Indicação para o Oscar 2015 levanta discussão sobre racismo e machismo na Academia

Especialistas afirmam: "o problema não é exclusivo da Academia, é social"

por Fernanda Machado 10/02/2015 10:15

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Paramount Pictures/Facebook
'Selma', de Ava DuVernay. Filme foi centro de polêmica racial no Oscar (foto: Paramount Pictures/Facebook)
 
* por Luiz Felipe Nunes
 
Em ‘Selma’, drama dirigido por Ava DuVernay e que chega hoje aos cinemas brasileiros, o pastor e ativista do movimento negro americano Martin Luther King Jr. (David Oyelowo) desafia o poder do homem branco ao liderar a histórica marcha entre as cidades de Selma e Montgomery. Fora das telonas, ‘Selma’ também vivencia outra questão racial importante: o filme é o epicentro de uma discussão sobre a pouca diversidade entre os indicados (e vencedores) do Oscar.

Cotado como um dos favoritos do ano, ‘Selma’ foi indicado ao prêmio de melhor filme, mas a diretora, Ava DuVernay e o protagonista David Oyelowo ficaram de fora dos prêmios de direção e atuação. Com isso, pela primeira vez desde 2011, a edição de 2015 do Oscar acontece com nenhum indicado negro (ou de qualquer outra etnia) nas quatro categorias de atuação, assim como nas categorias de direção e roteiro. Alguns sites e jornais americanos, entretanto, consideram atores como o espanhol Javier Bardem “multiétnicos”, e datam de 1998 como a última edição do Oscar apenas com atores e atrizes brancos indicados.

A lista “homogênea” dos indicados ao Oscar não demorou a virar alvo de críticas, primeiro na internet. Logo após a divulgação dos nomes, surgiu no Twitter a hashtag #OscarSoWhite, Oscar tão branco, em português. Mas a discussão assumiu um novo patamar com a declaração de George Lucas, diretor da franquia ‘Star Wars’ e criador de ‘Indiana Jones’: a academia prioriza a política à arte

Reprodução
Diretor George Lucas foi um dos nomes de peso do cinema a criticar as escolhas da Academia em 2015 (foto: Reprodução)


Um dia após a divulgação dos nomeados, o respeitado diretor George Lucas deu uma entrevista à rede de TV americana CBS, onde fez duras críticas à Academia de Artes de Hollywood. O diretor afirmou não ficar surpreso com a falta de diversidade na festa do cinema e que a Academia apenas reflete Hollywood: uma comunidade branca e masculina. Em resposta, a presidente da Academia, Cheryl Boone (primeira afro-americana a ocupar o cargo) reconheceu a ausência de diversidade, e declarou que a lista inspira a lutar por mais inclusão.

Na história

A história dos premiados no Oscar depõe mais a favor de Lucas que da Academia. Só nas quatro categorias de atuação foram distribuídos 330 prêmios desde a primeira edição do Oscar, em 1929. Quinze deles ficaram com atores e atrizes negras.

A primeira a receber a estatueta do Oscar foi Hattie McDaniel, em 1940 com '...E o vento levou'. Depois veio o prêmio de Sidney Poitier, em 1964, vencedor como melhor ator em ‘Uma voz nas sombras’. Denzel Washington (‘Dia de treinamento’, 2002), Jamie Foxx (‘Ray’, 2005) e Forest Whitaker (‘O último rei da Escócia’, 2007) foram outros que se destacaram e levaram pra casa o prêmio. Halle Berry foi a única  a vencer na categoria melhor atriz, em 2002, pelo seu papel em ‘A última ceia’.

O prêmio de melhor ator coadjuvante já foi entregue a quatro atores afro-americanos: Louis Gosset Jr. (‘A força do destino’, 1982), Denzel Washington (‘Tempo de glória’, 1990), Cuba Gooding Jr. (‘Jerry Maguire - A grande virada’, 1997), e Morgan Freeman ('Menina de Ouro' 2005). Além de Hattie McDaniel, outras atrizes que também foram premiadas com um Oscar foram Whoopi Goldberg (‘Ghost’, 1990), Jennifer Hudson (‘Dreamgirls’, 2007), Mo’Nique (‘Preciosa’, 2010), Octavia Spencer (‘Histórias cruzadas’, 2012) e Lupita Nyong’o (‘12 anos de escravidão’, 2013)

Arquivo Pessoal
Rosália Diogo, professora e pesquisadora (foto: Arquivo Pessoal)
O problema da representação


O prêmio mais comentado de uma indústria cinematográfica que movimenta bilhões de dólares todos os anos e é vista pelos quatro cantos do planeta. É de se esperar uma responsabilidade de representar ali diferentes etnias, pessoas que se veem nos personagens, roteiros e histórias. “E representatividade é importante para dar a visibilidade necessária para que a sociedade rediscuta as formas de preconceito e exclusão”, declarou a professora Rosália Diogo, pós-doutora em Antropologia Social pela Universidade de Barcelona. “A Academia tem 94% dos votantes brancos, isso é algo a ser repensado”, concluiu a professora.
 
