'Rua Cloverfield, 10' aposta em mudança completa em relação ao antecessor

Diretor faz de cenário mais um personagem

por Mario Abbade 10/04/2016 07:00

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(foto: Divulgação)
O cinema está repleto de histórias despretensiosas filmadas com baixo orçamento – se comparadas aos blockbusters – que resultaram em arrasa-quarteirões nas bilheterias. E, quando um filme de Hollywood acerta nesse alvo, já se sabe que está garantida a sua sequência. Cloverfield: monstro (2008), produzido pelo mesmo time do seriado Lost, liderado pelo cineasta J.J. Abrams, é exemplo disso. O longa foi concebido no estilo “fitas encontradas”, e nelas Nova York era dizimada por um monstrengo que fazia parte de uma invasão alienígena.

O novo Rua Cloverfield, 10 seria uma espécie de continuação dessa premissa, a julgar pelo título. Só que J.J. Abrams fez algo inusitado: apostou suas fichas num outro time de roteiristas e no novato Dan Trachtenberg, que faz sua estreia como diretor. Essa decisão transformou o projeto em algo completamente diferente da produção anterior. Sai a criatura destruidora, entra um suspense claustrofóbico em que três personagens são lançados num espaço físico mínimo. Depois de sofrer um acidente de carro, uma mulher (Mary Elizabeth Winstead) é levada por um homem (John Goodman) para seu bunker (um esconderijo subterrâneo que tem tudo o que alguém precisa para sobreviver), onde ele e outro rapaz (John Gallagher Jr.) afirmam que o mundo exterior foi afetado por um ataque químico.

A escolha desse ambiente fechado torna-se o ponto alto da proposta. Se antes a limitação mostrada na filmagem tinha a desculpa de ter sido feita por um personagem que vivia os fatos, agora esse limite é dado pelo cenário. É a partir daí que o talento de Trachtenberg desponta. Ele inicia o filme prestando uma homenagem a Psicose, de Alfred Hitchcock, e depois vai buscando a sua própria linguagem por meio de trucagens e posicionamento de câmera para ressaltar um clima de paranoia, um flagelo presente hoje entre os americanos.

A partir dessa escolha, o medo e o questionamento sobre o que realmente está ocorrendo vão aumentando em meio à trinca de personagens. A relação entre dúvida e certeza é desenvolvida de forma equilibrada, num jogo cênico que arrasta o espectador para dentro da trama. Tudo isso corroborado por boas atuações do elenco, com destaque para Goodman, que sabe como ninguém alternar o típico bonachão (O natal dos Cooper) e um psicopata aterrorizante (Barton Fink).

Essa ambivalência atinge o público, que se sente preso num local fechado com um possível serial killer. Pena que, no terceiro ato, o filme abandone a premissa inicial para ser mais do mesmo e mergulhar numa sequência desastrosa, em estilo filme de herói com direito a uniforme e uma solução à la MacGyver. 

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