Julianne Moore vive o ápice de sua carreira aos 54 anos

Vencedora do Oscar tem um leque de filmes a estrear, mas a escassez de papéis para mulheres maduras ainda dá o tom nas telas

por Mariana Peixoto 26/02/2015 09:00

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Kevin Winter/Getty Images/AFP
A atriz americana Julianne Moore recebe o Oscar por seu desempenho em Para sempre Alice, ainda inédito no Brasil (foto: Kevin Winter/Getty Images/AFP)
Havana Segrand já viveu dias melhores. A mansão em Los Angeles continua com espaço reservado para receber o Oscar que ela nunca ganhou. A atriz tem plena convicção de que ele virá, se ela interpretar, sob a direção de Damien Javitz, o papel que fez a fama de sua mãe, Clarice Taggart. Para tal, a perturbada Havana não mede esforços. Inicia uma dolorosa terapia de regressão, para tentar se aproximar do passado traumático e da mãe morta. Entre doses colossais de ansiolíticos, ainda tenta fazer lobby entre seus conhecidos para conseguir o papel. Até que um deles sugere a ela: “Já que conhece tanta gente em Hollywood, por que não se torna empresária?”.

Nem o mais forte dos remédios é capaz de segurar Havana diante de tal comentário. Ok, ela chegou à meia idade, não é jovem como Clarice quando filmou a tal produção. Mas é uma atriz, não uma agente de atores. A lente inteligente, mas sempre com uma dose de distorção, de David Cronenberg faz um retrato estarrecedor de Hollywood em Mapas para as estrelas, que chega aos cinemas brasileiros em 19  de março.

E Julianne Moore, a intérprete de Havana, agradece. Pois ela, a não ser pela idade, é tudo o que a personagem não é. Aos 54 anos, a atriz vive seu auge. Não somente pelo Oscar, que desde domingo pode ostentar em qualquer canto de sua casa. Mas pela complexidade e variedade dos papéis que vem interpretando. Ao contrário de várias colegas de geração, tem trabalhado como nunca nos últimos anos.

Em março, chegarão ao Brasil três produções estreladas por ela. A primeira, no dia 12, é 'Para sempre Alice', a que lhe deu o Oscar de melhor atriz – esta foi sua quinta indicação desde 1998. O papel de uma professora casada e mãe de três filhos que começa a sofrer de Alzheimer lhe garantiu vários outros prêmios, entre eles, o Globo de Ouro e o Bafta. Não havia muitas dúvidas de que seria ela a subir ao palco do Dolby Theatre. No discurso de agradecimento, Moore falou sobre a importância do cinema para os que vivem “isolados e marginalizados”, já que os que sofrem de Alzheimer “merecem ser vistos”.

Além de 'Mapas para as estrelas', que deu a ela a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes do ano passado, ainda no dia 19 entra em cartaz uma produção com vocação mais comercial. 'O sétimo filho', misto de suspense e fantasia, é um longa britânico baseado na série jovem 'As aventuras do Caça-Feitiço', do autor Joseph Delaney.

Versátil, Julianne Moore ainda trafega em diferentes praias. Ao mesmo tempo em que se expõe sobremaneira como na produção de Cronenberg, também participa da franquia jovem mais rentável dos últimos anos. Está no elenco da última sequência de 'Jogos vorazes', que chega ao Brasil em 19 de novembro.

Ao contrário de muitos de seus pares, Julianne Moore só estreou em Hollywood aos 30 anos. Depois de bons papéis secundários – 'Boogie nights' (1997) e 'O grande Lebowski' (1998) –, destacou-se como protagonista em 'Fim de caso' (1999). Em sua primeira indicação ao Oscar como atriz principal, estava beirando os 40.

E também ao contrário de várias atrizes, ela vem envelhecendo na tela grande sem, aparentemente, fazer uso de intervenções estéticas. A questão tornou-se assunto de primeira hora para a indústria cinematográfica mais importante do mundo.

Patrulha estética A veterana Helen Mirren é uma das vozes que se levantaram contra o fato de os papéis femininos mais interessantes desaparecerem assim que uma atriz atinge certa idade. “Testemunhei, durante minha vida, a sobrevivência de atores muito medíocres e o desaparecimento de atrizes muito brilhantes”, afirmou a intérprete de 'A rainha' (2006). Encontra coro em nomes como Susan Sarandon, Jodie Foster e Sally Field, que levantaram-se contra o fato de os bons papéis minguarem depois que as rugas começam a aparecer.

