Média-metragem Jornada ao oeste está em cartaz em BH

Leia a crítica do filme do malaio Tsai Ming-liang

por Cássio Starling Carlos 11/07/2015 00:13

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
divulgação
Denis Lavant em cena de Jornada ao oeste, filme em cartaz no Belas 3 (foto: divulgação)
O close do ator francês Denis Lavant, quase imóvel ao longo de mais de oito minutos na abertura do média-metragem Jornada ao oeste, anuncia o que se deve esperar do último trabalho, talvez derradeiro, do malaio Tsai Ming-liang. Nessa imagem do rosto capturado, ouve-se um rumor do mar e veem-se mínimos movimentos do ator, mas o que se sente de modo mais incisivo é o tempo, intensificado pela longa duração do plano.


Minutos depois, veremos novamente a face de Lavant posta numa composição em que as linhas do perfil se confundem com as de uma montanha. O rosto surge reintegrado à natureza, devolvido à originalidade.Entre as sequências, a figura de um monge budista em um passo lentíssimo reafirma o conceito do filme. Trata-se de romper com a velocidade do cotidiano e levar o espectador a experimentar as múltiplas durações daquilo que denominamos, de modo excessivamente uniforme, tempo.

O filme radicaliza um procedimento que ritmava Cães errantes (2013), longa anterior de Tsai. A predominância de cenas em que se suspende a ação para privilegiar a contemplação é recurso que singulariza a filmografia do diretor.

Com este filme, releitura da miséria material e afetiva contemporânea com evidente referência ao cinema do italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), Tsai obteve projeção como autor em festivais internacionais e atraiu a atenção da cinefilia que valoriza a invenção. Na contramão de um cinema que se acelera na medida em que abandona toda vocação estética e filosófica, Tsai chega com Jornada ao oeste a um manifesto que se confunde com um beco sem saída.

Tsai simboliza a irredutibilidade de seu cinema à uniformidade por meio da mínima mobilidade dos atores contraposta à velocidade e à atenção distraída dos passantes. Contemplamos, às vezes boquiabertos, outras bocejantes, o rigor formal como o diretor filma os passos do monge, interpretado por Lee Kang-sheng, protagonista de todos os filmes do cineasta.

Tanta originalidade, no entanto, consome-se na autorreferência e tende a atrair só o público cujo gozo se confunde com a autossatisfação. (Folhapress)

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE CINEMA