Artistas negros do Brasil criticam o Oscar que só indicou brancos

''Spike Lee encontrou o momento certo para falar'', acredita Zezé Motta, que recentemente viu-se desaparecer em um papel de empregada doméstica na TV

por Carolina Braga Mariana Peixoto 20/01/2016 08:00

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“Não é à toa que ele tem um filme chamado Faça a coisa certa (1989). Foi mais um gol de Spike Lee”, opina a atriz brasileira Zezé Motta. O ator e diretor norte-americano foi escolhido para receber o Oscar honorário em 2016. Anteontem, Spike Lee comunicou sua decisão de não comparecer à cerimônia, marcada para 28 de fevereiro. Mais que isso: ao lado da atriz Jada Pinkett-Smith, ele defendeu o boicote à mais celebrada cerimônia da indústria do cinema em protesto à recorrente exclusão de negros entre os indicados ao prêmio.

O protesto de Spike Lee teve repercussão mundial e arrancou da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood uma reação contundente. Em comunicado oficial divulgado ontem, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs (a primeira negra a assumir o posto), reconheceu a lacuna e anunciou medidas para mudar os critérios de admissão de novos integrantes, para garantir diversidade no perfil dos votantes.
AFP PHOTO /VANDERLEI ALMEIDA
Zezé Motta acredita que boicote de Spike Lee à cerimônia do Oscar é um exemplo: ''Tem que aproveitar essas oportunidades e botar a boca no mundo'', diz atriz (foto: AFP PHOTO /VANDERLEI ALMEIDA )
“Nos próximos dias e semanas vamos analisar o processo de seleção de nossos membros com o objetivo de refletir a diversidade de nossa classe em 2016”, afirmou. Segundo Cheryl, não é a primeira vez que a renovação da Academia torna-se urgente.

 

Entre as décadas de 1960 e 1970, apontou a nota, a meta era rejuvenescer o grupo, “para permanecer vital e relevante”. “Em 2016, a ordem é para inclusão em todas as suas facetas: gênero, raça, etnicidade e orientação sexual. Reconhecemos que são preocupações muito reais da nossa comunidade e contamos com o apoio de todos para que possamos avançar juntos”, disse.

A polêmica veio à tona na segunda, no dia do aniversário de Martin Luther King. Pelo Instagram, Spike Lee publicou texto justificando sua decisão. “Dr. King disse ‘chegará o dia quando será preciso tomar uma posição que não será segura, política ou popular, mas necessária, pois a consciência diz que está certa’”, citou. “O Oscar não é onde o real batalha.” A atriz Jada Pinkett-Smith protestou por meio de um vídeo publicado no Facebook.

Com as hashtags #OscarsSoWhite (Oscar tão branco) e #OscarsBoycott, o movimento ganhou proporção e adeptos. Esnobado no ano passado pela atuação em Selma, o ator David Oyelowo Slams, em entrevista ao site Vulture, questionou a imutabilidade do Oscar. “A Academia é uma instituição em que todos dizem que as mudanças radicais não podem ocorrer rápido. É melhor que isso mude.”

Votante na categoria de documentário, o cineasta Michael Moore também fez coro ao boicote. “Pensei sobre isso o dia inteiro. Não pretendo ir à cerimônia. Não pretendo assistir à cerimônia e não pretendo ir a nenhuma festa relacionada a ela”, anunciou o diretor de Tiros em Columbine (2002) e Fahrenheit 11 de Setembro (2004).

REUTERS/Phil McCarten
Spike Lee com a presidente da Academia do Oscar, Cheryl Boone Isaacs; boicote do cineasta à premiação deste ano levou entidade a prometer mudanças nos critérios de seleção (foto: REUTERS/Phil McCarten)
BRASIL
“Spike Lee encontrou o momento certo para falar. A luta persiste, e a gente tem que continuar dando cotovelada e cobrando cada vez mais nossos direitos”, acredita Zezé Motta. Com 50 anos de carreira, a atriz brasileira observa uma preocupação maior relacionada à diversidade racial. “Estou muito feliz com o protagonismo de Taís (Araújo) e Lázaro (Ramos), mas acho que ainda falta espaço para muita gente”, cobra. É preciso também avançar em relação aos personagens.

