Manoel de Oliveira deixa 50 longas e o traço de uma obra sempre jovem

Um dos mais importantes autores do cinema, o português morreu aos 106 anos

por Estado de Minas Walter Sebastião 03/04/2015 11:00

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Miguel Riopa/AFP - 6/03/13
(foto: Miguel Riopa/AFP - 6/03/13)
Foram muitos minutos de pé, apoiado em sua bengala. Aos 99 anos de idade, quando recebeu a Palma de Ouro pelo conjunto de sua obra no Festival de Cannes, o cineasta português Manoel de Oliveira ocupou sozinho o palco do Grande Teatro Lumière. De pé, a plateia de artistas presentes à homenagem não dava mostras de querer parar de aplaudi-lo.


Quando finalmente pôde falar, Oliveira agradeceu o prêmio e se despediu dizendo: “Cresci ao longo de um século com o cinema, e hoje sei que o cinema é que me fez crescer. Obrigado a todos. E viva o cinema!”.

Oliveira não apenas cresceu com o cinema. Ele se tornou um dos maiores autores da sétima arte. Ontem, quando morreu, aos 106 anos de idade, deixou uma filmografia de ao menos 50 longas (entre ficções e documentários) e uma assinatura reconhecível na história do cinema.

Em 2013, Oliveira precisou ser hospitalizado duas vezes. Em julho, devido a problemas pulmonares e, em dezembro, por causa de uma infecção bacteriana. O diretor também sofria de uma doença cardíaca crônica. De volta a casa, continuou trabalhando, segundo informou sua filha Adelaide Trêpa à agência France Press, esclarecendo que o pai concluíra o roteiro de 'A Igreja do diabo', inspirado em três contos de Machado de Assis.

ATLETISMO

Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu em 11 de dezembro de 1908, no Porto, filho de uma família da alta burguesia industrial. Considerado um mau aluno, dedicou-se ao atletismo, mas só se interessou pelas artes aos 20 anos, quando ingressa na escola de atores fundada em Portugal pelo cineasta italiano Rino Lupo.

Nesse período, Oliveira rodou seu primeiro filme, o curta-metragem 'Douro, faina fluvial', de 1931. A estreia em um longa de ficção só veio em 1942, com 'Aniki bóbó', sobre a infância pobre na região do rio Douro.

Desiludido com o fracasso da primeira ficção, Oliveira abandonou outros projetos e dedicou-se aos negócios da família: vinho e indústria têxtil. Voltaria aos longas apenas duas décadas depois, com 'Acto de primavera'' (1963), recriação da Paixão de Cristo.

Conhecido por seu estilo rigoroso e reflexivo, pelas cenas longas, com câmeras fixas, ausência de música e cenas de sexo e violência, ao longo dos anos Oliveira encantou críticos de vários países, mas espantou, muitas vezes, o público português.

Até os 70 anos de idade, o cineasta português Manoel de Oliveira era apenas uma nota de rodapé nos livros de cinema. Representante de um país sem tradição cinematográfica, era autor de apenas quatro longas-metragens, alguns curtas e vários projetos não realizados.

A consagração internacional veio com 'Amor de perdição', em 1978. A partir daí, financiado pelo governo português, passou a filmar com maior constância. Durante a década de 1990, lançou um filme por ano, atraindo prêmios e homenagens de festivais de cinema – como Veneza e Berlim, além de Cannes.

PARCERIAS
Para qualquer outro artista, a idade avançada representaria o fim. Para Manoel, tratava-se apenas de um recomeço (mais um, numa carreira repleta deles). Dirigiu longas como 'Os canibais' (1988), 'A divina comédia' (1991), 'Vale Abraão' (1993) e 'Um filme falado' (2003) – confira outros títulos em quadro nesta página. Trabalhou com grandes atores do cinema, como John Malkovich, Catherine Deneuve e Michel Piccoli, um de seus grandes parceiros.

Após a Palma de Ouro especial pelo conjunto da obra, Oliveira voltou a Cannes com O estranho caso de Angélica, apresentado na mostra Um Certo Olhar. O longa, coprodução brasileira que narra a história de um fotógrafo contratado para tirar o retrato de uma moça morta, também abriu a 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O cineasta participaria da cerimônia de abertura, mas, como se recuperava de uma cirurgia para colocação de marca-passo, enviou um vídeo para compensar sua ausência.

