Amigos formam o elenco dos filmes de terror do capixaba Rodrigo Aragão

O cachê é banho de sangue, hipotermia, embate com caranguejos e muitas gargalhadas no set

por Ângela Faria 17/05/2015 14:34

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Fábulas Negras Produções Artísticas/ Divulgação
Kika de Oliveira e Walderrama dos Santos: o casal 20 do filme 'Mangue negro' (foto: Fábulas Negras Produções Artísticas/ Divulgação)
Guarapari (ES)
– A grande família. Pode ser definida assim a turma que atua nos filmes de Rodrigo Aragão, nome de ponta do cinema de terror brasileiro. “Pago mal, mas ofereço a imortalidade”, brinca o cineasta, contando que, sem a ajuda dos amigos, seria impossível viabilizar suas produções. A grana sempre foi curta, mas a “tropa de zumbis” se diverte, como se pode observar nas cenas de making of que circulam na internet.

Confira os bastidores do filme 'Mangue Negro':



Ao lado de gente experiente como os atores Markus Konká e Margareth Galvão, nomes conhecidos da cena teatral capixaba, está a adolescente Carolina, filha de Aragão, que interpretou a garota de 'O saci', episódio de 'Fábulas negras'. Mayra Alarcón, mulher dele, joga nas 10: além de produtora, fez papéis de loira do banheiro, cantora de bordel e zumbi. Sobrou até para Hermann Pidner, o mecenas que financia a obra do capixaba. Ele já foi zumbi, além do bêbado de balcão de bar em 'Mar negro'.

MIL FACES O baterista Walderrama dos Santos, mineiro radicado em Vila Velha, encarnou Albino, figura emblemática na obra do cineasta. Rodrigo diz que ele é o seu Lon Chaney – ator americano conhecido como “o homem das mil faces”, famoso por interpretar vários personagens em filmes de terror dos anos 1920. Walderrama já bateu ponto como zumbi, baiacu-sereia e chupa-cabras. Marceneiro de mão cheia, ainda faz extra no set. E encarou uma hipotermia ao gravar nas águas geladas do mangue.

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Ricardo Araújo trabalha com Rodrigo desde 2000. “É um dos monstros mais experientes do país”, diverte-se o cineasta. Reginaldo Secundo nunca havia catado caranguejo. Durante as filmagens, meteu a mão na lama e milagrosamente conseguiu tirar o bicho da toca. A cena ficou ótima. Por sua vez, Kika de Oliveira quase vomitou ao contracenar com uma imensa língua ensanguentada que lhe lambia o rosto. Também teve de suportar uma nojenta minhoca-zumbi, além de levar vários banhos de sangue na cara. Mui amigo, esse Rodrigo Aragão...

PAVOR ECOLÓGICO

Zumbis, causos de pescador, elementos do folclore brasileiro, uma dose de suspense e muitos sustos – essa é a marca registrada de Rodrigo Aragão. Mas sua obra não se limita a pavor, criaturas bizarras e sangue. As histórias do capixaba falam de degradação. Seja do meio ambiente – poluição, contaminação de alimentos e extermínio de animais –, seja dos valores do ser humano. Tudo isso é mostrado com humor, sem discurso panfletário.

'Mangue negro', o longa de estreia, foi rodado no quintal da casa de Rodrigo Aragão, que dá para o mangue. Atores-zumbis e monstros cruzavam as ruas de Perocão para chegar às locações. A criançada adorava acompanhar essa “zombie walk” inusitada. Certa vez, a polícia foi chamada por moradores, assustados com os gritos de socorro vindos do manguezal onde as cenas eram filmadas.

A realidade, porém, ficou bem mais aterrorizante do que a ficção. Sete anos depois do lançamento de 'Mangue negro', Rodrigo já não pode levar a repórter para conhecer as locações. O mangue foi invadido e cercado, virou “bairro”. É dramática a destruição do ecossistema que um dia garantiu o sustento dos pescadores de Perocão.

O longa 'Mar negro' também surgiu nesse contexto de massacre ecológico, lendas populares e ataques de zumbis. Hoje à noite, outro filme rodado em Perocão e arredores de Guarapari será exibido na mostra competitiva do 11º Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre (Fantaspoa), na capital gaúcha. As fábulas negras reúne episódios dirigidos por José Mojica Marins (“O saci”), Petter Baiestorf (“Pampa feroz”), Joel Caetano (“A loira do banheiro”) e Rodrigo Aragão (“O monstro do esgoto” e  “A casa de Iara”). Criaturas assustadoras protagonizam histórias de intolerância religiosa, crueldade humana, machismo e corrupção política. Enfim, o terror nosso de cada dia.

