Big Jato, de Cláudio Assis, chega hoje aos cinemas

Filme inspirado no livro de Xico Sá narra o percurso de um garoto nordestino com vocação para a poesia que trabalha como assistente do pai num caminhão limpa-fossas

por Carolina Braga Silvana Arantes 16/06/2016 08:00

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TROMBONE COMUNICA/DIVULGAÇÃO
Os atores Matheus Nachtergale e Rafael Nicácio em cena do filme (foto: TROMBONE COMUNICA/DIVULGAÇÃO)
Na Caruaru dos anos 1960, havia um menino com ares de poeta. Queria ser artista. Foi ator, dirigiu peças de teatro, montou uma banda, fomentou cineclubismo. Entrou na faculdade de economia. Na fictícia Peixe da Pedra também há um menino que quer ser um homem das palavras. O pai, especialista em desentupir fossas, valoriza a matemática. Os números é que dão futuro. Entre eles, o racha inerente ao crescimento.

O primeiro menino, Cláudio, abandonou a economia, passou pela comunicação e largou tudo para se tornar diretor de cinema. Um poeta das imagens. O segundo, Xico, se embebedou da anárquica influência de um tio, ignorou os números, entregou-se às letras. Realidade e ficção. Criador e criatura estão em paralelo em 'Big jato', o filme mais leve – e pessoal – da carreira do cineasta pernambucano conhecido por obras como 'Amarelo manga' (2003), 'Baixio das bestas' (2006) e 'Febre do rato' (2011).

É inevitável ver o quarto filme de Cláudio Assis sem pensar no quanto ele parece mudado. Como diz Velho, papel de Matheus Nachtergaele que interpreta dois personagens no longa, eis aqui um cabra que prefere fabricar perguntas a praticar respostas. Será mesmo que o intempestivo cineasta se acalmou? O patriarca de Big jato é adepto de outra máxima “claudiana”: “A curva é que dá sentido”.

 

 

 

“A reta nunca chega em lugar nenhum. As voltas é que dão sentido à chegada. O filme tem isso. Que bom que posso estar chegando a alguns lugares. Estamos mudando o tempo todo”, diz o diretor. Assis pode até não estar tão cáustico, cru, violento como já esteve. Mas DNA é DNA. “Falamos das mesmas coisas: da vida, da formação do caráter”, diz.

ADAPTAÇÃO

'Big jato' é o primeiro roteiro adaptado que ele leva à tela. A base é o romance autobiográfico do jornalista Xico Sá, cearense e compadre do diretor. A história passa nos arredores da Chapada do Araripe, entre Ceará e Pernambuco. O título é o nome dado ao caminhão guiado por Velho, pai de quatro filhos, que ganha a vida limpando fossas. O jovem Xico (Rafael Nicácio) está sempre com ele na boleia do 'Big jato'. Nas horas vagas, devaneia com o tio Nelson (Nachtergaele), o irmão gêmeo de Velho, boêmio e locutor de rádio.

O longa saiu consagrado do Festival de Brasília, com os Candangos de melhor filme, ator (Matheus Nachtergaele), atriz (Marcelia Cartaxo), roteiro (Anna Carolina Francisco e Hilton Lacerda) e trilha sonora (DJ Dolores). “A gente faz (cinema) com uma vontade e um tesão tão grandes. Cada vez mais fico olhando as pessoas. Observo onde riem, aplaudem”, afirma Assis.

Mesmo em tom mais leve, ele renova os votos com o cinema plugado no social. Sobre a fama de polêmico, diz: “Isso é conversa. Sou nada”. Em setembro do ano passado, ele foi banido da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, após tumultuar, com o colega Lírio Ferreira, um debate sobre o filme Que horas ela volta?, de diretora Anna Muylaert. 'Big jato' competiu no Festival de Brasília pouco depois. Assis foi vaiado e chamado de machista. O diretor não nega que é parte e cresceu numa cultura machista. O tema aparece no filme. Como há humor e um certo exagero (ou caricatura?) na postura do protagonista, fica no limiar do preconceito com a crítica.

'Big jato' foi rodado ao longo de seis semanas. Nesse período, a produção transformou o pequeno lugarejo na Chapada do Araripe. Uma parceria com o poder público possibilitou que presos trabalhassem na preparação da locação em troca de diminuição de pena. Como fruto desse trabalho, a rádio construída para o filme é hoje uma creche.

Em outubro, Assis começa uma nova produção. Piedade teria roteiro de Anna Muylaert, mas agora será assinado por Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco. Ele diz que se trata de uma trama na qual ninguém tem piedade de ninguém. Para 2017, prevê filmar Gigantes pela própria natureza. “Na vida, não tem direção de arte. Estamos escrevendo agora sobre a terra de anões que recebe uma ONG americana que quer fazer todo mundo crescer”.

