John Green visita o Brasil para divulgar filme e conversa com o Estado de Minas

Aos 37 anos, Green diz que pode parecer "ridículo para os outros", mas pretende continuar escrevendo sobre a adolescência. Na próxima quinta, estreia adaptação para o cinema de Cidades de papel

por Mariana Peixoto 05/07/2015 09:39

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Quando estava na faculdade, o escritor norte-americano John Green fez uma viagem de carro pelo interior dos Estados Unidos. Passando pela Dakota do Sul, tentou encontrar a cidade de Holen, como indicado no mapa. Deparou-se apenas com uma vasta planície. Descobriu ali a existência das chamadas “cidades de papel”, termo utilizado para denominar municípios fictícios – criados por cartógrafos e inseridos em seus mapas, com o objetivo de identificar plagiadores.

Assim como ocorreu com seu livro mais conhecido, A culpa é das estrelas, Green utilizou da experiência pessoal para escrever Cidades de papel. A personagem Hazel, de A culpa..., foi inspirada em Esther, uma fã de seus livros que sofria de câncer. Publicado em 2008, Cidades de papel é um romance sobre um garoto de Orlando que empreende uma investigação para encontrar a amiga desaparecida, tendo se tornado a segunda obra de Green a ser adaptada para os cinemas.

A versão cinematográfica estreia na próxima quinta-feira, em aproximadamente 600 salas no Brasil. A expectativa é alta. A culpa é das estrelas foi o filme de maior público no Brasil em 2014, com 6,8 milhões de ingressos vendidos.

A maior parte desse público é formada por adolescentes que consomem vorazmente as narrativas de Green, um texto com diálogos espirituosos e personagens que não se enquadram no padrão do americano médio. “Não acho que os adolescentes teriam o mesmo respeito dos adultos se ele (Green) não existisse”, escreveu a adolescente norte-americana Haley Pereyo no texto John Green: voz de uma geração.

E mesmo que o ambiente das narrativas seja acima da linha do Equador, na parte de baixo a recepção é semelhante. “O Brasil é, hoje, meu mercado estrangeiro mais importante. Claro que o (primeiro) filme deu uma força grande, mas meus livros sempre encontraram aqui uma audiência incrível”, disse ele ao Estado de Minas na quarta passada, quando veio ao país pela primeira vez para uma maratona de divulgação do filme.

São pelo menos 4 milhões de exemplares vendidos de seus seis livros (veja ao lado). Mais da metade pertence ao mais recente, A culpa é das estrelas. Mas Cidades de papel rapidamente deve chegar à casa do milhão, impulsionado pelo lançamento do filme. Dirigido por Jake Schreier, provoca gargalhadas assim como A culpa... provocou lágrimas.

No novo filme, não há nenhum jovem lindo com uma doença terminal (mas a participação de Ansel Elgort no longa levanta suspiros). É uma história sobre amizade e descobertas, que funciona como Conta comigo e Os Goonies funcionaram para gerações anteriores.

Tem um protagonista carismático (Nat Wolff, que participou também de A culpa... num papel menor); um ícone jovem (Cara Delevingne, atriz, cantora, modelo) e um elenco secundário muito bem resolvido. A fórmula nos faz lembrar que filmes para jovens não precisam de socos, corridas de carros, super-heróis e efeitos especiais.
(Rogério Resende/DIVULGAÇÃO
O escritor John Green (à dir.) e o ator Nat Wolff durante encontro com a imprensa, no Rio de Janeiro, para divulgar o filme adaptado de seu livro (foto: (Rogério Resende/DIVULGAÇÃO)

ROAD MOVIE
Ainda que a segunda parte do longa tenha um clima de road-movie, o principal cenário é Orlando, onde Green viveu por 15 anos. “É uma cidade falsa, um local estranho para viver quando se está crescendo. As pessoas têm experiências imaginárias nos parques temáticos e depois têm que voltar para casa, para a vida real. Só que, para mim, Orlando era a vida real. Vá para a Disney por 15 anos seguidos no verão. Você vai odiar”, afirma o escritor, que, metaforicamente falando, define Orlando também como uma “cidade de papel”.

