Concorrente latino é bem recebido no Festival de Cannes

Chronic, de Michel Franco, é o único título da América Latina na disputa

por Estado de Minas 23/05/2015 09:05

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Anne-Christine Poujoulat/AFP
O ator britânico Tim Roth e o diretor mexicano Michel Franco, do longa-metragem Chronic, que foi filmado no México, mas é falado em inglês (foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP )

Chronic, do mexicano Michel Franco, único filme da América Latina na disputa pela Palma de Ouro, provocou impacto no Festival de Cannes com uma descrição sóbria, realista e devastadora do fim da vida.

Com uma interpretação sensível do ator britânico Tim Roth, o primeiro filme rodado em inglês pelo diretor mexicano de 36 anos recebeu muitos aplausos na sessão para a imprensa, ontem.

Roth interpreta David, um enfermeiro que cuida de pacientes em fase terminal.

Simples e eficaz, aborda o tema universal da velhice, doença e morte. “Tento não pensar muito na morte, mas todos sabemos que ela está ali e que vamos ter que enfrentá-la, cedo ou tarde”, disse Franco. “Para mim, quem carrega o filme é o personagem de Tim e a entrega que ele tem aos pacientes.”

O longa-metragem, meticuloso, consegue dar veracidade à atmosfera psicológica dos personagens ao mostrar a proximidade do relacionamento entre o enfermeiro e o paciente, que vai muito além do estrito atendimento médico. A proximidade provoca, em alguns casos, discussões com os parentes, que não podem cuidar do doente e sentem culpa.

ACUSAÇÕES Com momentos de desconfiança e até paranoia, David é obrigado a enfrentar até uma infundada acusação de assédio sexual a um paciente idoso feita por parentes dele. “Os cuidadores têm relações com os pacientes que os familiares nunca terão”, comentou Michel Franco.

O diretor revelou que a inspiração para o filme foi a situação de sua avó, que ficou doente e passou muitos meses na cama antes de morrer. “Isso me levou a pensar como é a vida de uma pessoa que trabalha nessa área. É o resultado do sentimento que tive por uma enfermeira, Beatriz, que cuidou da minha avó e compareceu ao enterro para ver os familiares. Perguntei há quanto tempo estava nesse trabalho e ela respondeu 20 anos. Decidi fazer um filme sobre o tema.”

Chronic consegue evitar o excesso de drama e sentimentalismo ao abordar com sutileza situações complicadas, como a passagem de tempo particular de pessoas que não esperam mais nada, em um clima de tédio infinito. A precisão psicológica alcança o nível máximo no momento de tratar do tema complexo da eutanásia – Franco e Roth se declararam a favor da legalização.

David assume os cuidados de um novo paciente logo após a morte do anterior, em uma relação de dependência que vai além da necessidade econômica de ganhar a vida. Ele é alguém que só tolera a vida quando confrontado com a situação-limite. O protagonista tem um motivo pessoal para sobreviver dessa forma, que se revela ao espectador à medida que a trama avança.

O título do filme é uma referência ao estado de depressão permanente do enfermeiro. Produção mexicana rodada no México, Franco optou por diálogos em inglês, um protagonista britânico e uma trama situada na Califórnia.

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