Wagner Moura ganha elogios em 'Narcos', mas sotaque colombiano não convence

Ator baiano tropeçou no 'paisa' e no 'pues' na pele do traficante Pablo Escobar

por Carolina Braga 06/09/2015 06:00

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Daniel Daza/divulgação
O ator brasileiro Wagner Moura em cena da série Narcos, rodada na Colômbia e falada em espanhol (foto: Daniel Daza/divulgação)

O Netflix confirmou nova caravana a Medellín para 2016. O sotaque “malhado” de Wagner Moura como o narcotraficante Pablo Escobar – um dos temas mais comentados nas redes sociais, que rendeu assunto na imprensa brasileira na semana de estreia de Narcos, série dirigida por José Padilha – foi apenas um detalhe. Passou longe de abalar a avaliação positiva da produção. O anúncio da próxima temporada, aliás, foi mais rápido que o da badalada Sense8: menos de uma semana depois de Narcos entrar no ar.

“Estamos felizes com o sucesso de público, trabalhando com afinco nos roteiros e na pré-produção na Colômbia”, afirmou Padilha. Ele também é produtor executivo do projeto em parceria com Eric Newman e Adam Fierro, responsável por Walking dead e Dexter. O trabalho já recomeçou em Bogotá, capital colombiana.

Narcos mostra o esforço americano e colombiano para combater o temido traficante Pablo Escobar e o cartel construído por ele em Medellín. Satisfeito ou não com as críticas a seu sotaque, o ator baiano Wagner Moura não tem do que reclamar. No foco da crítica internacional, está confirmado na segunda temporada.

“Moura, que pode fazer muita coisa com um simples olhar, nos entrega um homem que parece não saber para onde caminha”, escreveu Neil Genzlinger, do New York Times. “Vemos a força da atuação de Moura, a quem nunca é demais dar crédito”, registrou Tim Goodman no The Hollywood Reporter. Pela primeira vez o brasileiro alcança tamanha projeção internacional. A participação de Wagner como Spider em Elysium (2013), de Neill Blomkamp, não repercutiu dessa maneira.

A série é apontada como uma das boas surpresas do catálogo do Netflix em 2015. No popular portal de cinema e entretenimento Internet Movie Data Base (IMDB), a nota atribuída por mais de nove mil usuários e fãs é 9,2, enquanto Breaking bad alcançou 9,5 e Homeland, 8,5. Os portais Metacrític e Rotten Tomatoes, da crítica especializada, também aprovaram Narcos.

REPERCUSSÃO
Oportunidade para abrir caminhos para os brasileiros na meca da indústria cinematográfica, Narcos deu muito o que falar na América Latina, em especial na Colômbia. “Meses atrás, quando assisti ao trailer pensei: mais do mesmo”, admite o arquiteto colombiano Felipe Martinez Aristizabal, radicado em Belo Horizonte. Mas assim que os episódios foram disponibilizados, ele não resistiu e foi conferi-los. Surpreendeu-se com a produção e o modo como foi construída a narrativa sobre Pablo Escobar e o narcotráfico na Colômbia. Entretanto, não deu outra: “Achei muito esquisita a torre de babel. A mistura de sotaques latinos com americanos pode passar despercebida para qualquer espectador até de fala hispana, mas não para um colombiano”, critica.

Ator dedicado, Wagner Moura se mudou para Medellín seis meses antes de começar a filmar e engordou 20 quilos. A língua espanhola, porém, nunca foi o forte do baiano. Nas entrevistas sobre Narcos, fez questão de ressaltar a preocupação em diferenciar o sotaque de seu Pablo daquele usado pelos argentinos, por exemplo. Mas o esforço foi em vão.

A estudante argentina María Florência Belotti se incomodou com o que ouviu. “Achei raríssimo, mesmo que não seja colombiana. Fui enganada”, afirmou. Felipe Aristizabal estranhou a tentativa do ator de reproduzir o sotaque dos moradores daquela região colombiana conhecido como paisa, marcado por interjeições.

“É um dos sotaques mais característicos da Colômbia. Ali, o espectador do meu país não consegue se encontrar com Wagner Moura”, observa. “Ele não consegue perder a nasalidade do português e acha que o uso excessivo da palavra pues (equivalente ao uai mineiro) basta para o paisa”, critica.

Por outro lado, Aristizabal elogia a interpretação do brasileiro ao encarnar um Pablo Escobar assassino e sanguinário. “Ele é engraçado, mas sem cair na caricatura. Pra mim, a pior representação é a da mexicana Adriana Barraza como a mãe de Escobar. Ao lado dela, o Wagner é um paisa”, brinca o arquiteto.

O publicitário colombiano Anibal Tapia aprovou o brasileiro. “Ele está muito bem, deu um toque internacional ao sotaque. Gosto do fato de não ser tão paisa como nas novelas e outras séries sobre cartéis da Colômbia”, afirma.

RECORRENTE

María Belotti lembra que não é a primeira vez que latinos são mal retratados em séries. Em Breaking bad, por exemplo, Gus Fring, supostamente chileno, foi interpretado pelo dinamarquês Giancarlo Esposito. “Para os americanos, é tudo igual, pois eles confundem os sotaques. Supostamente, o Gus era chileno, mas nem parecia latino”, repara a estudante.

De fato, os americanos nem se preocupam com isso. O jornal Washington Post destacou a resistência do público dos EUA às legendas e, consequentemente, às produções de outras partes do mundo. Por causa desse estigma, o Netflix foi elogiado por “bancar” um Pablo Escobar falando espanhol, por pior que o sotaque possa parecer.

Os 10 episódios da primeira temporada de Narcos narram a ascensão de Pablo Escobar a chefe do cartel de Medellín até se transformar no traficante mais procurado do mundo. A história é narrada sob a perspectiva de Steve Murphy (Boyd Holbrook), oficial da agência antidrogas norte-americana designado para capturá-lo. (Com agências)

Columbia Pictures/divulgação
(foto: Columbia Pictures/divulgação)
Falso inglês?


Outro ator “vítima de bullying” por seu sotaque em produções estrangeiras é Rodrigo Santoro. Em 2003, atribuíram suas raras falas em As Panteras detonando (foto) ao “falso inglês”, mas o fluminense, de 40 anos, foi em frente. Tornou-se o brasileiro que conquistou espaço respeitável em Hollywood. “Sotaque é apenas um detalhe, uma parte da construção do personagem”, declarou Rodrigo. O obstáculo da língua tem de ser vencido com a prática e muito trabalho, recomendou. O brasileiro integrou os elencos de Golpe duplo (2015), O golpista do ano (2009), Che e Che 2 (2008), 300 (2006) e Simplesmente amor (2003), entre outros filmes rodados no exterior.

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