Porta dos Fundos estreia sua primeira série produzida para TV

História que será exibida pela Fox a partir de segunda-feira explora a morte de um mágico durante apresentação em festa infantil

por Carolina Braga 31/10/2015 10:00

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FOTOS FOX/DIVULGAÇÃO
Cena da série O grande Gonzalez, dirigida por Ian SBF (foto: FOTOS FOX/DIVULGAÇÃO)
 

O ator Luis Lobianco tinha 20 anos de carreira quando recebeu o convite que virou sua vida de cabeça para baixo. No início, a proposta de criar um canal com esquetes de humor para a internet soou como uma aposta para o ator de teatro, que se confessa bem distante da imagem do nerd da rede. Mas havia um detalhe: “Porta dos Fundos nunca quis ser um projeto medíocre”, assegura.

Com 10,7 milhões de inscritos no canal do YouTube e uma quantidade de visualizações que beira a marca dos 2 bilhões, aquela ação entre amigos é hoje um dos projetos transmídia mais bem-sucedidos do Brasil. Desde 11 de março de 2012, foram publicados 1.090 vídeos na plataforma on-line. O Porta também já fez livro, duas webséries, programa de turismo, peça de teatro e vem aí Contrato vitalício, o primeiro longa-metragem.

O que nasceu para a web também se expandiu para a TV. Como um ensaio, os vídeos que circularam na internet entraram na grade do canal Fox desde o ano passado. Por ali, os tentáculos do Porta dos Fundos alcançam novos públicos. E eles querem mais. Estreia na próxima segunda, às 22h, O grande Gonzalez, primeira série inédita com a assinatura do coletivo fundado por Antônio Tabet, Fábio Porchat, Gregorio Duvivier, Ian SBF e João Vicente de Castro, planejada e produzida especificamente para televisão.

“A gente começou na internet, mas nunca dissemos que iríamos ficar só ali”, diz Luis Lobianco. Ele é o protagonista do seriado, que mistura doses do gênero policial ao humor naturalmente negro do Porta. É a história de um mágico, animador de festa infantil, que morre na frente de 30 crianças ao realizar o que seria seu truque mais perigoso, a caixa de tortura.

A investigação do que houve com o mágico se estende ao longo de 10 episódios. Trata-se de uma inovação em conteúdo para o Porta dos Fundos, já que o grupo envereda por um gênero (o policial) que ainda não havia explorado. Os fãs da internet, no entanto, podem estranhar a forma como a produção será entregue. O que manda é a lógica da televisão, ou seja, um capítulo de 30 minutos por dia, ao longo de duas semanas.

Os episódios estarão disponíveis no Fox Play, a plataforma de streaming do canal, meia hora depois de sua exibição. Como brinde, os assinantes do canal também poderão ver o episódio seguinte na sequência.

PORTE
Embora anunciado há tempos, somente em janeiro os integrantes do Porta dos Fundos encaram o set de filmagens de seu primeiro longa, Contrato vitalício. Até aqui, o esquema da televisão é a experiência mais robusta do grupo. Foram sete semanas de trabalho com uma equipe de 30 profissionais, especialmente contratados, para realizar O grande Gonzalez. Apesar disso, o diretor Ian SBF afirma que estar na TV, na internet, no cinema ou nas páginas de um livro não faz diferença para eles na hora da criação.

“A gente sempre encara conteúdo como conteúdo. Não nos importamos para onde vai. Pensamos primeiro o que fazer e depois na plataforma”, diz. SBF foi um dos roteiristas do programa global Junto e misturado, mas nunca amenizou suas críticas à TV aberta. Ainda assim, reconhece que levar o conteúdo do Porta dos fundos para a telinha significa encontrar novos públicos.

 

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Luis Lobianco interpreta o protagonista de O grande Gonzalez (foto: FOTOS FOX/DIVULGAÇÃO)
 

Quando SBF começou a negociar a parceria com a Fox, lembra-se de ter a impressão de que o público do Porta dos Fundos era muito maior do que o que o canal poderia oferecer. “Não é verdade. Existem públicos muito distintos. Não nos vejo fazendo O grande Gonzalez na internet. O YouTube é muito de nicho”, avalia.

Segundo o diretor, o que define o destino de um conteúdo com a grife Porta dos Fundos é basicamente a duração. “Se for uma coisa de uma hora e meia, é para cinema”, sintetiza. O diretor confessa que a telona é o que atualmente mais atrai a atenção dos sócios. “Acho que estamos caminhando mais para este produto, mas nunca vamos deixar de fazer nossos vídeos para o YouTube. Não nos vejo pendendo para nenhum formato, janela ou duração. Vamos fazer tudo.”

O Porta dos Fundos começou a funcionar em uma sala de 20 metros quadrados, no Centro do Rio de Janeiro. Hoje, emprega 50 pessoas e mudou-se para um casarão de quatro andares. O lema lá é a ausência de censura. “A gente organiza desorganizando. Não existe o ‘sentar a bunda’ para escrever. As coisas vão surgindo naturalmente”, conta SBF.

No plano de negócios da empresa, mesmo que ainda incipiente, já caminham as análises sobre a última novidade do YouTube: a cobrança de assinaturas. Quem não quiser ver propagandas antes dos vídeos poderá pagar um valor mensal. “Acho que é uma coisa que pode funcionar. Ainda não sei se vamos entrar nessa. É uma coisa que vejo com bons olhos”, afirma ele.

É melhor que as crianças que têm medo de palhaço nem vejam Fábio Porchat caracterizado para O grande Gonzalez. A aparência é sinistra. Ian SBF e Luis Lobianco dizem que a série é bem diferente de tudo o que fizeram até agora. “Nunca vi o Fábio (Porchat) fazendo um palhaço desta maneira, nunca vi o Luís fazendo um mágico. É bem legal ver essa composição”, afirma o diretor.

“É um clima de policial CSI (série de ação americana) o tempo inteiro. Cada episódio tem um suspeito que conta sua versão”, explica Lobianco. Ele diz que, enquanto filmava, se lembrou bastante do clima dos livros de Agatha Christie, cuja obra leu na adolescência. “Mas o Porta está ali o tempo inteiro. Às vezes mais à frente ou mais ao fundo, mas é o Porta”, garante.

Para o ator, o maior desafio na composição da série foi fazer um produto a que os próprios criadores gostassem de assistir. Aliás, essa é uma máxima por lá. “É desafiador, porque são muitas cabeças, pontos de vista. Para chegar a algum lugar, enfrentamos um primeiro desafio, que é interno. Acho que é por isso que conseguimos colocar coisas tão instigantes no ar”, afirma Lobianco.

Também estão no elenco Antônio Tabet, como o policial, Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Clarice Falcão, Gabriel Totoro, Rafael Infante, Thati Lopes, Camilo Borges e Flávio Pardal.

Portas abertas

» LIVRO

Lançado em 2013, reúne 37 roteiros das esquetes que circulam na internet. Um diferencial é que os textos são comentados pelos autores Gregório Duvivier, Fabio Porchat e Gabriel Esteves.

» WEBSÉRIES
Além das esquetes lançadas semanalmente, foram publicadas no canal do YouTube duas webséries. Refém, com cinco episódios, Viral, com quatro, e também um programa de viagens apresentado por Porchat.

» FILME
Prometido para o ano que vem, Contrato vitalício será rodado em janeiro de 2016. “Não será nada do que as pessoas esperam”, diz o diretor Ian SBF.

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