Green não se tornou a “voz da juventude” apenas por seus livros. É conhecido ainda como vlogger (autor de um blog feito de vídeos), atividade que mantém há quase uma década. Com seu irmão Hank, criou um projeto de vídeo tão popular que serviu de base para o nascimento dos Nerdfighters, uma comunidade global de fãs que promove trabalhos humanitários. “Na internet, as pessoas tomam partido, discutem e ninguém ouve o outro. Mas nem sempre é isso, a comunidade nerdfighter é um exemplo disto. Muita coisa produtiva pode surgir na internet se você aprender a ouvir o outro”, afirma.

Aos 37 anos, Green é casado com a curadora Sarah Urist (que, recentemente, passou três semanas em BH trabalhando num projeto em Inhotim). Eles têm um casal de filhos. Hoje, Green vive com a família em Indianápolis, Indiana. A despeito dos milhões de seguidores em redes sociais, de livros vendidos e de pessoas que vão assistir aos filmes baseados em suas histórias, tem um jeito de cara normal, aquele cara meio nerd que mora na casa ao lado. É visível que seus personagens têm sempre um pouco dele.

Assim como Q, o protagonista de Cidades de papel, Green acreditava no amor platônico. “Às vezes, a gente não percebe como o amor não romântico pode ser importante. Eu era tão obcecado por encontrar uma namorada, me apaixonar e depois me casar com ela, que não pensava se teríamos uma boa vida juntos. Queria viver como se fosse um filme. E eu tinha à minha volta amigos fantásticos, tanto que acabei me casando com minha amiga (Sarah e Green tinham um clube de livros)”.

Escrevendo sobre adolescentes, ele admite que hoje não se vê escrevendo para adultos. “A adolescência tem a tensão entre inocência e experiência, e acho que consigo explorar esses dois mundos. Como adulto, continuo sentindo essa tensão. Descendo do avião (ao chegar ao Brasil) ouvindo música e dançando, percebi: sou um cara de meia-idade e devo parecer ridículo para os outros. Mas, para mim, estava muito prazeroso”, conclui.

GREEN FAZ A AMÉRICA

O Brasil é, hoje, o principal mercado do autor em língua não inglesa. Confira seus sucessos

. 2005 – Quem é você, Alasca? (Ed. Intrínseca, 200 mil exemplares vendidos)
Miles Halter, um adolescente fascinado por célebres últimas palavras, vai para uma nova escola para tentar fugir da vida entediante. Tudo muda quando ele conhece Alasca. Deverá ser adaptado para o cinema.



. 2006 – O teorema Katherine (Ed. Intrínseca, 500 mil exemplares vendidos)
Colin Singleton é um garoto fascinado por anagramas que já levou 19 foras de garotas de nome Katherine. Ele decide cair na estrada para criar um teorema que anteveja, na linguagem da matemática, o desfecho de qualquer relacionamento.

. 2008 – Deixe a neve cair (com Maureen Johnson e Lauren Myracle, Ed. Rocco,
200 mil exemplares vendidos)
Três contos de amor numa noite de Natal de uma pequena cidade que
sofre com uma tempestade de neve. Deverá ser adaptado para o cinema.



. 2008 – Cidades de papel (Ed. Intrínseca, 700 mil exemplares vendidos)

. 2010 – Will e Will, um nome, um destino (com David Levithan, Ed. Record, 187 mil exemplares vendidos)
Em uma noite fria em Chicago, Will Grayson conhece, na rua, Will Grayson. Os dois adolescentes dividem não só o mesmo nome, mas também uma aventura musical.

. 2012 – A culpa é das estrelas (Ed. Intrínseca, 2,3 milhões de exemplares vendidos)
Hazel e Augustus são dois adolescentes com câncer que se conhecem em um grupo
de apoio. Mesmo cientes das (im) possibilidades que os cercam, iniciam uma relação muito intensa.


>> A repórter viajou a convite da Fox

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