Em 'O sal da terra' Sebastião Salgado usa a fotografia para contar a história de seu tempo

Dirigido por Wim Wenders e por Juliano Ribeiro Salgado, o longa enfatiza a narrativa clássica

por Silvana Arantes 29/03/2015 10:57

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Imovision/Divulgação
(foto: Imovision/Divulgação )
O sal da terra, que estreou nesta semana no Brasil, é um filme apaixonado por Sebastião Salgado, que é um homem apaixonado pela aventura de viver. Dirigido por Wim Wenders e por Juliano Ribeiro Salgado (o filho mais velho de Sebastião e Lélia Salgado), o longa traz as marcas mais reconhecíveis na produção documental do cineasta alemão – adesão afetiva ao seu objeto e narrativa clássica, linear.

Embora apresente trechos da vida do fotógrafo narrados tanto pelo próprio Salgado quanto pelos dois diretores, o filme tem o predomínio claro do ponto de vista de Wenders sobre seu protagonista. Trata-se do ponto de vista de alguém que admira em igual medida a obra e a vida do autor das séries Trabalhadores, Êxodos, Gênesis, cuja realização é “reconstituída” por meio das memórias de Salgado.

O artifício de ter a voz (e por vezes a imagem) de Salgado projetada sobre suas fotografias resulta numa espécie de faixa comentada de um álbum fotográfico. E que fotos! Lá estão os registros da América Latina mística, do enxame humano de Serra Pelada, da fome na África, do Kweit em chamas.

Em paralelo, é contada a história familiar e profissional de Salgado – o encontro com Lélia em Vitória e a ida do casal para São Paulo, a proximidade com a militância à esquerda, a decisão de se mudar para a Europa após o recrudescimento da ditadura, o abandono da carreira de economista em benefício da fotografia, o nascimento dos filhos (incluindo a surpresa da descoberta de que o segundo é portador da síndrome de Down), o impacto crescente de suas fotos e o reconhecimento internacional como um “fotógrafo social”.
Imovision/Divulgação
(foto: Imovision/Divulgação )
Até que entra em cena o genocídio de Ruanda (1994), como um ponto de inflexão na vida e na carreira de Salgado – e também no curso do filme. Em meio à produção de Êxodos, Salgado se dirige a Ruanda, onde se sabia que o conflito entre tutsis e utus estava provocando significativos deslocamentos populacionais.

O cenário que ele encontra, contudo, ultrapassa largamente os parâmetros de crueldade que suas retinas, acostumadas às misérias da África e das Américas, suportavam. Salgado se vê diante do horror. E capitula. “Adoeci. Não tinha nenhuma doença infecciosa no corpo. Mas minha alma estava doente”, ele diz no filme.

Era a doença da descrença. Ou da convicção de que esse “animal feroz” que são os humanos, cuja “história é a história das guerras, da repressão, uma história louca”, não merecia viver.

Para curar a alma, Salgado se voltou para a natureza. Dessa fase emergem o Instituto Terra (com o replantio de mata atlântica na região da fazenda de seus pais, em Aimorés) e o projeto Gênesis.

O filme acompanha esse mergulho tectônico de Salgado mostrando-o já não mais com a câmera apontada para um alvo, mas com as mãos em torno da copa de uma árvore. O relato de registros dilacerantes sobre a condição humana dá lugar a um discurso de encantamento com animais e plantas e reflexões sobre a eternidade e os ciclos da vida.

Com Gênesis, observa Wenders, Salgado “escreve uma carta de amor pelo planeta”. E com O sal da terra, Wenders e Juliano Ribeiro Salgado endereçam sua carta de amor a um homem que escolheu a fotografia como sua forma de viver para contar.

Três perguntas para...

JULIANO RIBEIRO SALGADO
Codiretor de O sal da terra

Como avalia o atual momento do cinema brasileiro?
Tento acompanhar, mas estou muito ocupado e tenho ido pouco ao cinema. Vi poucos filmes, mas acho que o cinema brasileiro vive um momento bom, porque a sociedade brasileira está num período interessante e há muito a ser dito. O cinema é um veículo para trazer problemáticas sociais.Estamos num momento complicado, de crise econômica, crise da água. Ao mesmo tempo, com o Bolsa-Família, mudou algo muito forte no Brasil. O paradigma do Brasil da escravidão, de duas classes sociais separadas – os cidadãos e os escravos - de certa forma permaneceu até há pouco tempo.

Isso começou a mudar só com o Bolsa-Família. Muitas pessoas que ficavam fora do espaço social, político, reivindicativo entraram nesse espaço e estão também pedindo para ser respeitadas como cidadãs. Com isso, muitas problemáticas novas estão chegando. Há 15 anos se falava que o Brasil não era um país racista. Hoje não se pode falar isso. Todo mundo sabe que não é verdade. Essa é uma das coisas que vieram à tona na sociedade, porque muito mais pessoas conseguiram entrar nesse espaço cidadão. Há tantas questões para serem tratadas, e o cinema é um grande vetor para colocar perguntas. Não fazemos política, não temos soluções, mas temos como trazer perguntas e encarnar essas perguntas num filme. Sou muito amigo do Karim Aïnouz, do Marco Dutra. Admiro muita gente no cinema brasileiro, que é um cinema muito vivo e hoje tem essa missão trazer essas problemáticas.

Em sua opinião, existe alguma imagem-síntese do Brasil de hoje,
como a de Serra Pelada foi uma síntese do Brasil dos anos 1970?
Não saberia dizer. Acho que o que está acontecendo agora é bem novo. Não sei se já há uma imagem que sintetize isso.

A tendência de sua carreira é a dedicação à produção documental?
Estou fazendo um filme no Norte do Pará sobre questões ligadas à cidadania, mas também estou escrevendo para ficção. Faz 19 anos que trabalho com isso. Tendo a fazer filmes que falam do mundo no qual a gente vive. São comentários, fazem perguntas. Tento fazer isso de um jeito que não é militante, que todo mundo pode ver e entender e que também sejam entertaining, como dizem os americanos. Mas pode ser ficção ou documentário. Não tenho uma área específica. É cinema, com certeza.

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