Os 100 anos de Orson Welles: relembre a visita do Cidadão Kane ao Brasil

Recrutado como ator diplomático da nova política externa estadunidense, o cineasta viria ao Brasil para colher imagens do filme 'It's all true (É tudo verdade)', em 1942

por Afonso Bezerra 06/05/2015 11:04

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Arquivo/DP
Orson Welles chega ao Brasil em 1942 (foto: Arquivo/DP)
Imagine o roteiro: em 1941, quatro jangadeiros saem de Fortaleza (CE) em uma embarcação precária e viajam 61 dias até o Rio de Janeiro. O trajeto de 2 mil quilômetros tem paradas estratégicas no Recife, em Salvador e Cabo Frio (RJ). A viagem guiada apenas pela experiência dos tripulantes e por insuficiente aparato náutico enfrentou ondas e tempestades em busca de um objetivo: pressionar o então presidente Getúlio Vargas a contemplar a categoria na legislação trabalhista. A empreitada digna de cinema atraiu o olhar do norte-americano Orson Welles, já notabilizado pelo sucesso de 'Cidadão Kane' (1941), filme sobre a ascensão de um magnata da comunicação.

Recrutado como ator diplomático da nova política externa estadunidense, o cineasta viria ao Brasil para colher imagens do filme 'It’s all true (É tudo verdade)', em 1942 - espécie de documento sobre a cultura latino-americana, com trechos brasileiros e mexicanos. Recordamos agora a passagem de Orson Welles pelo Brasil - cujo centenário de nascimento é celebrado nesta quarta-feira - e a produção do longa concebido para mostrar o país ao mundo. O cineasta passou por Recife no intervalo entre o Ceará, onde havia gravado as cenas do episódio 'Quatro homens em uma jangada', e o Rio, cenário do capítulo sobre carnaval e origem do samba.

Foram apenas dois dias entre Recife e Olinda. Na capital, ele teria acompanhado uma sessão do filme 'O coelho sai', primeiro longa sonoro produzido no Nordeste. E foi o debate sobre o cinema mudo ou falado que marcou a visita do diretor. O “Gênio de Hollywood” foi bem requisitado para falar sobre a sétima arte. Defendia um cinema mais artístico, elogiava as produções em preto e branco e previa o futuro em cores e som. “Cinema mudo exige arte. No cinema, a palavra é acidental. Deve predominar a fotografia. A palavra predomina no teatro”, afirmou ao jornal Diario de Pernambuco em 15 de julho. Orson confessou que tinha interesse em registrar elementos da cultura nordestina, como o maracatu e o cangaço e lamentou a passagem rápida pela cidade: “Gostaria de demorar mais, o que não é possível pela dificuldade dos transportes”.

Entre gravações, viveu a noite recifense. E encerrou a visita com uma farra pelas ruas do Centro, inspiração artística para os cineastas Lírio Ferreira e Amin Stepple. Os dois ficcionalizaram a “experiência etílica” em 'That’s a lero lero' (1994), considerada a primeira produção da estética Árido Movie.

Bebidas à parte, o projeto era traduzir o Brasil aos norte-americanos, como peça da nova política da boa vizinhança dos EUA. Saía de cena a estratégia do Big Stick (O porrete), caracterizada pela intervenção militar, e surgia o panamericanismo, dominação pelas esferas econômica e cultural. Foi a forma que Washington encontrou de, em meio à segunda guerra, tentar afastar da América do Sul a influência do nazismo. “Nesse esforço de guerra, o cinema era uma das várias ferramentas de aproximação dos Estados Unidos com o Brasil”, lembra o professor de Cinema da UFPE Paulo Cunha.

O próprio Orson alimentava o objetivo: “Na parte do carnaval, apresento muita música brasileira, que é ainda desconhecida nos EUA. Isso vai alcançar grande aceitação na América do Norte”, disse ao Diario à época. Mas o projeto nunca vingou por conta de atropelos na produção.

Arquivo/DP
Orson Welles em filmagens no Brasil, em 1942 (foto: Arquivo/DP)


Análise
O que deu errado


O roteiro compreendia a captação das imagens de cartões-postais. Mas o cineasta mudou o foco, diz professora da UFRN Flávia de Sá Pedreira. “Ele resolveu filmar nordestinos que faziam reivindicações trabalhistas e as manifestações culturais de moradores das favelas cariocas, berço do samba, que eram, na maioria, negros e mestiços pobres”, observa. “Queria mostrar uma terra de contrastes. A aventura marítima dos jangadeiros é a exaltação da força humana, vinda dos mais pobres”, explica o professor Firmino Holanda, autor de livro Orson Welles no Ceará. A conduta desagradou os estúdios e o governo brasileiro. O material do filme foi confiscado, o financiamento, cancelado e Welles, quase um anti-herói, não concluiu o trabalho. A morte do jangadeiro Jacaré tambem “atrapalhou” as filmagens. Em 1993, o material foi recuperado pelos diretores Bill Krohn, Richard Wilson e Myron Meisel. Eles reuniram em um novo filme os fragmentos de um clássico que não pôde ser concluído pelo próprio autor. Assista:

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