Nova versão de Caça-fantasmas reforça protagonismo feminino em Hollywood

O retorno do fenômeno pop dos anos 80 tem mulheres como protagonistas e farpas antimachistas. Trailer teve reação negativa, mas o filme é bom.

por Pedro Galvão 14/07/2016 08:35

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Sony Pictures/divulgação
Elenco feminino de 'Caça-fantasmas' desagradou parte dos fãs da franquia (foto: Sony Pictures/divulgação)
Se há algo estranho na vizinhança, quem você vai chamar? Para as gerações que atravessaram os anos 1980 a resposta é certa: os Caça-fantasmas. No entanto, em 2016, serão quatro amigas divertidas e corajosas a atender o chamado e pilotar o Ecto-1 para combater não só as assombrações em Nova York, mas também o machismo que ainda assusta e tira o sono de várias mulheres ao redor do mundo.

Depois de muita polêmica em torno da escolha do elenco e do primeiro trailer, que bateu recorde de reações negativas no YouTube, Caça-fantasmas (assim mesmo, sem artigo que defina gênero no título), chega hoje às telonas, fazendo jus ao sucesso cinematográfico da franquia e reforçando o protagonismo feminino em Hollywood.

O lançamento é um reboot, ou seja, uma nova forma de contar uma história desde o começo. Não se trata de uma continuação de Os Caça-fantasmas 2, sequência que decepcionou muita gente quando foi lançada, em 1989. O enredo é o mesmo do original, mostrando o surgimento do grupo Caça-fantasmas. Vários elementos estão de volta, como a mochila e as armas de prótons, os macacões, os fantasmas gosmentos, o carro Ecto-1, a logomarca do grupo e, claro, a trilha sonora marcante, que tem o hit Ghostbusters, de Ray Parker Jr., em novas versões.

A grande diferença se dá pela inversão dos papéis entre homens e mulheres. Se no longa de 1984, dirigido por Ivan Reitman, os protagonistas são eles (e elas só aparecem como figuras que precisam de ajuda ou como secretária dos Caça-fantasmas), 32 anos depois as garotas é que comandam a trama.

A nova história, dirigida por Paul Feig, com produção de Reitman, gira em torno da cientista Erin Gilbert (Kristen Wiig), que vê sua carreira acadêmica ameaçada depois que um livro sobre fantasmas, escrito há muitos anos por ela em coautoria com a amiga Abby Yates (Melissa Mc Carthy), aparece à venda na internet. Ridicularizada na comunidade científica, Erin procura a parceira para tirar satisfações e acaba se envolvendo num estranho projeto de investigação de fenômenos paranormais de Abby, quando a cidade começa a ser ameaçada por um surto de perigosas assombrações.

ASSOMBRAÇÕES

Na companhia de outra intrépida cientista, Holtzmann (Kate McKinnon), e da falante funcionária do metrô Patty (Leslie Jones), elas criam uma empresa chamada Caça-fantasmas para solucionar problemas relacionados a assombrações e ganham a missão de salvar Nova York de um superataque fantasmagórico.

Não só a sinopse do novo Caça-fantasmas é parecida com a do primeiro filme, mas também o tipo de humor, que lembra os shows de TV norte-americanos, como Saturday night life, de onde vieram Kristen Wiig, Leslie Jones e Kate McKinnon. Não por acaso, o humorístico do canal NBC também havia projetado Bill Murray e Dan Aykroyd para as telonas. O espectador até tem a impressão de que ouvirá aplausos ao fundo após algumas piadas, como ocorre nos programas e seriados de que parte do elenco participou, o que pode ser um ponto negativo para quem não é fã desse tipo de humor.

No entanto, o talento das três comediantes diante das câmeras funcionou bem no cinema e elas formam um time equilibrado de ghostbusters, ao lado de Melissa McCarthy, que já era experimentada no cinema a ponto de ser indicada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante por seu papel na comédia Missão madrinha de casamento (2012). Na ocasião, ela também foi dirigida por Paul Feig, que já comandou episódios de The office.

As quatro protagonistas, além de divertidas, possivelmente são capazes de representar quase todas as mulheres que assistem ao filme. As heroínas de Caça-fantasmas são figuras normais, que trabalham, têm objetivos pessoais e são desencaixadas do padrão estético que costuma determinar atrizes de beleza óbvia e corpos esculturais para os papéis principais em candidatos a sucesso de bilheteria. As quatro são independentes, com personalidades marcantes, e a trama não traz sensualizações ou exposições de fragilidades emocionais de nenhuma delas. As cenas de humor não envolvem nenhum tipo de sexualização, como ocorre em casos isolados no primeiro filme. Pelo contrário, desta vez o machismo e a misoginia é que são alvos de algumas piadas.

THOR

Além do esquisito e paranormal vilão Rowan, bem interpretado por Neil Casey, que personifica o estereótipo do nerd que odeia todos, principalmente as garotas, a presença masculina fica por conta do galã Chris Hemsworth. Famoso pelo papel do poderoso Thor, em Caça-fantasmas ele é reduzido a um secretário atrapalhado e de inteligência limitada, mas surpreendentemente divertido, dentro da proposta do filme. A objetificação do secretário Kevin, vivido por Hemsworth, que é contratado pelas caça-fantasmas somente por sua beleza, entra como uma boa piada na desconstrução que o filme propõe. Bill Murray, Dan Aykroyd e Ernie Hudson, que atuaram como protagonistas no filme de 1984, aparecem em participações especiais, com papéis que nada têm a ver com o original. Vale lembrar que o quarteto clássico ainda contava com Harold Remis, que faleceu em 1984. Outro personagem do original que está de volta é o fantasma Geleia, um dos preferidos dos fãs, que desta vez aparece ao lado de sua versão feminina.

Fazer um reboot é sempre uma opção arriscada, especialmente se o filme em questão for consagrado e tiver uma enorme legião de fãs, como Os caça-fantasmas, que é um dos maiores ícones da cultura pop mundial. Mas Feig e suas comandadas se saíram bem. A não ser para quem é conservador a ponto de achar que a obra original é um cânone sagrado e intocável, ou estúpido o suficiente para se incomodar com qualquer forma de protagonismo feminino. Infelizmente, boa parte dos fãs se encaixa nesse perfil, já que o primeiro trailer oficial, lançado em março deste ano, tornou-se o vídeo mais “descurtido” da história do YouTube, com mais de 500 mil reações negativas à prévia que mostrava as novas caça- fantasmas em ação.

O fato aumentou a expectativa em torno do que seria mostrado no cinema, e o resultado promete agradar tanto a quem viu os filmes antigos como a quem é estranho à trama. Com doses certeiras de nostalgia, algumas surpresas, inclusive depois dos créditos finais, efeitos especiais 30 anos mais avançados, mas sem perder a caracterização original, Caça-fantasmas é capaz de divertir todos os gêneros e todas as idades, com uma história leve, divertida e boas cenas de ação.

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