'Mãe só há uma' aborda construção da identidade com história inspirada no caso do garoto Pedrinho

Novo filme da diretora Anna Muylaert é inspirado na história do menino sequestrado na maternidade em 1986. Longa chega nesta quinta-feira aos cinemas

por Mariana Peixoto 21/07/2016 08:00

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Dezenove Filmes/Divulgação
Sobrinho do ator Alexandre Nero, o jovem Naomi Nero estreia no cinema como protagonista do longa de Anna Muylaert (foto: Dezenove Filmes/Divulgação)

A cineasta Anna Muylaert, de 52 anos, tem dois filhos: José, de 20 anos, e Joaquim, o Joca, de 16. Filha rebelde na adolescência, sofreu e fez seus pais sofrerem. Assume: “Saí muito do que se esperava de mim”. Quando o papel se inverteu, ela fez diferente. Muito até, na opinião de um psicólogo, que “disse que eu exagerava, por ter sempre aceitado a vontade deles (os filhos)”.

Mãe só há uma, novo filme da diretora, chega hoje aos cinemas. O longa-metragem retorna ao tema de Que horas ela volta? (2015), mas de uma maneira diferente. Se no filme que a consagrou estava em xeque a verticalidade das relações (patroa e empregada), agora a narrativa aponta para as relações horizontais.

“A família é a primeira instância do Estado. No filme, o personagem vai achar um novo caminho, do amigo, do irmão, e não o da autoridade”, afirma Anna. Em BH, o filme estreia hoje em poucos horários nos cinemas Belas Artes, 104 e Ponteio. Na próxima quarta, às 16h, o longa será exibido gratuitamente no Festival de Inverno de Vilas e Favelas, no Alto Vera Cruz.

Filmado em fevereiro de 2014, no mesmo período em que finalizava Que horas ela volta?, Mãe só há uma é centrado em Pierre, jovem de classe média com um cotidiano comum entre a escola, os amigos e sua banda de rock. Certo dia, a polícia chega em sua casa, e a vida muda radicalmente. Um exame de DNA comprova que Pierre não é filho daquela que julgava ser sua mãe. A mulher é presa. O garoto se vê forçado a trocar de mãe, de casa, de escola e de nome. Passa a ser chamado de Felipe. Mas isso é só uma parte das mudanças.

“Eu queria fazer um filme sobre busca e afirmação de identidade. Se você não é nada do que achou que era, então, o que sobra?”, diz a diretora. O ponto de partida da história foi o caso Pedrinho. Levado bebê dos braços da mãe de uma maternidade de Brasília, em janeiro de 1986, o garoto foi localizado 16 anos depois, em Goiânia, vivendo com outra família e com outro nome. Um exame de DNA mostrou que, na mesma casa, também registrada como filha legítima, estava uma mulher sequestrada havia 23 anos.

Aos 16 anos, Pierre/Felipe também está em fase de descobertas. Andrógino, gosta de meninos e meninas, usa esmalte, maquia-se para as festas e sente-se bem usando vestidos. Na casa onde viveu a vida inteira, e com a mãe e a irmã que sempre acreditou serem suas, não há qualquer problema quanto a isso.

ESTEREÓTIPOS Com a mudança para a outra família, o pai e a mãe, estereótipos do casal classe média alta, entram em choque. “Tá difícil entender como te amar”, afirma o pai do garoto. O irmão de sangue, que é tudo o que Pierre/Felipe não é, vai, a despeito das diferenças, conseguir estabelecer uma relação com ele.

O protagonista é interpretado por Naomi Nero, sobrinho do ator Alexandre Nero e escolhido depois de sucessivos testes. Até então, nunca havia feito nenhum trabalho como ator. O pai é vivido por Matheus Nachtergaele. Dani Nefussi tem dupla função no filme: a atriz, uma das fundadoras do Teatro da Vertigem (assim como Matheus), interpreta as duas mães do personagem: a de sangue e a que o roubou. Um outro papel primordial para a trama é o de Joca (Daniel Botelho), o irmão de Pierre/Felipe.

“No roteiro, eu tinha dois personagens principais: o Pierre e o Joca. Mas, na hora da montagem, fiquei com um só, pois é um filme sobre identidade, sobre sair das zonas de autoritarismo.” Para atualizar a discussão, Anna colocou em foco a discussão de gênero. “A geração atual derrubou todo tipo de rótulos. Não tem mais essa de ‘sou gay’. Na verdade, ‘sou o que quiser ser’. É uma forma de viver muito diferente”, afirma.

Mãe só há uma foi lançado em fevereiro no Festival de Berlim. Selecionado para a mostra Panorama, recebeu o prêmio Teddy concedido pela revista alemã Männer (considerada a premiação oficial do público LGBT do evento). A premiação ocorreu um ano após Que horas ela volta? ter recebido o prêmio na seção Panorama, dado pelo público.

O novo filme foi realizado com quase um terço do orçamento do longa anterior – custou R$ 1,5 milhão, contra R$ 4 milhões de Que horas ela volta?. “Uma inspiração para este filme foi O céu sobre os ombros (2011), de Sérgio Borges. Queria fazer um filme mais barato, com uma equipe jovem, para experimentar coisas novas. Pela primeira vez trabalhei com a câmera na mão. É um filme de risco, nasceu da vontade de questionar minha identidade e minha maneira de filmar”, afirma Anna.

O longa estreia hoje no Brasil um dia após ter chegado aos cinemas franceses – já foi vendido para 15 países. No país, a repercussão de Que horas ela volta? trouxe um novo público para a obra de Anna. “O que mais aconteceu foram pessoas que ficaram encantadas por eu ter feito (as séries infantis realizadas nos anos 1990) Mundo da lua e Castelo Rá Tim Bum”, acrescenta ela, que recentemente foi convidada para integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. É a primeira diretora brasileira a fazer parte da Academia que organiza o Oscar.

HOMENAGEM EM FESTIVAL

Anna Muylaert é a homenageada do 11º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que será realizado até a próxima quarta-feira, na capital paulista. Além de uma retrospectiva de trabalhos da diretora (longas, telefilmes e séries), o evento vai exibir, pela primeira vez, o que a cineasta chama de demo filme.

“É um rascunho dos filmes que faço, tanto que fiz para todos os longas que realizei. Antes da filmagem, filmo o longa inteirinho, sozinha com os atores, numa locação”, conta ela. O festival em São Paulo vai exibir o demo filme de Que horas ela volta?, realizado durante dois dias na mesma casa que serviu de locação para a história protagonizada por Regina Casé.

Para ela, os demos servem para entender o filme e ver o que pode ser corrigido. “Foi no demo de Durval discos (2002) que percebi que o roteiro estava alongado no começo. E o de É proibido fumar (2009) foi um teste para o Paulo Miklos, pois tinham medo de colocá-lo no papel.” Por ora, Anna não tem intenção de exibir outro demo.

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