Othon Bastos participa de sessão comentada do clássico 'São Bernardo', de 1972

Um dos nomes mais importantes do cinema, do teatro e da TV no Brasil, o ator conversa sobre o filme nesta segunda-feira, no Cine Humberto Mauro

por Walter Sebastião 14/12/2015 08:30

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Bárbara Lopes/Divulgação
(foto: Bárbara Lopes/Divulgação )
Estará nesta segunda-feira em Belo Horizonte uma das mais importantes personalidades da cultura brasileira: o ator Othon Bastos, de 82 anos, 63 deles dedicados a atividades profissionais no cinema, televisão e teatro. Com o diretor de fotografia Lauro Escorel, Othon participa de uma sessão comentada de um dos clássicos do cinema brasileiro que ele estrelou: São Bernardo, realizado em 1972 por Leon Hirszman. Será às 20h, na Sala Humberto Mauro do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro).

 

Interpretando grandes ou pequenos papéis, Othon Bastos é um elegante e sofisticado construtor de personagens que pela poderosa presença em cena protagonizaram momentos históricos da dramaturgia brasileira. Quem duvida é só se lembrar de um dos mais recentes trabalhos, o mordomo Silviano da novela Império, da Globo. “É ilusão essa história de ser ator de cinema, de teatro, de televisão. Você é ator. São diferentes espaços que, com o tempo, você aprende a dimensionar”, garante.


Othon Bastos tem consciência de todas as reverências e o peso da atuação em São Bernardo. Mas avisa: “Nós, atores, não paramos. Continuamos trabalhando. É preciso estar sempre evoluindo. Jean Paul Sartre dizia que devemos nos renovar todo dia”, argumenta, prudente. Ele até considera o filme como o momento mais importante de sua carreira. “Foi maravilhoso criar diretamente a partir de texto tão expressivo”, observa, revelando que Hirszman não seguia roteiro, lia o texto de Graciliano Ramos com os atores às vésperas da filmagem, preparando cada cena.

Entendimento “Jung diz que quem olha para fora sonha e que quem olha para dentro desperta”, continua o ator. “Meu trabalho foi, conversando com Leon Hirszman, despertar o personagem e me despertar com ele. Contam que, certa vez, Michelangelo estava no ateliê e um aluno perguntou o que ele faria com uma enorme pedra de mármore. E ouviu como resposta: ‘Não vou fazer, vou limpá-lo’. Quando pego um personagem é assim que trabalho: vou limpando.”


“Criar é mais importante do que ser feliz”, prossegue Othon Bastos, evocando canção do conterrâneo baiano Walter Queiroz. “Não importa o resultado, mas o que você traz para aquela atuação. Personagens têm que ser criados assim”, defende, modulando o que interpreta como experiência sempre renovada. “Sempre discuto os personagens com o diretor porque acho que é assim que vem o entendimento, a possibilidade de acertarmos e da criação com consciência.”


Para Othon Bastos, se o diretor já chega com tudo definido o ator não se sente ator, se sente uma marionete. “Eu, nos meus trabalhos, nunca me senti assim”, garante, elogiando diretores que sabem ouvir. Veio do ator a sugestão a Gláuber Rocha para que o cangaceiro Corisco, de Deus e o diabo na terra do sol, contasse a história dele em vez de usar o recurso de flashback. “Não queria um cangaceiro comum, queria dar a ele outra dimensão, épica”, justifica, lembrando que o personagem fala em tom suave, e não gritado. “Não precisava.”


Foi a atuação em Deus e o diabo na terra do sol que abriu as portas do cinema para Othon Bastos. Mas surgiu um problema: todos queriam que ele fizesse bandidos, homens violentos, cangaceiros. “Depois de Corisco, passei cinco anos sem aceitar papéis por isso. Quando voltei fui fazer Bentinho, de Paulo César Sarraceni, inspirado em Dom Casmurro, de Machado de Assis, personagem mais interiorizado.


“Cada personagem é um mundo diferente, é preciso descobrir como fazê-lo”, ensina Othon Bastos. “Eu só sei trabalhar com o coração. E o coração, diz Lao-Tse, vê antes dos olhos”, explica, defendendo que atuar é sempre aprofundamento do personagem.

 

 Embrafilme/Divulgação
Othon e Isabel Ribeiro em cena do filme de Leon Hirszman (foto: Embrafilme/Divulgação)
 

 O acaso mudou sua vida

 

Othon Bastos é baiano da cidade de Tucano. No início dos anos 1950, fixou residência no Rio de Janeiro, estudando em colégio interno. O ingresso no mundo das artes ocorreu por acaso. No colégio, certa vez, alunos decidiram fazer uma paródia de Otelo, de Shakespeare. A função de Othon era de ponto, escondido debaixo de mesa, soprando o texto para os atores.


O escolhido para fazer Yago, o venenoso amigo de Otelo, foi Walter Clark. “No dia da estreia, com todo o colégio esperando a apresentação, meia hora antes de abrir as cortinas, Walter Clark disse que não teria coragem para entrar no palco. E o único que podia fazer Yago, porque conhecia o texto, era eu. Fiz sem compromisso. E minha vida mudou para sempre”, conta.


“Quem quiser saber de mim que veja o que fiz. Está tudo lá”, afirma Othon Bastos, sem esconder aversão a memórias. Rever São Bernardo, conta, é doloroso, já que praticamente todos os envolvidos no filme morreram. “O que traz um choque grande e inacreditável saudade de todos os colegas que fizeram deste filme um marco.”


Othon recorda que todos acreditavam que o filme seria maravilhoso, mesmo com a falta de dinheiro, que trouxe muitos obstáculos à sua realização. O fato de, até hoje, não ter se enveredado pela carreira de diretor ganha explicação divertida: “Não tenho paciência. Peço uma coisa ao ator, ele não faz, eu vou lá e faço. Acho que a conversa do ator com o diretor é também uma forma de dirigir”, observa.

 

 

Quadro a quadro

 

Verdade

“Meu objetivo é trabalhar, trabalhar e trabalhar-me, estar buscando sempre
o máximo que está dentro de mim.
Não busco a perfeição, porque é algo
que você nunca alcança, mas o primeiro, o segundo degrau, para chegar onde quero. O personagem me conduz à verdade dele, que é mais importante
do que a minha verdade.”

Consciência

“Felicidade não é sucesso, glória, poder, mas consciência, saber quem você é na vida. É bom não se castrar, não ficar achando que alcançou o máximo, porque o máximo ninguém alcança. Às vezes me pedem conselho, e o conselho é: ‘Não parem de trabalhar’. Se te convidam para varrer a rua, faça com toda dignidade, de modo que as pessoas que passem por ali e te vejam respeitem e digam: ‘Eis ali um varredor de rua’.”

Interpretação

“Certa vez, fiquei olhando uma criança de 4 anos brincando com uma boneca, dando comidinha, conversando com ela e tudo mais. Ela me perguntou por que estava olhando. Respondi que estava gostando de ver ela brincar. E ela respondeu: ‘Não estou brincando. Não é brincadeira, porque acredito no que estou fazendo’. Foi a maior lição de interpretação que eu tive na vida. Aquela criança me ensinou o que é ser ator.”

Diretores

“Tudo depende do hábitat de trabalho que o diretor cria. Há pessoas que criam um clima ótimo para trabalhar. Outros ofendem, gritam, acham que o mais importante é ele. Gosto de trabalhar com gente jovem, porque os jovens têm outra visão da vida e vão quebrando conceitos e preconceitos. Como não se submetem ao seu conhecimento, você vai aprendendo outras coisas com eles.”

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