Novo filme de Almodóvar, que estreia hoje, foca mais uma vez nas personagens femininas

Em 'Julieta', o diretor espanhol volta à boa forma com uma trama de sofrimento, desta vez contada em tom 'sóbrio e contido'

por Mariana Peixoto 07/07/2016 08:17

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Julieta é um filme de Pedro Almodóvar por excelência. É um drama centrado em personagens femininas. A protagonista é uma mãe que sofre com uma perda irreparável e que busca explicações em seu passado para tentar compreender o (aparentemente) incompreensível.

Cenário e figurinos têm sua dose de exuberância: aqui, são pautados pelo azul e vermelho.
No entanto, o 20º filme do cineasta espanhol tem o seu lado anti-Almodóvar. Não há sequer um momento que faça com que o espectador esboce um sorriso. A tragédia (e ela existe) tampouco é capaz de levar o público às lágrimas.


Também não há viradas rocambolescas ou cenas que beirem o surreal. E a personalíssima Rossy de Palma, atriz recorrente na cinematografia do diretor, é quase um corpo estranho na (aparente) normalidade em cena.

Universal Pictures/Divulgação
Longa conta a história da mãe de uma garota que decide desaparecer propositalmente aos 18 anos (foto: Universal Pictures/Divulgação)

Sóbrio e contido. Os adjetivos foram cunhados pelo próprio Almodóvar durante a passagem de Julieta, em maio, pelo Festival de Cannes. “Este filme não é um melodrama ou um ‘almodrama’, como meu trabalho já foi definido. Nos meus melodramas, as pessoas não ocultam seus sentimentos.” E, aqui, tudo é reprimido.

Depois da constrangedora comédia Os amantes passageiros (2013), Almodóvar ressurge em ótima forma. Julieta conta com os elementos de sua melhor produção (há um diálogo deste filme do mesmo patamar do exemplar Tudo sobre minha mãe), mas sob a ótica da contenção, algo novo, ao menos para ele.

Tal característica, vale dizer, vem sob influência da obra que gerou o filme. O roteiro nasceu de três contos de Fugitiva, da escritora canadense Alice Munro (vencedora do Nobel de Literatura em 2013, mesmo ano em que o livro foi publicado no Brasil).


O passional Almodóvar teve que se adequar ao universo um tanto comedido de Munro. Mesmo passeando em mundos distintos, os dois criadores sabem, como poucos, devassar a alma feminina.

Julieta trata da busca da personagem-título (vivida na juventude por Adriana Ugarte e na maturidade por Inma Cuesta) pela filha Antía (Priscilla Delgado). Aos 18 anos, ela desapareceu propositalmente.

Sumiu do mundo mas, principalmente, da mãe. Brilhante, ousada, apaixonada na juventude dos anos 1980, Julieta vai desmoronando, chegando à sombra do que foi.

A narrativa é contada através de flashbacks. E, ao contrário da Glória de Carmen Maura de Que fiz eu para merecer isto? (1984) ou da Raimunda de Penélope Cruz de Volver (2006), mães almodovarianas na força e na ousadia, a Julieta de Inma Cuesta é uma mulher passiva e frágil.

O diretor afirmou, também em entrevista, que o filme só poderia ser lançado nos dias de hoje, de uma Espanha “triste, solitária e carregada de dor”. Almodóvar se disse mais introspectivo. Julieta, comparado à euforia colorida e extravagante da produção dos anos 1980 e 1990, é quase um recomeço. E por mais de uma razão.

O lançamento do filme na Espanha, em abril, sofreu em decorrência da citação dos nomes de Almodóvar e de seu irmão, Augustin, no escândalo Panama Papers. Os dois abriram, no início dos anos 1990, uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Parte da divulgação do filme na Espanha foi cancelada.


Posteriormente, Almodóvar deu a resposta à sua maneira. Afirmou que se os Panama Papers gerassem um filme, ele e Augustin seriam meros coadjuvantes.

As mães de Almodóvar

Que fiz eu para merecer isto? (1984)
No quarto longa do diretor, sua musa da fase inicial, Carmen Maura, vive uma mulher oprimida. Dona de casa que mora num exíguo apartamento com a família (dois filhos adolescentes, um marido abusivo e uma sogra avarenta), abusa de anfetaminas para conseguir sobreviver. Mãe atípica (por isso totalmente almodovariana) a personagem é capaz de dar de presente ao dentista seu filho mais novo. Pedofilia, homossexualidade, prostituição e assassinato ainda estão no cardápio desta comédia.

De salto alto (1991)
Consagrado nas comédias, o diretor, neste nono longa-metragem, constrói uma narrativa em que os momentos dramáticos se sobrepõem aos cômicos. Rebeca (Victoria Abril) espera a chegada de sua mãe, Becky del Páramo (Marisa Paredes). As duas não se veem há 15 anos. A filha venera a mãe, uma cantora e estrela de cinema. Esta é mais uma mãe atípica: não dá a mínima para a garota, que não “combina” com a vida que leva. A primeira parte se desenrola como um melodrama, que vai dando lugar à comédia e, posteriormente, à intriga policial.

A flor do meu segredo (1995)
Leo Macias (Marisa Paredes) é uma escritora de sucesso, porém frustrada. Escreve livros de segunda categoria sob o pseudônimo de Amanda Gris. Seu desespero aumenta com o fracasso do casamento, que a leva a beber e parar de escrever. A figura maternal é secundária na narrativa, mas importante para o próprio Almodóvar. Muitos dos diálogos escritos para Chus Lampreave (que interpreta a mãe da protagonista) foram inspirados na própria mãe do cineasta.

Fox/Divulgação
(foto: Fox/Divulgação)


Tudo sobre minha mãe (1999)
Em um de seus melhores (e mais populares) longas, vencedor do Oscar de filme estrangeiro, o diretor homenageia sua própria mãe, assim como grandes personagens do cinema. Sempre as femininas, pois aqui os homens são relegados a um plano (bem) menor. A morte acidental do filho de uma enfermeira de transplantes de órgãos (interpretada por Cecilia Roth) leva a personagem a Barcelona, para procurar o pai e contar-lhe que seu filho morreu. Perseguida pela culpa, ela só encontra sentido para sua solidão através de uma série de mulheres com quem passa a conviver na cidade catalã.
Fox/Divulgação
(foto: Fox/Divulgação)


Volver (2006)
Casada com um operário mau-caráter, Raimunda (Penélope Cruz) tem um passado mal resolvido com a mãe. Vive, ainda, o diabo em casa para tentar proteger a filha adolescente. Até que consegue resolver, à sua maneira, o problema doméstico, o que a leva a retornar à sua cidade natal. O enredo mescla suspense, drama familiar e comédia em uma narrativa novamente pautada por personagens femininas.

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