Rodrigo Aragão constrói carreira no cinema de terror em pequena vila de pescadores capixaba

Sucesso no exterior e ignorado no Brasil, cineasta filma no Perocão, humilde vilarejo de pescadores a quatro quilômetros de Guarapari, no Espírito Santo

por Ângela Faria 17/05/2015 14:24

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FÁBULAS NEGRAS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS/DIVULGAÇÃO
Em sua oficina em Perocão, o diretor Rodrigo Aragão e as criaturas bizarras que ele mesmo inventou e construiu (foto: FÁBULAS NEGRAS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS/DIVULGAÇÃO)
Guarapari (ES) – No térreo do sobrado verde de três andares, está nascendo o capetinha azul – “parto” assistido por uma bizarra plateia. Do alto das prateleiras, baiacu-sereia, chupacabras, zumbi-caranguejo e a loira do banheiro acompanham o paciente trabalho de Rodrigo Aragão, cineasta e “monstrólogo” capixaba de 38 anos. A criatura que surge do molde de gesso fará parte do elenco do próximo longa do diretor, 'Mata negra', cujo lançamento está previsto para 2017.

Rodrigo e suas criaturas fizeram de Perocão, humilde vilarejo de pescadores a quatro quilômetros de Guarapari, no Espírito Santo, uma trincheira do cinema de terror brasileiro. Lá, já foram rodados os longas 'Mangue negro' (2008), 'A noite do chupa-cabras' (2011), 'Mar negro' (2013) e 'As fábulas negras' (2014), produções de baixo orçamento, que custaram, respectivamente, R$ 80 mil, R$ 174 mil, R$ 260 mil e R$ 216 mil. Hoje em dia, um único filme de médio porte não sai por menos de R$ 8 milhões. Ignorada por distribuidoras e salas de exibição brasileiras, a obra do cineasta capixaba se consolidou à margem de editais públicos e leis de incentivo.

 

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Perocão está bombando no circuito internacional do cinema de terror, enquanto produções do gênero são esnobadas por aqui como algo menor, arte “bagaceira”. Desde 2008, Aragão exibiu seus trabalhos em 70 festivais internacionais. 'Mar negro' conquistou o prêmio do júri popular do argentino Rojo Sangre, o evento mais antigo do gênero na América Latina. O brasileiro foi chamado de “expoente do medo” pela revista especializada francesa 'Mad movies'. Filmes dele passaram na badalada mostra londrina Sci-Fi e no japonês Yuban International Fantastic.

Em 2011, o governo chinês proibiu a exibição de 'Mangue negro' no país. O cineasta ignora o motivo da censura, mas se diverte ao lembrar que a fita, rebatizada 'Zumbis das terras alagadas', bateu 1 milhão de downloads em um site na China graças à pirataria. Filmes do capixaba passaram nos EUA, México, Grécia, Holanda, Chile, Alemanha e Lituânia, entre vários outros países.

Herança José Mojica Marins, pioneiro do terror nacional e criador do impagável Zé do Caixão, já declarou que Aragão é um de seus herdeiros mais talentosos. O capixaba cultua o susto 100% brasileiro: lendas populares, personagens do folclore de nosso país e causos de Perocão inspiram suas histórias, protagonizadas por criaturas confeccionadas artesanalmente por ele. Em vez da assepsia dos efeitos criados em computador, surgem na tela muita gosma, litros de sangue e seres horripilantes. Baiacus-sereias, chupa-cabras, zumbis e baleias-zumbis foram esculpidos com látex, massa de modelar e até com sacolas de supermercado. Rodrigo realmente merece o título de “o monstrólogo do Brasil” que Pedro de Lara lhe deu em 2004, depois de vê-lo em ação no 'Programa Sílvio Santos'.

Há um mecenas por trás desse talento capixaba: o empresário fluminense Hermann Pidner, de 68 anos, radicado em Belo Horizonte. Modesto, ele diz que tudo se deve ao talento de Rodrigo. Garante que jamais pensou no amigo como negócio e encara a produção cinematográfica como prazer e diversão. Pidner pôs dinheiro do próprio bolso nos projetos do capixaba que conheceu ainda menino, em Perocão. “Foi menos de R$ 1 milhão”, contabiliza. Detalhe: a grana não lhe rendeu desconto de impostos.

Pegadinha Tudo começou nos anos 1990. Rodrigo era amigo de Hermano, filho de Pidner, que tem casa de veraneio na vila de pescadores. Certo dia, o menino chegou em casa todo machucado e ensanguentado. Depois do susto, o empresário descobriu que era tudo “pegadinha” com hematomas criados por Rodrigo. Fã da série de TV 'Spectramen' e de 'Guerra nas estrelas', o garoto, munido de gelatina, farinha de trigo, tinta guache e do estojo de maquiagem subtraído da mãe, assustava tias e vizinhos com as pústulas exibidas pelos amigos. Filho de seu Osório, ex-mágico e ex-dono de cinema, ele gostava de escrever e encenar histórias. Aos 14, já tinha seu caderno de storyboard.

Adolescente, Rodrigo Aragão passou a trabalhar com grupos de teatro. Era um talento autodidata da maquiagem e dos efeitos especiais. Hermann Pidner apoiou seu projeto Mausoleum. Essa “casa do terror” foi montada num imenso contêiner. Atores encenavam histórias de assombração, com direito a cabeças arrancadas e muito susto, tudo bolado pelo jovem. Foi um sucesso: 4,3 mil sessões atraíram cerca de 30 mil pessoas de 2001 a 2004 em Salvador, Vitória, Rio de Janeiro e BH, entre outras cidades.

Com R$ 300 no bolso, o capixaba rodou 'Chupa-cabras' (2004) no sítio da família, perto de Perocão. O vídeo sem diálogos ganhou a cor sépia devido à precariedade do equipamento. Funcionou. Bombou no YouTube. Anos depois, a história seria transformada em longa. Sem um tostão no bolso, Aragão filmou as primeiras cenas de 'Mangue negro'. Pidner viu o material e decidiu investir novamente naquele rapaz. A produção, que custou R$ 80 mil, virou cult e chamou a atenção de cinéfilos de vários países.

FÁBULAS NEGRAS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS/DIVULGAÇÃO
Joel Caetano, José Mojica Marins e Rodrigo Aragão brincam no set de 'As fábulas negras', rodado no Espírito Santo (foto: FÁBULAS NEGRAS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS/DIVULGAÇÃO)
Com o mestre

Maratimba. É assim que os antigos se referem ao capixaba nascido na beira do mar. Pois Zé do Caixão virou maratimba do Perocão. Ano passado, José Mojica Marins passou 10 dias no vilarejo rodando “O saci”, episódio do filme As fábulas negras,a convite de Rodrigo Aragão. “Foi um set delicioso”, conta o pupilo, dizendo que a proeza de levar o mestre para filmar em sua vila é o maior orgulho de sua vida. O paulista Joel Caetano, ao definir a experiência como assistente de direção de Mojica em “O saci”, confessou: “Zerei a minha vida”. Poucos dias depois de voltar a São Paulo, o veterano teve graves problemas de saúde. Como sempre, mediu forças com a morte. Em março passado, numa sexta-feira 13, Mojica completou 79 anos de dedicação às telas.

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