João Paulo Miranda ralou para exibir 'A moça que dançou o diabo' em Cannes

Curta, que custou R$ 500, pode dar a Palma de Ouro ao Brasil

por Carolina Braga Luiz Fernando Motta 15/05/2016 10:18

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João Paulo Miranda/Divulgação
A exibição do curta no Festival de Cannes está marcada para quarta-feira (foto: João Paulo Miranda/Divulgação )
“Olá, estou no aeroporto e às 16h embarco. As coisas estão andando, mas ainda não está tudo resolvido”, avisa João Paulo Miranda Maria, no Facebook. A vida do cineasta entrou em ritmo de gincana colegial desde que A moça que dançou com o diabo ficou entre os 10 selecionados para disputar a Palma de Ouro na categoria curta-metragem. A exibição no Festival de Cannes está marcada para quarta-feira.

La Croisette? Tapete vermelho? Por enquanto, glamour é lenda para o diretor, de 32 anos, que mora em Rio Claro, no interior de São Paulo. Não se trata propriamente de um novato. É a terceira vez que João Paulo participa do evento francês. Porém, a estreia na seleção principal exigiu bem mais dele. “Ralação” é pouco para definir a maratona.

O diretor é um “faz-tudo”: roteiro, direção, produção, pós-produção e o que mais precisar. Faz cinema artesanal – mesmo. A moça que dançou com o diabo custou R$ 500 e contou com a colaboração dos amigos. João Paulo fez até rifa em sua cidade para viabilizar o projeto. Equipe técnica e elenco são formados por alunos das oficinas ministradas por ele no interior paulista. O outro projeto que ele levou a Cannes custou R$ 800.

VAQUINHA Quando recebeu a notícia de que apenas ele poderia estar na Croisette, João Paulo apelou novamente para o financiamento coletivo. Afinal, todo mundo merecia viajar para Cannes. “Nessa vaquinha, chegamos a arrecadar cerca de R$ 9 mil. Vamos dividir o dinheiro entre as pessoas que vieram aqui para a França, mas tirando os gastos imprevistos para a confecção do DCP e para a legendagem francesa”, conta.

A saga de A moça que dançou com o diabo não se limitou ao financiamento da viagem da equipe. Para ser projetado no festival, o curta deve obedecer ao formato DCP (tecnologia digital de altíssima resolução), com legendas em francês. Porém, os padrões técnicos franceses não são os mesmos do Brasil.


“A legenda não foi aprovada por ser muito rápida e sem tempo de leitura. Eles não permitem exibir dessa forma”, explica. Na semana passada, surgiu a solução: fazer outra cópia e enviá-la a Paris, onde uma empresa especializada se encarregaria de adaptá-la aos padrões exigidos. Ele desembarcou na França sem saber se tudo correria bem. Felizmente, deu certo.


Desde quarta-feira, o paulista está na charmosa cidade do Sul da França. “Muitos estão surpresos, querem saber mais sobre mim e o cinema que estou construindo no interior de São Paulo”, conta. O modo de produção desse paulista é, de fato, sui generis para quem está acostumado a lidar com a meca da indústria cinematográfica internacional. O estilo de João Paulo foi tachado de “cinema caipira” – e ele concorda com o rótulo.
“Falo sobre coisas que as pessoas costumam chamar de simples, brega e caipira”, resume. A moça que dançou com o diabo é uma lenda contada pelos moradores de São Carlos, no interior paulista. Refere-se à garota de família religiosa que conhece um forasteiro na sexta-feira santa. “Gosto de falar das coisas que vemos no dia a dia, sobre personagens rústicos com marcas de vivência”, define.


O curta de 14 minutos disputará a Palma de Ouro com produções da Espanha, Colômbia, Tunísia, Reino Unido, Filipinas, França, Romênia, Itália e Suécia. “Desta vez, devo voltar de fato com parceiros”, anuncia o brasileiro. Ele espera viabilizar por lá o projeto do longa A casa de antiguidades.

QUINZENA Isabel Penoni e Valentina Homem exibirão Abigail na Quinzena dos Realizadores, enquanto Fellipe Fernandes leva O delírio é a redenção dos aflitos à Semana da Crítica. O documentário Cinema Novo, do diretor Eryk Rocha, vai passar amanhã. O filho de Glauber Rocha volta ao festival 12 anos depois de levar Quimera à competição oficial de curtas.
“Tantos filmes do Cinema Novo foram exibidos e aclamados em Cannes”, diz Eryk. “A geração de meu pai abriu caminho para a nossa geração e agora o estamos percorrendo”, diz. Não se trata, propriamente, de narrativa cronológica do movimento cultural brasileiro que chamou a atenção do mundo. “Não é um filme sobre o Cinema Novo. É com o Cinema Novo. Uma polifonia”, adianta.


Eryk explica que o movimento refletiu o contexto político dos anos 1960/1970 e foi perseguido pela ditadura militar. “Há uma grande sequência que mostra esse período. O Cinema Novo foi estilhaçado pelos militares”, diz. “Inevitavelmente, esse filme dialoga com nosso atual momento político. É impossível não ecoar. Brasil e América Latina vivem ciclos, agora estamos em um momento de interrupção democrática. A pergunta que faço é: como o cinema vai traduzir o país em sua nova fase?”, conclui.

O jornalista que virou cientista

Acervo pessoal
(foto: Acervo pessoal )
O Brasil vai cruzar os dedos. Terça-feira, na estreia de Aquarius, teremos Sônia Braga no tapete vermelho de Cannes ao lado de Irandhir Santos, Maeve Jinkings e do diretor Kleber Mendonça Filho. O longa vai disputar a cobiçada Palma de Ouro na mostra principal.

Aos 47 anos, o diretor pernambucano é praticamente veterano em Cannes. A primeira vez que esteve lá ocorreu há 17 anos, quando trabalhava como crítico. Foram 11 anos de coberturas consecutivas. Em 2005, ainda jornalista, teve seu primeiro filme exibido no festival, o curta Vinil verde. Entre uma entrevista e outra, registrou depoimentos que deram origem a seu primeiro longa, o documentário Crítico (2008), sobre o ofício de escrever sobre a sétima arte. Curiosamente, a estreia na ficção, com o aclamado O som ao redor (2012), escapuliu do radar francês.

“Sempre fui apaixonado por Cannes. Mesmo quando larguei a crítica para fazer O som ao redor, arrumei um cantinho na internet para escrever só sobre o festival”, diz Kleber. Para trazer a Palma de Ouro ao Brasil, ele vai “brigar” com 20 produções assinadas por Sean Penn, Paul Verhoeven, Jim Jarmusch, Pedro Amodóvar e Ken Loach, entre outros diretores.

Aquarius teve orçamento considerado modesto (R$ 2,5 milhões). Sônia Braga vive a jornalista aposentada que mora em um prédio antigo no Bairro de Boa Viagem, no Recife. Ela enfrenta o assédio de uma construtora que pretende demolir o edifício. A estreia no Brasil ainda não foi marcada.

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