Godard experimenta 3D e smartphones em 'Adeus à linguagem'

Mestre do cinema francês conta (sem didatismo!) a história da relação de uma mulher casada com um homem solteiro -- e do cachorro que os encontra

por Mariana Peixoto 30/07/2015 00:13

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Imovision/Divulgação
Perto dos 85 anos, Jean-Luc Godard experimenta a linguagem 3D pela primeira vez com a autenticidade que é característica em sua filmografia; longa conquistou Prêmio Especial do Júri em Cannes (foto: Imovision/Divulgação)
“O mais jovem dos velhos”, define o ator Kamel Abdeli. “Pensei que encontraria uma pessoa muito difícil, de todas as maneiras. Mas a verdade é que ele foi muito receptivo e charmoso, ainda que tanto eu quanto ele estivéssemos tímidos”, afirma a atriz Héloïse Godet.

As impressões de ambos se referem ao primeiro impacto que lhes provocou o contato com Jean-Luc Godard. Enfant terrible do cinema francês, o cineasta surpreendeu os dois atores ao escolhê-los para protagonizar 'Adeus à linguagem'. Tanto Abdeli quanto Héloïse não esperavam que, após um único encontro com o mítico diretor da nouvelle vague teriam os papéis mais importantes de suas carreiras até aqui.

 

Confira salas e horários de exibição para 'Adeus à linguagem'

 

Veja ainda as informações de sessões do longa em 3D

 

'Adeus à linguagem', que estreia no Brasil nesta quinta-feira, 30 – em Belo Horizonte, será exibido às 20h10 e às 22h no Cinemark do Diamond Mall –, não é “apenas” mais um filme de Godard. É também a estreia do octogenário cineasta franco-suíço (ele completa 85 anos em dezembro) em 3D. O filme chega ao país pouco mais de um ano depois de sair do Festival de Cannes com o Prêmio Especial do Júri.

O filme, não Godard. Na época, o diretor se recusou a ir ao festival para apresentar o longa-metragem de 70 minutos (tarefa que coube ao elenco). 'Adeus à linguagem' foi o sétimo filme do diretor a concorrer à Palma de Ouro. E, como os seis anteriores, não levou o prêmio máximo do mais badalado festival de cinema do mundo.

 

 

Antes do início da maratona de Cannes, Godard enviou uma carta filmada (um vídeo de nove minutos) ao então presidente do festival, Gilles Jacob, e ao diretor artístico, Thierry Frémaux. Nela, afirma que 'Adeus à linguagem' “deixou de ser um filme, apesar de ser o meu melhor. É uma simples valsa”.

Na época, em entrevista a uma rádio francesa, o diretor ainda resumiu a história de Josette (Héloïse Godet) e Gédéon (Kamel Abdeli). “É uma história simples: uma mulher casada e um homem solteiro se encontram. Se amam. Brigam... Um cachorro vaga entre a cidade e o campo. As estações passam. O homem e a mulher se encontram novamente. O cachorro encontra os dois.”

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Filmado com cinco câmeras de modelos e marcas diferentes, 'Adeus à linguagem' tem som descolado da imagem e usa smartphones para refletir sobre influência da tecnologia na vida cotidiana (foto: Imovision/Divulgação)
CÂMERAS
É um filme de Godard, então essa “simplicidade” é pura aparência. Trabalhando com cinco câmeras de modelos e marcas distintos, o longa abusa das características de uma filmografia que conta com um pouco mais de uma centena de filmes. O som não é sincronizado com a imagem, seus movimentos de câmera atendem sempre a um propósito.

Falando sobre como a tecnologia interfere nas relações humanas, por várias vezes vemos os personagens portando smartphones, sempre apresentados em closes. O casal central não consegue se comunicar. Os diálogos foram tirados de citações de vários autores, de Mary Shelley (Frankenstein) ao teólogo francês Jacques Ellul.

Em meio a isso, o cachorro (“interpretado” por Roxy Miéville, cão de estimação do próprio Godard) acaba ganhando espaço na narrativa. Torna-se, ainda, o elo entre o casal central, até como espectador das cenas de sexo.

Para divulgar o filme, a dupla de atores esteve no Brasil na semana passada e participou de pré-estreias no Rio de Janeiro e em São Paulo. Héloïse e Abdeli admitem que 'Adeus à linguagem' está longe de ser um filme fácil. Mas é Godard quem escancara sua carta de intenções logo na abertura do filme, com os dizeres: “Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade”.
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Protagonistas foram escolhidos pelo próprio cineasta, que costuma buscar por atores pela internet; ''Quando fui escolhida, fiquei em choque'', conta a atriz Héloïse Godet (foto: Imovision/Divulgação)
três perguntas para...
HÉLOÏSE GODET E KAMEL ABDELI
atores


• Como foi seu encontro com Godard?

 

Héloïse – Foi muito curioso, porque ele não trabalha com diretor de casting (profissional que escala o elenco dos filmes). Ele mesmo procura seu elenco na internet. Tivemos um encontro casual na casa dele. Conversamos sobre a vida. Falei da minha formação, muito ligada à arte. A maneira como conversamos nos fez meio amigos quase imediatamente. Ele me deu uma página com texto e outra só com imagens. Pensei que tinha texto demais, que não conseguiria dizer aquilo tudo, então me fixei nas imagens. Ele me disse: “Gostei da maneira como você ‘lê’ as imagens, porque é isso que quero.” Foi um momento muito bom, mas quando saí de lá, pensei: ‘Ok, foi legal, mas nunca vou trabalhar com ele”. Quando fui escolhida, fiquei em choque.

Abdeli – Foi uma aventura emocionante, porque ele domina todas as técnicas do cinema. É como um malabarista e sabe lidar tanto com atores quanto com a técnica. No começo, 50 atores haviam sido selecionados. Eu tinha o feeling de que seria escolhido. Cruzei o olhar com Godard. Sem palavras, a gente se entendia. Mas a relação foi muito profissional.

• Qual a sua relação com a obra dele?

Héloïse –
Venho de uma família de cinéfilos, então, havia visto muitos dos filmes dele. Agora, não sei qual foi o primeiro que vi. A questão é que Godard é uma parte muito importante da cultura francesa, então a gente conhece a obra dele de alguma maneira.

Abdeli –
Nunca gostei muito dos filmes de Godard. Na verdade, gosto de três: 'Acossado' (1960), 'O desprezo' (1963) e 'O demônio das onze horas' (1965). Mas não é que não goste dos outros, só que levei um tempo para entender o que é arte. Com a idade, fiquei mais sensível à arte, aprendi mais a sentir do que a olhar.

• 'Adeus à linguagem' é filme para sentir ou entender?

Héloïse – Quando o vi pela primeira vez, fiquei realmente surpresa, e isso foi resultado da maneira como o filme me tocou emocionalmente. E assisti-lo em 3D é parte da experiência. Ele quer provocar as pessoas, por vezes fazê-las se sentirem desconfortáveis. Para mim foi desconfortável assistir, porque ele me tirou da passividade. Eu (como espectadora) tenho que ficar ativa em frente à tela para refletir sobre o que está sendo exibido. Ter seus atores nus em cena por vezes é somente um efeito. Acho que ele fez isso como uma maneira de fazer o público realmente ouvir o que estava sendo disso.

Abdeli –
É um filme que você precisa sentir para entender o mundo de hoje. Já o vi seis vezes, e ele precisa ser visto em 3D. Isso é extremamente importante para entendê-lo. O 3D dá profundidade e tudo o mais: emoção, imagem, som. Não é um filme que vai revolucionar o 3D, mas sim, o cinema.

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