Fábulas Negras Produções Artísticas/ Divulgação
Rodrigo Aragão retoca uma de suas criaturas (foto: Fábulas Negras Produções Artísticas/ Divulgação)
O GEPETTO DO TERROR


Na rua principal da vila de Perocão, a sede da produtora Fábulas Negras intriga o visitante. No imenso muro verde, um casal é perseguido pela multidão de zumbis. Da varanda do segundo andar, um monstrengo de mais de 2m de altura observa o movimento. No sobrado, moram o diretor Rodrigo Aragão e sua família. O térreo abriga a ilha de edição e o “parque de diversões”: a oficina onde o cineasta dá vida a suas criaturas feitas de látex, tinta, algodão, gesso, gelatina, corante e espuma.

Zumbis, um tétrico lobisomem, um saci mal-encarado (e verde), o chupa-cabra que lembra o Godzilla e baiacu-sereia habitam aquelas prateleiras. No canto, de asas abertas, a imensa criatura-morcego encara o visitante. Acima do carro da família, está pendurada a baleia-zumbi. Construído com resina, água e polvilho, o monstro marinho impressiona. A incrível textura de sua pele vem de prosaicas sacolas de supermercado.

Rodrigo Aragão é o Gepetto do cinema brasileiro. Suas oficinas de maquiagem e efeitos especiais são concorridas. Freios de bicicleta fazem monstro andar, saca-rolha faz pássaro bater asas e furadeira faz machado voar na tela. O zumbi-caranguejo de duas cabeças não passa de marionete à moda antiga. Essa galeria de fantásticas criaturas parece zombar da parafernália tecnológica que domina o mundo do cinema, com seus computadores e milagres digitais.

Fábulas Negras Produções Artísticas/ Divulgação
(foto: Fábulas Negras Produções Artísticas/ Divulgação)
GUERRILHA TROPICAL


Alguns críticos classificam a obra de Rodrigo Aragão como ecoterror. Outros a encaixam no chamado “cinema de bordas”, que se desenvolve à margem da sétima arte oficial. “Faço terror tropical”, avisa o diretor, roteirista, maquiador e técnico de efeitos especiais. Com litros de sangue à base de mel e corante, zumbis e degradação, ele diz mergulhar no imaginário popular de seu “Perocão mítico”.

“Não faço terror envergonhado, suspense psicológico. Não sou cineasta das bordas, nem maldito. Mereço estar no miolo”, afirma ele. Terror é muito difícil de filmar, explica Rodrigo, enfatizando que não há meio termo. Se a plateia não gritar de susto, o filme é um fracasso. É um gênero oito ou oitenta: ou a pessoa gosta ou odeia.

Aragão acredita que haja “um abismo” entre o gosto popular e o sistema de produção, distribuição, exibição e financiamento de cinema no Brasil. O gênero é discriminado, reclama. Ano passado, ele ficou em segundo lugar em um edital lançado pelo governo do Espírito Santo. Ao vê-lo jururu no set, o veterano José Mojica Marins o consolou. “Não fique triste não. Você fez três filmes e ficou sem o dinheiro. E eu, que fiz 33 sem verba?”, afirmou Zé do Caixão.

Rodrigo lamenta sua obra ser mais conhecida no exterior do que no Brasil. Diz que o jeito é partir para a “guerrilha”: lutar para exibir as fitas em circuitos fora do controle das grandes distribuidoras, investir no interesse dos jovens fãs, explorar o potencial da internet.

Influenciado pela estética oitentista dos diretores Sam Reimi ('Evil dead – A morte do demônio'), John Landis ('Um lobisomem americano em Paris') e Wes Craven ('A hora do pesadelo'), Aragão está convicto da originalidade que o Brasil confere ao gênero. “Se não fosse o preconceito, já era pra gente ter feito alguns clássicos. O cinema fantástico e de terror é nobre. Há um imenso espaço para ele aqui no Brasil”, ressalta.

TIRADENTES Aos poucos, a “guerrilha” avança. Ano passado, filmes de Rodrigo ganharam espaço especial nos badalados festivais do Rio, na capital fluminense, e de Tiradentes, em Minas Gerais. Mostras dedicadas ao cinema fantástico vêm sendo realizadas em cidades como BH, Porto Alegre e São Miguel do Gostoso (RN).

Aragão se orgulha de sobreviver do que o cinema lhe trouxe. Além da circulação de seus filmes no exterior, ele conta com recursos vindos de oficinas de maquiagem e efeitos especiais ministradas em várias cidades do país, workshops e trabalhos encomendados à sua produtora. Recentemente, o canal a cabo Space passou a exibir seus filmes.

Enquanto se dedica a divulgar o recém-lançado 'Fábulas negras', o cineasta planeja a produção do longa 'Mata negra'. A ideia é fazer terror “mais sério”, com menos comédia e orçamento de R$ 1 milhão. Além disso, 'Fábulas...' pode ganhar novas histórias e, inclusive, virar série de televisão a cabo.

Assista ao trailer do filme 'Mangue Negro':


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