Longa mostra como é viver a juventude em bairro na periferia de Contagem

Diretor Affonso Uchoa entrou para a UFMG enquanto seus amigos se tornavam pedreiros. Filme trata do impacto da condição de universitário na comunidade

por Luiz Fernando Motta 18/02/2016 08:00

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Warley desali/DIVULGAÇÃO
(foto: Warley desali/DIVULGAÇÃO)
 

Representar o cotidiano de cinco jovens do Bairro Nacional, em Contagem, foi a forma que o diretor Affonso Uchoa, de 31 anos, encontrou de se aproximar de sua comunidade e, ao mesmo tempo, falar do mundo. Morador dessa região, na periferia da Grande Belo Horizonte, o cineasta idealizou um filme que mostrasse os dilemas da transição entre a adolescência e a vida adulta.


O resultado é A vizinhança do tigre, longa vencedor da edição 2014 da Mostra de Tiradentes, que circulou por outros festivais e estreia hoje em circuito comercial, no Cine 104, na capital mineira.

O filme é classificado como ficção, mas é impossível delimitar o inventivo e o real no dia a dia de Juninho (Aristides de Souza), Eldo (Eldo Rodrigues), Adilson (Adilson Cordeiro), Menor (Maurício Chagas) e Neguinho (Wederson Patrício). Os jovens vivem as angústias e os conflitos das transições da adolescência, período que o diretor chama de “a idade do tigre”.

O título veio de um verso que o próprio cineasta havia escrito, provocado pelos problemas sociais vividos no ambiente em que cresceu e pela necessidade de se firmar trazida pela juventude. “Nesse período, precisamos domar nossa ferocidade e lidar com os perigos à nossa volta. São conflitos do rito de formação, que estão ainda mais latentes quando se cresce circundado pelo crime”, afirma.

Na tela, os jovens aparecem em situações casuais. Em uma região onde as opções de entretenimento cultural são praticamente nulas, os personagens improvisam brincadeiras em locais ermos. Derrubam tijolos em construções abandonadas, espremem frutas nas cabeças uns dos outros e lutam esgrima usando espetos de churrasco. Em algum momento, as drogas se inserem nesse universo.

 

BETO NOVAES/EM/D.A.PRESS
O diretor Affonso Uchoa (E) e dois dos atores do filme (foto: BETO NOVAES/EM/D.A.PRESS)

“Deixei a janela aberta e fiz questão de criar tudo com os atores. Não é uma ficção que leva para outro lugar, tudo é feito em função da história deles. Se não viveram algumas daquelas situações, poderiam ter vivido”, diz Uchoa. O diretor pretende deixar para o público a função de discernir as parcelas de ficção e realidade em seu filme. “Prefiro que cada um pense o limite. A verdade vai variando em função do espectador”, avalia.

UNIVERSIDADE O diretor conta que cursou comunicação social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), enquanto a maioria de seus amigos começava a trabalhar como serventes de pedreiro e balconistas. Ele lembra que alguns colegas traficaram drogas e se tornaram presidiários.

Uchoa percebeu que os moradores do bairro começaram a encará-lo de forma diferente por causa de sua condição de universitário. “Há uma ideia de que fazer faculdade vai te puxar para fora, de que a pessoa tem que melhorar de vida e sair daqui. Fiz um filme contra isso, contra minha distância em relação ao meu espaço de formação, ao lugar dos meus pais, amigos e vizinhos”, conta.

Esse é o segundo longa do diretor, que estreou em 2010 com Mulher à tarde. Depois de ganhar o Prêmio Itamaraty de Melhor Filme pelo Júri da Crítica e pelo Júri Jovem da 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes, A vizinhança do tigre venceu o prêmio de melhor longa do 18º forumdoc.BH e do 5º Cachoeiradoc, na Bahia. Em sua trajetória internacional, o filme viajou para Alemanha, Portugal, Argentina e Equador.

 

 

A versão que será exibida no circuito comercial passou por um novo trabalho de finalização, ganhando tratamento de som e cor. Na próxima quinta, o longa deve estrear em mais oito capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Vitória, Salvador, Fortaleza, São Luís.

A vizinhança do tigre começou a ser gravado em 2009, quando o diretor fez o trabalho de pesquisa e de aproximação com os personagens. De início, ele registrou cenas de alguns amigos. E foi conhecendo outros personagens durante o processo. “Os atores que eu já conhecia se tornaram coadjuvantes no filme. Juninho, Menor e Neguinho entraram depois e acabaram virando os protagonistas”, conta.

As filmagens foram iniciadas sem amparo de nenhum tipo de roteiro. Dois anos depois do pontapé inicial, Affonso esboçou uma lista de cenas que não continham diálogo ou desenvolvimento interno.

MORTE Durante as filmagens, a equipe teve que lidar com a perda de um dos atores. Eldo morreu em 2012, devido à tuberculose. “Foi uma situação trágica. Nas últimas cenas em que atua, a saúde dele já estava bem frágil”, diz o diretor, que era amigo do rapaz. A sequência final é embalada pelo som da gaita tocada por Eldo. “Ele era um cara muito especial, um anjo solitário. Acho que o filme consegue mostrar isso. Ele dispara a melodia para quem vai seguir em frente.”

Além da gaita de Eldo, a música é um elemento primordial na construção do filme. A trilha assinada por Warley Desali reforça a dramaticidade de cada situação, e as canções ouvidas pelos jovens cumprem uma função muito forte de construção dos personagens. Menor ouve rock – grunge dos anos 90 –, enquanto Juninho e Neguinho escutam rap e fazem paródias dos famosos funks proibidões.

Em uma cena emblemática, os meninos usam um funil para amplificar o som do celular, que toca a faixa A bactéria FC, do grupo Facção Central. “As cenas deles improvisando em cima das músicas são muito representativas. Mostram a criatividade desses meninos e todo o jogo do imaginário, do mundo em que gostariam de viver”, analisa o diretor.

Sobre a inserção do filme em circuito comercial, o diretor não tem expectativa de grandes resultados de bilheteria, mas conserva uma visão otimista sobre o cinema que faz. “O primeiro passo é deixar o filme à disposição das pessoas. Trabalhamos cada vez mais para que esse tipo de filme participe da construção do imaginário brasileiro.”

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