Para diretor de '45 anos', chance no Oscar ou Bafta será mérito dos atores

Em segundo longa como diretor, Andrew Haigh se orgulha do par formado por Charlotte Rampling e Tom Courtenay, vencedores da Berlinale

por Agência Estado 29/10/2015 12:13

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Havia grandes interpretações, especialmente femininas, na Berlinale. Em fevereiro. Alba Rohrwacher poderia muito bem ter bisado a Taça Volpi que recebeu em Veneza, no ano passado, por seu papel em Hungry hearts, dirigida por seu companheiro, Saverio Costanzo. Alba é excepcional em Virgem juramentada, de Laura Bispuri. Alba poderia e talvez devesse ter ganhado, até como forma de recompensar o belo filme de Bispuri. Mas ninguém reclamou quando o júri outorgou os dois prêmios, melhor ator e atriz, ao casal de 45 anos. O filme do inglês Andrew Haigh é muito bom. E o casal, excepcional, é formado por dois ícones, Charlotte Rampling e Tom Courtenay.

Imovision/Divulgação
Artistas veteranos com trajetórias emblemáticas em obras de diretores consagrados, Charlotte Rampling e Tom Courtenay estrelam segundo longa de Andrew Haigh (foto: Imovision/Divulgação)
A história é de um casal que deixou de festejar seus 40 anos de união e agora planeja uma grande festa para os 45. Mas ela descobre essa carta que diz que um antigo amor do marido, uma mulher que morreu há muitos anos, teve o seu corpo encontrado, intacto, na neve.

 

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Esse cadáver eternamente jovem vem perturbar o que seria a celebração, e aliás não há o que celebrar. Apesar da festa programada, o casamento está se desintegrando. Andrew Haigh conversa pelo telefone com o repórter. Está em São Francisco. Por que os EUA? O cineasta já está em plena campanha do Oscar para seus atores?

"Gostaria muito que eles ganhassem, menos por mim e pelo filme, mas por eles, que se integraram ao projeto com tanto entusiasmo. São Francisco tem sido minha casa nos últimos dois ou três anos por causa do show (série) Looking." Antes de virar diretor, Haigh foi produtor de filmes como Gladiador, de Ridley Scott. Ele produz Looking, e a série, planejada para duas temporadas e prestes a tornar-se filme, ganhou elogios pela forma como aborda as vidas de três amigos gays em São Francisco.

 


Haigh jogou fora a chave do armário há tempos. É gay assumido. Conta que, ao adaptar a short story de David Constantine, já pensava em Charlotte para o papel. "Tinha de ser uma mulher que exibisse as marcas do tempo sem ter perdido a beleza. E, dadas as sutilezas do roteiro, não poderia ser só uma atriz bonita. Tinha de representar. Charlotte reunia todas as qualidades. Quando ela aceitou, senti que já tinha meio filme. Mas ainda precisava do ator. Comecei a fazer combinações. Tom (Courtenay) foi a melhor solução. É tão icônico como Charlotte."

 

Importância dos atores
Antes mesmo de falar sobre 45 anos com o diretor e roteirista Andrew Haigh, o repórter formula uma pergunta, e adverte que quer matar uma curiosidade. Ele viu Cinco dias num verão, de Fred Zinnemann, de 1982? "Excuse me?" Haigh não entende a pergunta.

 

O repórter explica. No filme de Zinnemann, Sean Connery faz um guia da montanha. O tempo está passando, ele envelhece e aí ocorre um incidente. Uma escavação na neve eterna revela o corpo de um alpinista que morreu. Sua noiva, na época, para quem o tempo passou e ela envelheceu, é confrontada com seu amor eternamente jovem.

AFP PHOTO / JOHN MACDOUGALL
Aos 42 anos, Haigh tem nas mãos um longa aclamado pela crítica e comenta possibilidades de entrar nas disputas de Oscar e Bafta: ''Não vou negar que tenho expectativa'' (foto: AFP PHOTO / JOHN MACDOUGALL)
Há uma situação parecida em 45 anos, o segundo longa de Haigh como diretor, após Weekend, de 2011. "Jura que isso é verdade? Conheço Zinnemann, claro, mas por seus clássicos dos anos 1950. Nunca soube da existência desse Cinco dias de que você fala. Como nunca ninguém me falou desse filme?". Andrew Haigh promete que vai correr atrás. "O curioso é que cheguei a pensar em Sean (Connery) para o papel de Tom Courtenay. Nem cheguei a formular o convite, porque, em seguida, fiz minha opção por Tom e ele aceitou."

Courtenay fez filmes que pertencem à história. Billy Liar, de John Schlesinger, Doutor Jivago, de David Lean, O fiel camareiro de Peter Yates. Charlotte Rampling também fez filmes emblemáticos de grandes diretores - Os deuses malditos, de Luchino Visconti, Porteiro da noite, de Liliana Cavani.

 

"Quando os vi juntos no set, representando sua primeira cena, pensei comigo: 'Agora é só eu não errar'. Havia neles sinceridade, elegância. A personagem está implodindo, mas Charlotte mantém a fachada", ele observa. Haigh observa que, embora tenha participado de filmes grandes, e grandes filmes, como o já citado Gladiador, o que o atrai de verdade são as histórias intimistas. "Gosto de filmes que falem de gente. Mesmo Gladiador narra um drama humano numa época histórica de grande convulsão."

A base da história é real - o escritor David Constantine já contou como estava na França, há muitos anos, e viu na mídia que o cadáver intacto de uma mulher que morrera décadas antes fora encontrado inteirinho na neve. Constantine ficou fantasiando sobre como essa erupção do passado poderia repercutir na vida de uma pessoa, hoje. E foi desenhando o conflito de 45 anos. Haigh conta que, por se tratar de uma história curta, ele manteve a origem, mas tomou liberdades para dar consistência dramática aos personagens e à situação geral. Há um sótão, na casa, no filme.

AFP PHOTO/TIM BRAKEMEIER
Casal de protagonistas conquistou prêmios principais de atuação na Berlinale, em fevereiro (foto: AFP PHOTO/TIM BRAKEMEIER )
Isso é coisa dele? "Creio, para ser honesto, que David (Constantine) faz uma breve referência, en passant, mas eu achei que precisava explorar mais esse lado. Todos temos nossos esqueletos no armário. O sótão é uma metáfora clássica das coisas que acumulamos na mente. Esse é um filme sobre passado, claro."

E como é trabalhar com atores que têm uma história própria? "Tivemos um período de ensaio, quando pedi a Charlotte e Tom que improvisassem algumas cenas. Eles criaram alguns diálogos que incorporei. No set, raramente improvisávamos. O diálogo vinha naturalmente, porque parte já era deles. Mas um set oferece surpresas que acho importante aproveitar. Por exemplo, a direção de arte colocou um piano na casa. Charlotte me disse que tocava. Dedilhou algumas notas. Pedi-lhe que tocasse de verdade. A cena não estava no roteiro, mas virou uma das minhas preferidas no filme."

O filme estreou com críticas ótimas na Inglaterra. É filme de Bafta, o Oscar inglês, portanto, pergunta o repórter? "Não vou negar que tenho expectativa. Embora tenha 42 anos e uma carreira como produtor, como diretor estou apenas no meu segundo longa. Um Bafta não é de se desprezar (risos). Mas eu acredito que, se o filme tiver chance, será pelos atores. São fantásticos. Foi um privilégio filmar com Tom e Charlotte."

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