Gael García Bernal é protagonista do filme '118 dias', que estreia nesta quinta

Primeira empreitada na direção do jornalista Jon Stewart reconstitui os 118 dias de prisão do correspondente iraniano acusado de espionagem pelo regime

por Mariana Peixoto 05/03/2015 08:00

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Diamond Films/Divulgacão
Gael García Bernal em cena de '118 dias', que estreia hoje (foto: Diamond Films/Divulgacão )
Em junho de 2009, o apresentador Jon Stewart levou ao The Daily Show sátira em que o jornalista Maziar Bahari se passava por espião. O quadro foi gravado em Teerã. Trabalhando para a revista 'Newsweek', Bahari, iraniano-canadense radicado em Londres, havia viajado para sua cidade natal para cobrir o período pré-eleitoral.


O presidente Mahmoud Ahmadinejad tentava a reeleição. Tinha um rival forte, Mir-Hossein Mousavi, que prometia governo mais tecnocrático e próximo do Ocidente. Bahari ficaria apenas dez dias. Ficou 118, preso em Evin, nos arredores de Teerã.


Havia filmado os protestos populares que se seguiram à discutível vitória governista. Mas parte da razão de seu encarceramento era absolutamente surreal: graças ao quadro no programa do canal Comedy Central, Bahari era apontado como agente de organizações de inteligência estrangeiras.


Dessa maneira, não deixa de ser um quê de prestação de contas a intenção de Stewart – que deixou o The Daily Show no mês passado, após 15 anos à frente do talk show – ir parar no cinema com uma versão ficcionada dessa história. '118 dias', que estreia nesta quinta-feira, nasceu a partir do livro 'Then they came for me: A family’s story of love, captivity and survival' (Então eles vieram me buscar: uma história familiar de amor, cativeiro e sobrevivência), escrita pelo próprio Bahari.


Com o mexicano Gael García Bernal ('Diários de motocicleta') interpretando o protagonista, o filme começa quando o jornalista, na casa em que nasceu, é levado pela polícia iraniana. A partir desse momento, a primeira parte da narrativa desenrola-se em flashback, com Bahari chegando a Teerã, envolvendo-se com jovens iranianos contrários ao regime em vigor, até as manifestações que tomaram as ruas da capital após o pleito (houve acusação de fraude para a vitória de Ahmadinejad).

 

 


No segundo momento, a narrativa torna-se mais pessoal. Já confinado na prisão de Evin, o jornalista não tem contato algum com o mundo externo. Sua única relação é com seu algoz, um homem de quem não sabe o nome. Reconhece-o apenas pelo cheiro de água de rosas (Rosewater no inglês, título original do filme).


A despeito do pano de fundo da narrativa, focado nos conflitos do país, o tom pessoal permeia todo o calvário de Bahari. Ao longo dos quase quatro meses preso, o jornalista sofreu tortura física e psicológica.


Temos, de um lado, o jornalista se debatendo com o passado revolucionário – o pai foi preso em 1953, durante o golpe que derrubou o premiê Mohamad Mossadeq; a irmã mais velha caiu nas garras da polícia durante a Revolução Islâmica, em 1979. Bahari, vivendo há muitos anos fora do Irã, desenvolveu um pragmatismo contrário à ideologia dos familiares já mortos.
De outro lado, Bahari desenvolve uma relação com “Água de Rosas”, em encontros que vão da violência ao puro deboche. A ignorância do policial, que vive de certa maneira encarcerado pela submissão ao regime, não o permite contestar as histórias fantásticas criadas por Bahari acerca do Ocidente – o jornalista não poupa detalhes sobre casas de massagem.


A cena que mais bem traduz a relação entre os dois homens traz Bahari, logo após conversar com a mulher em Londres, dançando em sua cela. O policial, que assiste a tudo observando imagens da câmera instalada no local, acha que o jornalista está enlouquecendo. Só que a dança, para comemorar a notícia de que vai ter uma filha, é ao som de Dance me to the end of love, do canadense Leonard Cohen. Bahari, que está preso, a conhece de memória. O policial, que nunca foi encarcerado, não.

