'O que as mulheres querem' destila pensamento machista e estereótipos femininos

Filme é um catálogo constrangedor de dependências e obsessões que retrata mulheres como histéricas, maníacas e cuja única solução para todos os problemas é ter um homem

por Cássio Starling Carlos 25/07/2015 13:00

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 Europa/Mares Filmes/divulgação
Cena de 'O que as mulheres querem' da diretora e roteirista francesa Audrey Dana, em cartaz em BH (foto: Europa/Mares Filmes/divulgação)

Caso o título 'O que as mulheres querem' terminasse com um sinal de interrogação, o filme poderia até ser visto como uma versão feminina de fenômenos cômicos, na linha macho-trash da franquia Se beber, não case!.

Mas a frase afirmativa escolhida para “traduzir” o francês Sous les jupes des filles (Debaixo das saias) tem como efeito repetir os antiquados estereótipos das mulheres histéricas, maníacas e obcecadas por uma única solução para todos os problemas femininos: ter um homem.


A proposta da diretora Audrey Dana, também roteirista e atriz do filme, foi inverter a dominação masculina no controle da produção cinematográfica sobre/para mulheres e criar um retrato autenticamente feminino.


O resultado demonstra que não basta mudar a chave de gênero para modificar ou suprimir a perspectiva sexista.
No material de divulgação do longa, o desejar feminino aparece resumido aos temas “paixão”, “liberdade”, “sucesso”, “beleza”. No elenco tilintam nomes de divas de ontem e de anteontem, como Laetitia Casta, Vanessa Paradis e Isabelle Adjani, assim como de atrizes prestigiosas do cinema francês atual, como Marina Hands e Sylvie Testud.


Enquanto a diversidade de gerações e de tipos de beleza cumpre a função de representar múltiplos ideais e problemas, os temas que condensam as tramas tornam o filme um catálogo constrangedor de dependências e obsessões.


Esse efeito fica ainda mais irritante com a narrativa em forma coral, um vaivém entre diversos focos que se cruzam e que em separado reiteram “certezas” do mais puro pensamento machista, como “mulher bem-sucedida é, no fundo, frustrada e solitária”, “as feministas não passam de lésbicas enrustidas” ou “atenção, pois toda amiga está de olho no seu homem”.
Em poucos momentos, o filme alcança o riso, quando decide zombar dos clichês do “feminino” e desafiar os limites do bom gosto com assumida grossura. Ou quando dá espaço para a formidável Marina Hands fazer um show burlesco com um número de vingança de mulher submissa.


Pena que esses esforços para extrapolar sejam logo domesticados, reutilizados para apaziguar a guerra dos sexos e terminem projetando uma imagem pós-feminista do universo feminino que mais parece pré-histórica. (Folhapress)

 

O que as mulheres querem
Ruim



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