São várias as atrizes que se dispuseram a incontáveis aplicações de botox e preenchimento, sem falar das famigeradas cirurgias, para manter-se em alta. Em maior e menor grau de intervenção, estão nomes como Nicole Kidman, Catherine Zeta-Jones, Meg Ryan, Melanie Griffith e Demi Moore.

Nos últimos meses, os holofotes de Hollywood expuseram duas atrizes que obedecem ao padrão estético da indústria – brancas, loiras, magras, de olhos claros. Em outubro, Renée Zellweger, de 45 anos, surgiu numa festa em Los Angeles com o rosto bem diferente do que estampou em suas produções mais conhecidas, O diário de Bridget Jones e Chicago. A internet não perdoou e choveram críticas. A atriz, sem admitir qualquer intervenção, saiu pela tangente e disse que o novo rosto é resultado de uma vida “diferente, saudável e feliz”.

Já no início deste mês, a longilínea Uma Thurman, musa de Quentin Tarantino, virou a nova vítima da patrulha estética. Aos 44 anos, ela fez uma aparição durante o lançamento de sua nova série, 'The slap'. Estava com a fisionomia diferente e a internet, mais uma vez, começou a debater como um caso de vida ou morte a aparência de uma mulher.

Dois dias mais tarde, Thurman surgiu no programa Today show, da rede NBC, para falar sobre a série. Sua aparência era a mesma de sempre, bem diferente da aparição noturna anterior. “Suponho que ninguém tenha gostado da minha maquiagem. Estou nisto há muitos, muitos anos, e às vezes as pessoas falam coisas boas a meu respeito. Em outras vezes, coisas ruins. Encaro isso como ‘está bem, seja o que for’. Você já sabe, o mau vem junto do bom”, respondeu à maledicência virtual.

O tapa de luva de Uma Thurman vem encontrando eco. Outro ícone da beleza da década de 1990, Cindy Crawford apareceu também neste mês numa foto sem qualquer tratamento. Publicada no Twitter da jornalista britânica Charlene White, a imagem mostra a modelo aos 48 anos e com dois filhos, de roupa íntima, que expõe a barriguinha flácida e celulites. Nada mais distante da imagem de supermodelo que lhe fez a fama. Nada mais próximo da realidade de tantas outras mulheres como ela.

PARIS FILMES/DIVULG
Cena de Mapas para as estrelas (foto: PARIS FILMES/DIVULG)


Que cansadas  que nada, elas estão no auge
Adriana Rabello


Aos 40 anos, vivenciar uma personagem de 50 no monólogo 'Cinquentei', de Cristina Mendes, foi uma experiência muito interessante. No momento em que fui convidada para o trabalho, pensei: mas eu não tenho 50 anos! Por que não chamar uma atriz que já cinquentou para fazer a peça? Pensei também que seria necessário me envelhecer um pouco e dar um ar de mais cansada.

Quando li o texto e passei a observar as mulheres mais maduras, cheguei à conclusão de que dar esse ar de mais cansada era uma tremenda bobagem. Cansadas que nada! Estão no auge da sua produtividade, são independentes, mais seguras de si, já criaram seus filhos, gostam de se cuidar e buscam novos desafios.

Como vivemos, ainda, numa sociedade patriarcal, a maioria não aceita essa nova mulher. Ainda existe um pensamento de que, depois dos 50, a mulher já não tem mais valor, por não poder mais procriar, ou seja, deixa de ter a sua totalidade, perde sua feminilidade e passa a ser excluída.

Acredito que, aos poucos, esse pensamento está mudando. Mas ainda falta muito para que nós, mulheres, independentemente da idade, da cor, do status social, tenhamos mais espaço e igualdade de direitos. Claro, não é fácil envelhecer num país que cultua a juventude.

E isso é mais difícil ainda para nós, mulheres. Mas passar por décadas de transformações é um presente divino, que nos fortalece, nos dá mais autonomia para sermos nós mesmas e viver plenamente nossa totalidade.

Vivenciar uma mulher de 50 anos que lutou durante toda a sua vida por seus desejos e fazer também um monólogo sobre a escultora francesa Camille Claudel (1864-1943), que lutou bravamente para se estabelecer como mulher e artista numa época totalmente machista, me fizeram pensar na questão da igualdade de gênero, hoje tão discutida na nossa sociedade. Que venham os 30, os 40, os 50, os 60, os 70, os 80, os 90... E que sejamos plenas e tenhamos saúde e muita qualidade de vida.

Adriana Rabello, mineira, é atriz, radicada no Rio de Janeiro. Protagonizou o espetáculo 'Cinquentei'

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