Próximo do fundador da Mostra, Leon Cakoff (1948-2011), Oliveira costumava dividir com ele suas inquietações. Contou, por exemplo, a razão do rompimento com o produtor Paulo Branco, em 2004. O diretor achou que os direitos de exploração de sua obra em DVD e TV não estavam sendo bem negociados. “E eu preciso pensar no meu futuro”, concluiu.

Oliveira deixa a esposa, Maria Isabel Brandão de Meneses de Almeida Carvalhais, quatro filhos e cinco netos, um deles o ator Ricardo Trêpa.

JEAN-PAUL PELISSIER/ REUTERS
(foto: JEAN-PAUL PELISSIER/ REUTERS)
Mestre radical


“Manoel de Oliveira é o cineasta lusófono mais importante de todos os tempos. Como Fernando Pessoa e Camões, ele fez a língua portuguesa ser ouvida em todo o mundo”, afirma o jornalista Pedro Maciel Guimarães, professor do curso de cinema da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em 2010, o diretor português inspirou o doutorado do especialista mineiro na Sorbonne Nouvelle, em Paris. Pedro defendeu a tese A poética da colaboração no cinema de Manoel de Oliveira, publicada em livro na França.

O diretor português, falecido ontem, deixa como legado um cinema radical e sem concessões tanto na forma quanto nos temas, destaca o especialista. “Manoel de Oliveira quer colocar o público num lugar incandescente, que o tempo todo interpela a postura do espectador com relação à imagem, à história de Portugal, ao cinema e à arte. Por isso, ele ganhou admiradores em todo o mundo”.

Pedro Maciel Guimarães diz que Manoel foi um embaixador da cultura lusófona e destaca sua dedicação à literatura. A maioria dos roteiros de seus filmes são adaptações de peças ou romances do padre Antônio Vieira (1608-1697), de Eça de Queirós (1845-1900), e, especialmente, de Camilo Castelo Branco (1825-1890).

“É proposta de Manoel de Oliveira levar o máximo do texto desses autores para o cinema. Ao colocar a palavra deles na tela, ele cria fricções entre literatura e cinema. Seus filmes inauguram relações completamente inéditas entre cinema e literatura”, reforça Pedro.

Tal sedução levou o diretor não só a levar para as telas os últimos dias de Camilo Castelo Branco, em O dia do desespero (1992), como também fez desse escritor, conterrâneo de Manoel da cidade do Porto, personagem de vários trabalhos.

O gosto estético por autores clássicos, levado ao cinema de forma inovadora, faz com que muitos analistas considerem Manoel de Oliveira um “moderno arcaico” e “até paradoxo ambulante”, observa Pedro Guimarães. O professor lembra que o longa Palavra e utopia caracteriza o que chama de “utopia literária”. A atitude de Oliveira é radicalmente distinta de um procedimento habitual no cinema: transformar a literatura apenas em banco de dados, pinçando elementos para filmes sem compromisso com o estilo dos escritores.

De acordo com Pedro, os filmes de Manoel de Oliveira podem até ser divertidos. Mas adverte: não se trata de uma obra fácil, ligeira. Para quem não conhece os trabalhos do português, o professor sugere, como introdução, O dia do desespero e Amor de perdição.

Com relação a herdeiros estéticos do diretor, o estudioso observa que eles até existem, citando o cineasta português Pedro Costa. Entretanto, enfatiza que as práticas de Manoel de Oliveira são muito singulares, específicas de sua obra.

FILMOGRAFIA
Confira alguns dos títulos do diretor português
. Aniki bóbó (1942)
. Acto de primavera (1963)
. Benilde ou a virgem mãe (1975)
. Amor de perdição (1978)
. Os canibais (1988)
. Non, ou a vã glória de mandar (1990)
. A divina comédia (1991)
. Vale Abraão (1993)
. A carta (1999)
. Palavra e utopia (2000)
. Um filme falado (2003)
. Sempre bela (2006)
. Singularidades de uma rapariga loura (2009)
. O estranho caso de angélica (2010)
. O gebo e a sombra (2012)
. Mundo invisível (segmento de do visível ao invisível) (2012)
. O velho do restelo (2014)
. Chafariz das virtudes (2014)

Fonte: IMDB

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