TOBIAS SCHWARZ /AFP
Hana, sobrinha do cineasta dissidente iraniano Jafar Panahi, recebe em nome do tio o Urso de Ouro no Festival de Berlim, por Táxi (foto: TOBIAS SCHWARZ /AFP)
Cineasta também é preso pelo regime

Foi também a polêmica reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009 que levou o cineasta Jafar Panahi ao encarceramento no mesmo local em que Maziar Bahari esteve preso, Evin. Na época, março de 2010, Panahi foi acusado pela produção de um documentário sobre as manifestações populares que ocorreram após a reeleição. Sua pena foi de seis anos em prisão domiciliar, a proibição de filmar por 20 anos e de deixar o Irã. Seus filmes também foram banidos do país.


No 65 º Festival de Berlim, realizado no mês passado, foi uma sobrinha do cineasta, Hana, quem subiu ao palco do Berlinale Palast para receber o Urso de Ouro para o filme Táxi, terceiro longa-metragem de Panahi realizado desde sua prisão. Na narrativa, misto de documentário e ficção, ele mesmo dirige um táxi, enquanto conversa com passageiros sobre seu país.
Panahi é diretor de O balão branco (1995), uma das mais importantes produções da chamada new wave iraniana, que marcou a produção cinematográfica daquele país pós-revolução (1979).


A safra iraniana se tornou obrigatória em festivais de cinema ocidentais na década de 1990. A cinematografia tem características como: elenco formado por atores não profissionais, com muitas crianças como protagonistas; estilo documental; temática versando tanto sobre a família, a realidade do país e o sofrimento do ser humano; baixo custo. As narrativas ainda costumam ser repletas de metáforas.

Panahi começou sua carreira como assistente de um dos cineastas mais importantes do Irã, Abbas Kiarostami. Um dos filme seminais da new wave é dele. Em Close-up (1990), Kiarostami narra a trajetória de um jovem iraniano que pede financiamento a uma família de recursos de Teerã para filmar uma história. Para tal, o jovem se passa pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf.

O trio Kiarostami, Makhmalbaf e Panahi concentra boa parte dos prêmios nos mais prestigiosos festivais da época. O primeiro é o autor de Gosto de cereja (1997, Palma de Ouro em Cannes); o segundo, de O silêncio (1998, três troféus em Veneza), e Panahi, com seu O balão branco, levou troféu em cinco festivais de prestígio, incluindo o de Cannes. Somente este último vive, obrigado, no Irã. Kiarostami e Makhmalbaf exilaram-se na França, onde realizam seus filmes.

Outro cineasta de destaque na cinematografia iraniana é Majid Majidi, autor de Filhos do paraíso (1997), que deu ao Irã uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. De uma geração mais jovem, nomes obrigatórios são Samira Makhmalbaf, filha de Mohsen que estreou em longas com o premiado A maçã (1998), e Asghar Farhadi, que, com A separação (2011), deu ao seu país o primeiro (e celebrado) Oscar.

No discurso de agradecimento, Farhadi afirmou: “Eu tenho orgulho de oferecer este prêmio à população do meu país, às pessoas que respeitam todas as culturas e civilizações e desprezam a hostilidade e o ressentimento”. A agência Fars News, do Irã, modificou a fala, traduzindo para “O povo iraniano respeita todas as culturas apesar da hostilidade ocidental com o programa nuclear iraniano”.

DOCUMENTÁRIO
A campanha eleitoral realizada por Ahmadinejad em 2008 para as eleições do ano seguinte é retratada no documentário Cartas para o presidente, do tcheco-canadense Petr Lom. O longa foi lançado em fevereiro de 2009 no Festival de Berlim, não sem antes muita polêmica – a cabeça do diretor da Berlinale, Dieter Kosslick, foi pedida pelos exilados iranianos, inconformados com a exibição de um filme que humaniza o presidente iraniano. A narrativa foi construída a partir das cartas que o povo escreveu expressando seus desejos tanto pessoais quanto de prosperidade para o Irã.

 

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