Pacific. As imagens não são apenas grandiosas, mas calculadas. Todo o universo simbólico do longa é construído a partir da ostentação visual, em consonância com a trilha sonora. Se não há uma palavra, é a música original composta por Mateus Alves que pontua emoções e reflexões despertadas pelas cenas. É uma forma particular, dramática e operística de afirmar o quanto o modelo desenvolvimentista adotado para a economia se mostra incapaz de levar em conta as especificidades desta nação.


O filme de Marcelo Pedroso foi exibido na sessão Panorama do Festival de Berlim no ano passado. Curiosamente, o título internacional é Brazilian dream, ou seja, o sonho brasileiro de se desenvolver. Custe o que custar.

OS FRANCESES ESTÃO VOLTANDO
O Festival Varilux tem funcionado para a produção francesa no Brasil como um bom aperitivo. Os filmes são exibidos em poucas sessões durante a mostra e, ao longo do ano, retornam ao circuito comercial. Entre as novidades desta semana está o novo longa do veterano Philippe Le Guay (Pedalando com Molière), A viagem de meu pai. Protagonizada por Jean Rochefort e Sandrine Kiberlain, a produção é um retrato delicado da inevitável inversão de cuidados entre pais e filhos. Claude foi um grande industrial. Aos 80 anos, aposentado e com memória bastante comprometida, ele precisa da ajuda da filha Carole para sobreviver. Envelhecimento e relação familiar sãos os temas centrais desta obra, que, apesar de tratar de assuntos delicados como o Alzheimer, desvia-se do drama clichê. Le Guay evita o caminho da melancolia e acerta na dose de humor.

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