Em 2014, Zezé Motta vivenciou experiência que classifica como humilhante. Foi chamada para fazer Sebastiana, uma empregada doméstica na novela Boogie oogie. “Nada contra, mas quero saber o conteúdo”, frisou. A promessa é de que seria a mãe da personagem de Fabrício Boliveira, cujo sonho seria se tornar diplomata. Ela seria a pessoa responsável para que o filho lutasse por isso, mas a atuação incisiva que sua empregada teria se perdeu ao longo da novela, escrita pelo português Rui Vilhena. "A gente tem muita luta pela frente e tem que aproveitar essas oportunidades (como faz Spike Lee) e botar a boca no mundo”, afirma Zezé.

 

Para o cineasta Joel Zito Araújo, diretor de A negação do Brasil, a distorção apresentada na lista de indicados ao Oscar é fruto do perfil de votantes da Academia. Por isso, ele considera interessante não apenas o protesto de Lee como a resposta da instituição. De acordo com levantamento feito pelo jornal Los Angeles Times, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem hoje 6 mil integrantes. Desses, 94% são brancos, 77% homens e 86% com mais de 50 anos de idade.

Jair Amaral/EM/D.A Press
Para o coreógrafo Rui Moreira, situação do Brasil é pior que em Hollywood; por aqui, ele aponta, a ausência de pessoas negras entre os ''indicados e laureados num prêmio passa batida'' (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
“Essas gerações mais velhas não só não têm olhos para a diversidade como também são reativas. Todas essas transformações da sociedade, aos olhos deles, são vistas como aberração, pressão indevida. Eles querem manter a mentalidade de outra época”, analisa Joel Zito.

Decano do cinema brasileiro, o ator Milton Gonçalves tem uma opinião diferente da de seus colegas de profissão. “Não vamos colocar isso (o fato de nenhum negro ter sido indicado) como se fosse preconceito. O cinema e o teatro norte-americanos sempre foram muito gentis com os atores negros. Se este ano não tem nenhum indicado, é porque não houve um grande filme com eles.”

Gonçalves se diz mais preocupado com o Brasil. “Nos EUA, o presidente é negro e benquisto. Nós nunca tivemos um presidente negro, nem um perto disso.” O bailarino e coreógrafo Rui Moreira é outro que traz a questão para o país. “É interessante observar como a ausência de negros em um grande prêmio causa manifestações em todo o mundo. No Brasil, uma das fortes diásporas negras no planeta, a falta de indicados e laureados num prêmio (de teatro ou cinema) passa batida.”

Já o ator Luis Miranda afirma que a Academia de Hollywood precisa se conscientizar. “(A falta de indicados negros) é um desrespeito não só com os atores negros, mas com a classe artística como um todo.”

Filme repetido
Neste século, o Oscar já foi branco (ou tão branco, como comprova a hashtag #OscarsSoWhite) outras vezes. A primeira, em 2001 (que deu o troféu de melhor filme para Gladiador, ator para Russell Crowe e atriz para Julia Roberts). A segunda, uma década mais tarde, que premiou O discurso do rei, Colin Firth e Natalie Portman como melhores filme, ator e atriz.

O embranquecimento da maior premiação da indústria ainda se repetiu na edição de 2015. Selma – Uma luta pela igualdade, longa-metragem sobre a histórica marcha pacifista organizada por Martin Luther King em 1965, concorreu a melhor filme. Mas nem por isso nenhum de seus atores foi indicado, tampouco sua diretora, Ava DuVernay.

A edição passada do Oscar passou para a história como aquela em que nenhum negro foi indicado e nenhuma mulher apareceu nas categorias de direção, roteiro e fotografia. Os discursos de agradecimento mais contundentes – como o de Patricia Arquette, eleita a melhor atriz coadjuvante – enfatizaram as diferenças entre homens e mulheres em Hollywood.

O mesmo Spike Lee que vai boicotar a premiação de 2016 afirmou, em 2015, ao site The Daily Beast, que “quem pensou que este ano ia ser como no ano passado é retardado”. Ele referia-se à edição de 2014, que deu a 12 anos de escravidão os principais troféus.

E é também de Spike Lee uma das mais notórias brigas da indústria. Em 2012, quando Quentin Tarantino lançou Django livre, o cineasta negro classificou de “desrespeitoso” o faroeste ambientado durante a Guerra Civil americana. “A escravidão nos EUA não foi um western spaghetti de Sergio Leone, mas um Holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”, acrescentou.

A polêmica entre os dois cineastas voltou à tona em novembro, quando Tarantino esteve no Brasil para lançar Os oito odiados, atualmente em cartaz. Quando perguntado se faria um filme com Lee, Tarantino, que pretende dirigir somente mais dois longas, afirmou: “Só tenho dois filmes mais para fazer. Não vou desperdiçá-los com Spike Lee.”

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