Um levantamento publicado pelo jornal Los Angeles Times deu a dimensão de quão hegemônica é a Academia. Os números indicados pelo jornal apontam mais de 6 mil membros na academia, sendo 77% homens, 86% com mais de  50 anos e 94% brancos.
 
Rosália relembrou ainda as recentes premiações de ‘12 anos de escravidão’ como melhor filme, Lupita Nyong’o como melhor atriz coadjuvante em 2014. “A indicação e premiação deles fez pensar numa recente valorização de atores, atrizes e diretores negros, mas o que podemos ver neste ano é um retrocesso.”, afirmou Rosália Diogo.

Oscar = FIFA ?

Acervo Pessoal
Rodrigo Rodrigues, jornalista (foto: Acervo Pessoal)
“É igual o prêmio de melhor jogador do mundo. Sabemos que um jogador é melhor, mas o outro vence por razões políticas”. Foi traçando um paralelo entre a Academia de Artes de Hollywood e a Federação Internacional de Futebol que o jornalista Rodrigo Rodrigues resumiu como funciona a premiação do Oscar.

É importante, entretanto, ressaltar que o problema não se limita exclusivamente ao Oscar. “O Oscar é um espelho da sociedade”, diz Rodrigo. Ainda para o jornalista, este cenário poderia ser mudado com um pouco de boa vontade. “O prêmio é careta, solene, feito por americanos para americanos. A Academia acaba sendo um clubinho cheio de preconceitos. Um exemplo é a implicância deles com diretores populares, como Steven Spielberg. Isso acaba tornando o Oscar uma cerimônia monótona, previsível.”

A faceta machista do Oscar

BuzzFeed/Twitter
Site americano BuzzFeed chamou atenção para o sexismo na indicação ao Oscar de uma maneira peculiar: substituindo todos os indicados homens por emojis (foto: BuzzFeed/Twitter)


As críticas em torno das indicações para a edição deste ano do Oscar não está focada apenas em questões raciais. O gênero dos indicados também chamou atenção de críticos. Foram 102 homens e 25 mulheres, sendo que nenhuma delas em categorias como direção, roteiro ou fotografia. E é aí que 'Selma' entra mais uma vez com destaque na história.
 
O filme foi dirigido por Ava DuVernay. A diretora teve indicações importantes como no Critics' Choice Movie Awards e o Globo de Ouro, ambos para melhor diretor. Nas duas premiações DuVernay perdeu o prêmio para Richard Linklater, de 'Boyhood', mas seu nome entrou para a lista dos mais cotados nos bastidores de Hollywood. Em entrevista para o site americano Democracy Now, a diretora, questionada sobre seu filme 'Selma' ser "esnobado" na Academia, Ava respondeu: "A questão é: por que 'Selma' foi o único filme com pessoas negras concorrendo? Quero dizer, por que não há (não apenas para negros, também asiáticos, indígenas...) representações que são mais que uma voz, um rosto, um olhar? Para mim é muito menos os prêmios e elogios porque, literalmente, no ano que vem ninguém se importa mais"
 
Mas, se o Oscar apenas reflete os valores e a moral da sociedade, americana e ocidental, a segregação por gênero começa longe dos holofotes e do tapete vermelho da Academia…

O caso brasileiro é importante para ilustrar como um desequilíbrio entre produtores , realizadores e atores homens ou mulheres se reflete nas grandes premiações. A cineasta brasileira Prisci La Guedes resume bem a situação: “em muitos momentos precisei fingir que não estava ouvindo piadas machistas”. A cineasta trabalha atualmente em parceria com outra mulher, Mariana Vielmond, na adaptação ‘O amor é foda’.
 
Acervo Pessoal
Cineasta brasileira Prisci La Guedes conta que já teve dificuldades no início da carreira por ser mulher (foto: Acervo Pessoal)
Guedes atualmente mora em Paris, onde pode perceber mais facilmente cineastas mulheres em cargos como direção dos filmes ou de fotografia. “No Brasil, embora haja mulheres realizando a direção de fotografia de filmes, esse número ainda é muito reduzido, o que me dificultou um pouco quando comecei”. “Já trabalhei em muitas equipes de imagem em filmagem nas quais eu era a única mulher”, completa.

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