Decano mundial dos cineastas, Manoel de Oliveira deixa vasta filmografia

Diretor português morreu nesta quinta-feira, aos 106 anos

por AFP - Agence France-Presse 02/04/2015 13:25

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 AFP PHOTO / VINCENZO PINTO
Manoel de Oliveira recebe o Leão de Ouro em 2014 (foto: AFP PHOTO / VINCENZO PINTO )
Com inesgotável "fome de viver e filmar", o diretor Manoel de Oliveira, morto nesta quinta-feira, completou 106 anos ao lado do público, por ocasião da estreia em Portugal de seu último trabalho, 'O Velho do Restelo', um curta-metragem, em dezembro. Apesar do frágil estado de saúde, Oliveira dirigiu o curta-metragem, que descreveu como uma "reflexão sobre a humanidade".

Manoel de Oliveira explorou até o fim seu olhar sobre a condição humana em uma pergunta perpétua sobre o sentido da vida. O título do curta-metragem é inspirado em um personagem que é uma espécie de profeta da desgraça no poema épico 'Os Lusíadas', escrito no século XVI por Luís de Camões.

Exigente

Nascido em 11 de dezembro de 1908 na cidade do Porto, norte do país, mas registrado oficialmente um dia depois, Oliveira era o último sobrevivente dos "belos velhos tempos do cinema mudo", que citava com nostalgia. O diretor realizou grande parte de sua obra depois dos 60 anos e ganhou fama mundial depois dos 80.

Filho de um empresário que o levava para assistir os filmes de Charlie Chaplin e de Max Linder, que o presenteou com sua primeira câmera, Manoel de Oliveira, atleta campeão de salto com vara e de corridas automobilísticas, estreou no cinema com 20 anos como figurante no filme mudo 'Fátima Milagrosa'.

Em 1931 ele rodou seu primeiro documentário, também mudo, 'Douro, Faina Fluvial', sobre a vida dos trabalhadores do rio que passa por sua cidade natal. Ator no primeiro filme falado de Portugal, 'A Canção de Lisboa', de 1933, Manoel de Oliveira era interessado realmente pela direção. Depois de vários documentários, estreou na ficção com 'Aniki-Bobo', de 1942, sobre a vida das crianças de um bairro popular do Porto.

Com a situação política e a falta de infraestruturas em Portugal durante o regime de Salazar, permaneceu afastado das câmeras. Comandou a fábrica têxtil herdada do pai e os vinhedos da família. O diretor só conseguiu lançar o segundo longa-metragem, 'Acto da primavera', sobre a paixão de Cristo, em 1963.

A partir de 1971, Oliveira se concentrou na tetralogia 'Amores frustrados', com 'Amor de Perdição' (1979) e 'Francisca' (1981), principalmente, que rendeu a fama de "cineasta exigente". Em 1985 ele comprovou a fama com 'Le soulier de Satin', uma obra de quase sete horas de duração baseada na obra de Paul Claudel, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

Cineasta dos cinéfilos

Criador prolífico, dirigiu a partir de 1985 praticamente um filme por ano e trabalhou com atores consagrados, como o americano John Malkovich, os franceses Catherine Deneuve e Michel Piccoli, o italiano Marcello Mastroianni ou os portugueses Luis Miguel Cintra e Leonor Silveira.

Seus filmes, nos quais os diálogos e a música têm um lugar especial, têm a lentidão do Douro de seu Porto natal, com longos planos fixos, parecidos com quadros, e lentos movimentos de câmera. Várias vezes premiado em Cannes ou Veneza, este "cineasta dos cinéfilos", casado e pai de quatro filhos, conquistou o grande público já com mais de 80 anos, com 'Je rentre à la maison' (2001), no qual Piccoli interpreta um ator veterano que se questiona sobre a solidão, a morte e a velhice depois de perder a família.

Em 2008, o cineasta recebeu uma Palma de Ouro em Cannes por sua trajetória. "Receber prêmios é algo simpático", declarou com uma certa malícia. "O mais belo presente que alguém pode me dar é deixar que eu faça os filmes que me restam. E não são poucos", completou.

A seguir a filmografia de Oliveira:


Ficção


1942: Aniki-Bobo
1963: O Acto da primavera
1963: A Caça
1972: O Passado e o Presente
1975: Benilde ou a Virgem mãe
1979: Amor de perdição
1981: Francisca
1985: Le Soulier de Satin
1986: O Meu Caso
1988: Os Canibais
1990: Nao ou a Vã Glória de mandar
1991: A Divina Comédia
1992: O Dia de desespero
1993: Vale Abraão
1994: A Caixa
1995: O Convento
1997: Party
1997: Viagem ao princípio do Mundo
1998: Inquietude
1999: A carta
2000: Palavra e Utopia
2000: Je rentre à la maison
2001: Porto da Minha Infância
2002: O Princípio da Incerteza
2003: Um Filme Falado
2004: O Quinto Império - Ontem Como Hoje
2005: Espelho Mágico
2006: Belle toujours
2007: Cristóvão Colombo, O Enigma
2009: Singularidades de uma rapariga loira
2010: O estranho caso de Angélica
2010: Painéis de São Vicente de Fora, visão poética (curta-metragem)
2012: O Gebo e a sombra
2014: O Velho do Restelo (curta-metragem)


Documentários


1931: Douro, faina fluvial
1932: Estátuas de Lisboa
1937: Os Últimos Temporais, Cheias do Tejo
1938: Miramar, Praia das rosas
1938: Já se Fabricam Automóveis em Portugal
1940: Famalicão
1956: O Pintor e a Cidade
1958: O Coração
1959: O Pão
1964: Villa Verdinho, uma aldeia transmontana
1965: As Pinturas do meu irmão Julio
1982: Visita ou Memórias e confissões (autobiografia)
1983: Lisboa Cultural
1983: Nice... à propos de Jean Vigo
1986: Simpósio Internacional de escultura em pedra
1988: A Propósito da bandeira nacional

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