'O menino e o mundo' é um filme para público adulto que aborda problemas atuais

Animação de 2014, indicada ao Oscar, volta ao cartaz em apenas uma sessão

por Carolina Braga 21/01/2016 08:00

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Alê Abreu/Divulgação
(foto: Alê Abreu/Divulgação)
O menino e o mundo, filme de animação brasileiro indicado ao Oscar, voltou ao cartaz. Tinha mesmo que voltar. A nomeação anunciada na última quinta-feira funcionou como um holofote para o trabalho lançado em 2014 em apenas 17 salas do país. Mas o retorno repete um erro de entendimento sobre o filme. O longa estará em cartaz em apenas uma sala no Cine Belas Artes, na sessão de 14h. Não se trata de uma animação infantil.

O mundo compreendeu isso e o Brasil ainda não. O menino e o mundo venceu 44 prêmios internacionais, entre eles melhor direção e filme no Annecy International Animated Film Festival, considerado o mais importante voltado para essa linguagem. Foi vendido para 80 países. Estreou na França em 90 salas de cinema em todas as regiões. Se por lá foram 120 mil espectadores, aqui não passou de 35 mil, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine). O tímido retorno não fará diferença.
 
 
 
Os números ajudam a explicar a surpresa quando o nome do brasileiro apareceu entre gigantes norte-americanos como Divertida mente, Anomalisa, Shaun: o carneiro e o japonês Quando estou com Marnie. “Sempre achei que uma indicação seria pouco provável. Só por um milagre. Mas, na manhã daquela quinta, acordei com a sensação de que existia essa possibilidade”, afirmou o diretor Alê Abreu na primeira entrevista coletiva depois que o nome de O menino e o mundo apareceu na seleta lista.

Alê se mantém confiante. “Acredito muito na mensagem universal do Menino. É o mais forte dele”, disse. A distribuidora norte-americana Gkids, especializada em animações independentes e sofisticadas, sempre soube que tinha um bom produto em mãos. Foi decisão do parceiro internacional esperar o momento certo para entrar em uma corrida pelo Oscar. Uma estratégia que deu certo.

O menino e o mundo faz um retrato de uma sociedade carente de novos valores. A história sobre um garoto que parte em busca do pai confronta a subjetividade de cada espectador. “Lida frontalmente com angústias de muitas pessoas, não só de jovens. Tem a questão do desemprego, para onde o mundo caminha. É um filme sem diálogo que comunica muito facilmente. Chega por uma outra porta do entretenimento”, sintetizou Alê Abreu.

A presença dele no Oscar – e em uma edição que promete ser polêmica – é a prova de que mesmo na meca do mercado há espaço para ideias originais. Qualquer espectador mais atento percebe que o diretor não faz qualquer concessão na forma com a qual narra a peregrinação do menino pelo mundo. O longa é ousado na história que conta e na escolha de cada uma das técnicas levadas para a tela. É o reconhecimento de um projeto autoral.

RESISTÊNCIA

O filme nasceu de uma paixão que o diretor teve pelas músicas de protesto nos anos 1960 e 1970, na época imerso em um projeto de animadoc (documentário de animação). “Foi feito sem roteiro. Ele é radicalmente diferente. Quero ser um outro caminho. O meio de construção desse filme é a mensagem dele”, afirma. Alê Abreu está seguro de que chegará um tempo em que as pessoas se cansarão da plasticidade padrão das animações mainstream.

Em O menino e o mundo, misturou técnicas, subverteu o papel da fala dentro de uma narrativa e até inventou idioma. Foram três anos daquilo que Alê chama de “exercício de ser completamente independente” com o orçamento de R$ 2 milhões. O que não é nada para os padrões de Hollywood chama ainda mais atenção para o produto. Agora, os cinéfilos – especialmente os fãs dos desenhos – querem saber: o que está ocorrendo na animação brasileira?.

Alê Abreu tem 44 anos e, desde os 13, está imerso nesse universo. Para ele, o desafio dos profissionais da área é a busca do que significa fazer “a animação brasileira”. “Mais do que sair fazendo filmes ou tentar mudar o que está sendo feito lá fora. Vamos transformando isso. O exercício é pensar: o que é ser um cineasta de animação no Brasil?”.

O diretor não tem a resposta. Sabe que países como Japão, França e o próprio Estados Unidos descobriram um jeito particular. “Não adianta a gente copiar. Sinto-me muito feliz de dar um pequeno passo em direção a isso”, disse. Alê Abreu brinca estar em meio à batalha de David e Golias (1960), o filme de Orson Welles. Não se abate. “Não acho que o Divertida mente seja um ótimo filme. É bom. Vamos tentar fazer o máximo. Fazer guerrilha em Hollywood.”

Parcerias à vista

Quando O menino e o mundo apareceu entre os gigantes no anúncio feito pela Academia de Artes e Ciências de Hollywood, o diretor Alê Abreu estava recluso na Serra da Mantiqueira, no estado de São Paulo. Viu a transmissão pelo YouTube. Está ciente de que terá uma batalha de marketing pela frente. “Nosso desafio é fazer com que o filme seja visto”, reconhece.

Mesmo com a disputa adiante, as energias do diretor estão focadas no novo projeto. O filme Viajantes do bosque encantado inaugura a parceria da produtora dele, a Filmes de Papel, com a Buriti Filmes, de Luiz Bolognesi. Há uma possibilidade de coprodução com o estúdio francês responsável pelo longa As bicicletas de Belleville (2003).

O desejo de Alê é poder se dedicar integralmente à tarefa de diretor. “A ideia é que eu me liberte e possa embarcar nessa viagem desapegado disso e possa dar tudo o que tenho de melhor para a criação do filme.” É sobre duas crianças-bicho perdidas em uma floresta onde ocorrem coisas estranhas. Uma é do reino do sol e a outra da lua, extremos em guerra. “Elas se encontram em um lugar neutro e têm o desafio de ficar amigas”, adianta.

O personagem de O menino e mundo também voltará às telas em uma série de animação francesa. É um projeto de animadoc, a mistura de documentário com ficção. “Vão usar o personagem para mostrar como é a vida de uma criança em vários lugares do mundo”, explica. O projeto terá a supervisão de Alê Abreu.

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