Cineastas comentam o cinema atual, a temporalidade e fatores que determinam sua duração

Vários filmes em cartaz em Belo Horizonte não chegam a 100 minutos

por Eduardo Tristão Girão 10/05/2016 08:00

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GLOBO FILMES/DIVULGAçãO
(foto: GLOBO FILMES/DIVULGAçãO)

Prova de coragem, 90 minutos. Martyrs, 86 minutos. De amor e trevas, 98 minutos. O décimo homem, 85 minutos. Heróis da galáxia – Ratchet e Clank, 95 minutos. Eis algumas das estreias da semana que passou nos cinemas de Belo Horizonte. Nesta última leva, apenas um filme chega a duas horas de duração. Somando estes títulos aos que já estavam em cartaz, são pouco mais de 30, dos quais cerca de um terço não ultrapassa os 100 minutos. Os longas estão encurtando ou é mera coincidência?

“Filme tem de durar o tempo que for. Jamais pensaria em adaptar um filme meu a algum tipo de formato. Como filmar está muito caro, muitas vezes é preciso reduzir o roteiro para que caiba num orçamento, mas isso não é o mais importante. O realizador é que precisa encontrar o tempo dele. Mesmo assim, existe uma realidade que não pode ser jogada para cima e o cineasta precisa levar em conta questão de viabilidade. Não pode se lixar para isso”, analisa Roberto Gervitz, diretor de Prova de coragem.

Para ele, a duração de um filme é um dado; o que importa é o ritmo. Gervitz já trabalhou como montador e se diz incomodado com a quantidade de filmes mais longos do que deveriam ser. “O fato de durar muito não faz dele mais denso ou revolucionário. Apenas dura mais. Se o assunto e a linguagem tiverem consistência, tudo bem. Mas não concordo em querer dar a um filme transcendência pelo tempo que ele dura”, opina.

Para além disso, ele lembra que um filme comprido pode representar uma sessão a menos para o exibidor. “Há um padrão que o mercado gostaria que existisse. Cortar o filme por conta disso é uma decisão de cada realizador. Hoje, quem faz um filme de três horas vai enfrentar determinados obstáculos. Obviamente é uma sessão a menos no cinema e o exibidor pensa assim. O Eduardo Escorel fez um documentário sobre o Estado Novo que é maravilhoso, mas dura quatro horas”, diz.

O diretor também afirma perceber impaciência grande por parte do público. Nada baseado em dados, mas na impressão que tem ao observar gente concentrada na tela do celular no meio do escuro do cinema. “As pessoas têm capacidade pequena de concentração, de se entregar a alguma coisa. Telefone, computador, gadgets, tudo isso leva as pessoas a um estado de dispersão. Elas não parecem ter capacidade de ouvir, querem só ficar falando. Existe incapacidade cada vez maior das pessoas de ficar um tempo consigo”, desabafa.

A discussão segue mais ou menos a mesma linha nas palavras de José Pedro Goulart, que verá seu primeiro longa, Ponto zero (que tem 89 minutos), estrear dia 26 deste mês nos cinemas do país. “Há preferência dos distribuidores por filmes mais curtos. Um filme de três horas ocupa o espaço de dois menores do que isso. Fora que o público está mais impaciente para filmes longos, creio, e isso em razão da discussão que costumamos fazer sobre o excesso de opções”, especula.

Goulart revela que seus filmes favoritos são longos e que gostaria de mais alguns minutos de duração para Ponto zero, mas acredita que filmes não devem durar nem mais nem menos do que o necessário. De toda forma, defende os tempos prolongados na tela: “Fazendo roteiro, descobri que o tempo é importante no arco emotivo. Uma história curta pode funcionar bem contada, mas existe um tempo para as pessoas entrarem num tipo de situação emotiva. Isso faz falta”.

COINCIDÊNCIA Mineiro de Belo Horizonte, Ricardo Alves Júnior planeja para o primeiro semestre do ano que vem o lançamento no circuito comercial de seu primeiro longa, Elon não acredita na morte, de 80 minutos. “No processo de montagem, foi acertando o tempo para contar a história de maneira seca e objetiva. Sua duração nem tem a ver com exigência de mercado e, sim, com a poética do próprio filme”, justifica.

Para ele, a concentração de filmes abaixo de 100 minutos em BH é nada mais que coincidência e tampouco acredita em tendência. “Cada história tem seu tempo próprio para ser contada e isso não é uma tendência de hoje. Vejamos Luz de inverno, de Ingmar Bergman, que tem 80 minutos de duração. Já Fanny e Alexander, também dele, tem 188 minutos. Na história do cinema, grandes diretores fizeram filmes de durações distintas”.

Ampliando os exemplos para o Brasil, ele lembra que Kleber Mendonça Filho fez seu primeiro longa, O som ao redor, com 131 minutos e que um de seus últimos filmes, Aquarius, tem 140 minutos. A propósito, este último participa da mostra oficial do Festival de Cannes, disputando a Palma de Ouro com produções de vários países.

“Os exibidores comerciais são capitalistas. Quando exibem filmes de duração menor, podem ter mais sessões numa mesma sala. Por isso a importância de salas como o Cine 104 em BH, que é um cinema comercial, mas com outro pensamento, exibindo filmes independentemente da duração que tenham. Isso só ocorre nas salas de cinema de arte, que são poucas no Brasil”, observa.

Veterano no ramo, o cineasta Helvécio Ratton lembra que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) define como longa a produção cinematográfica com duração superior a 70 minutos. Ele acha que a concentração de filmes mais curtos atualmente em cartaz na capital mineira é obra do acaso. “Isso é um movimento normal. Não é relevante, depende do tamanho de cada história. Eu mesmo tenho filmes de 80, cento e tantos minutos. Quem está fazendo um filme não pensa nisso”, acredita.

Mas não é só isso, finaliza: “Noventa minutos é o tempo que a bunda aguenta ficar na cadeira do cinema, como diria Jean-Luc Godard. Acho filmes longos insuportáveis. E não só pela duração em minutos, mas pelo ritmo, pelo tema. É claro que quando um filme é longo, você quer saber antes que filme é esse, como ele é. Num filme de três horas, eu mesmo começo a me fazer perguntas”.

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