E se a curva de 'Big jato' prenuncia uma chegada, será que Cláudio Assis sabe para onde vai? “Sei nada. Estou em busca do danado do lugar. Que eu vou chegar, eu vou. Vai ser um lugar bonito.”

 

O cineasta da aspereza revela seu lado doce

 Desde que estreou na direção de longas, com 'Amarelo manga' (2003), Cláudio Assis se firmou como um nome singular e incontornável no panorama do cinema brasileiro. Singular porque Assis tem muitas coisas a dizer e sabe dizê-las. Incontornável porque ele fala com propriedade de um extrato social brasileiro – a parcela pobre e marginalizada da população – em geral apenas retratado por cineastas identificados com a “elite branca”, na qual ele não se inclui.

As “verdades inconvenientes” sobre a violência do desejo, a violência de gênero e a violência da subjugação via domínio econômico que ele abordou em sua obra anterior a Big jato ('Baixio das bestas' e A febre do rato, além do já citado 'Amarelo manga') lhe valeram a fama de enfant terrible. É como se Assis tivesse entrado para a família do cinema nacional na pele daquele parente incômodo que azeda as refeições.

Pois nesse seu quarto longa o cineasta se mostra capaz de lançar olhares ternos para seus personagens e tratar com delicadeza os temas de sua predileção. Assim como se conclui, em Amarelo manga, que “só se ama errado”, 'Big jato' atesta que “o amor é como se fosse a delegacia da alma; um ferrolho no sentimento”. Se em Baixio das bestas há uma apavorante cena de estupro de uma mulher pelo líder de um grupo de homens, em 'Big jato' um pai espanca seu filho sob o olhar de toda a família e diz preferir perdê-lo para qualquer coisa, menos a poesia. Tal e qual a condição dos personagens de 'A febre do rato' , a miséria ronda os protagonistas de 'Big jato', de mãos dadas com a humilhação de tirarem “da merda” o seu sustento.

A novidade aqui é que Cláudio Assis deixou de lado a aspereza e o tom de afronta para falar daquilo que quer. Talvez porque, mais do que nunca, o assunto seja ele mesmo – seu mundo interior, em que se entrevê um conflito permanente entre “as vísceras e o juízo”; a ideia de pertencimento a um lugar e a certeza de que “o sertanejo forte é aquele que parte”; a valorização do hedonismo e a necessidade prosaica de se integrar ao mercado produtivo para ter meios de pagar as contas do mês.

Interpretando dois personagens de personalidades opostas, Matheus Nachtergaele confirma uma vez mais seu casamento perfeito com a gramática de Assis. Trata-se de uma parceria forjada na alegria e na tristeza. Como já contou o diretor, Nachtergaele recusou seu convite para atuar em 'Baixio das bestas', após a bem-sucedida experiência de 'Amarelo manga'. Na recusa, o ator disse a Assis que enfrentava um momento de crise pessoal e concluiu: “Não tenho nada de bom para te oferecer agora”. A resposta do cineasta foi: “Então me dá tudo de ruim que você tiver”. O resultado é um (magnificamente interpretado) personagem abjeto.

Ao assistir a 'Big jato', a impressão que se tem é que Cláudio Assis, pela primeira vez, preferiu não esfregar na cara do espectador tudo de ruim que há neste pedaço do mundo neste momento da história, mas deixá-lo sonhar com tudo de bom que possa haver quando se faz a escolha pelo sentimento e pela poesia, apesar de todos os pesares. Parece ser o caso de dizer: obrigada pelo carinho, Claudão!

 

 

4X CLÁUDIO ASSIS

'Amarelo manga' (2003)
É considerado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema um dos 100 melhores filmes nacionais de todos os tempos. Cláudio Assis estreou como diretor de ficção com uma coleção de personagens peculiares e fortes no subúrbio do Recife. Destaque para a interpretação de Matheus Nachtergaele, parceria que dura até hoje.

'Baixio das bestas' (2007)
Assis repete a parceria bem sucedida com os atores Dira Paes (foto) e Matheus Nachtergaele. É a história de uma jovem de 16 anos explorada pelo avô. Conquistou seis prêmios no Festival de Brasília, entre eles, filme, atriz, atriz e ator coadjuvante.


'Febre do rato' (2011)
Poesia e a anarquia se misturam no longa protagonizado por Irandhir Santos, outro parceiro frequente do diretor pernambucano. O longa carrega o inconformismo que também é marca registrada de Cláudio Assis. Febre do rato é uma expressão popular típica do Nordeste, que significa aquele que está fora de controle. O longa ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Paulínea.

'Big jato' (2016)
Quarta parceria com o ator Matheus Nachtergaele. Cláudio Assis se distancia de temas marcantes nos outros filmes, como violência e sexo, para apresentar uma fábula sobre a formação de um menino poeta. É lírico, sem perder a acidez na forma como ele observa a sociedade, as formações familiares e o inerente processo de amadurecimento de qualquer pessoa.

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