Filme de Ridley Scott traz um profeta bélico, que trocou o cajado por uma emblemática espada

Elenco de 'Êxodo - Deuses e reis' rende polêmica e acusação de racismo ao diretor

por Mariana Peixoto 20/12/2014 07:00

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Fox/divulgação
Christian Bale interpreta Moisés, um general valente que tenta bater recordes de bilheteria (foto: Fox/divulgação)
Um salvador para cada tempo. Moisés, o protagonista de 'Êxodo – Deuses e reis', versão do cineasta Ridley Scott para uma das narrativas mais conhecidas do Antigo Testamento, faz muito do que está descrito na 'Bíblia'. Encontra-se com Deus, vive como pastor numa aldeia sem importância, assiste às 10 pragas assolarem o Egito, salva os hebreus ao abrir o Mar Vermelho. Por outro lado, o personagem vivido por Christian Bale não poderia ser mais oposto à imagem que se tem do profeta cuja importância é reconhecida pelo judaísmo, cristianismo e islamismo.

É um Moisés bélico que chega às telas neste Natal. Neste fim de semana, antecipando o lançamento do blockbuster, há pré-estreias em todo o país. A superprodução de US$ 140 milhões deve conquistar o público que lotou as salas no primeiro semestre com outro épico bíblico. A despeito de sua releitura um tanto desmiolada (que inclui extraterrestes) e da dose exagerada de drama, o Noé de Darren Aronofsky foi sucesso de bilheteria. Até dia 16, era o terceiro filme mais visto nos cinemas brasileiros em 2014.

O lançamento de 'Êxodo...' nos Estados Unidos não foi tão bom quanto o esperado. Em seu primeiro fim de semana, liderou as bilheterias com US$ 24 milhões de renda, valor inferior aos US$ 43 milhões arrecadados por 'Noé' no lançamento. Mesmo assim, será um longa bastante visto e discutido. As polêmicas, por sinal, já começaram.

Sem papas na língua, Ridley Scott respondeu àqueles que o acusaram de racismo por ter escolhido para os papéis principais atores brancos (o britânico Christian Bale e o australiano Joel Edgerton interpretam Moisés e Ramsés, respectivamente). “Não poderia fazer um filme com esse orçamento, no qual preciso de incentivos fiscais, dizendo que meu protagonista é o Mohammad disso-ou-daquilo”, disse o cineasta à revista 'Variety'. O elenco secundário, por outro lado, é bem diverso, com atores do Irã, Síria e Israel, afora nomes europeus. Há ainda atores notáveis, alguns bem (Ben Kingsley, como o sábio hebreu Nun) e outros mal aproveitados (Sigourney Weaver, atriz recorrente na filmografia de Scott, passa quase despercebida como Tuya, mulher de Seti e mãe de Ramsés).



Liberdade Poética
A despeito de um respeitoso passado ligado à ficção científica (os clássicos oitentistas 'Alien' e 'Blade Runner'), Scott tem uma obra repleta de épicos: '1492 – A conquista do paraíso', 'Cruzada', 'Robin Hood' e seu grande sucesso no gênero, 'Gladiador'. É justamente com esse último que 'Êxodo...' mais se relaciona. Na primeira parte da narrativa, o Moisés de Christian Bale é um destemido e carismático general, o segundo homem na linha de frente do reinado de Seti (John Turturro). Tanto por isso, tem a preferência do faraó, causando ciúme de Ramsés, filho de Seti e seu legítimo sucessor.

Com a morte de Seti e a ascensão de Ramsés (homem fraco e sugestionável, o que contradiz a história oficial, que o tem como um dos maiores faraós do Egito Antigo), Moisés descobre-se um hebreu, abandonando as glórias da vida na corte e aproximando-se dos seus. O líder militar começa a dar lugar ao líder religioso, que se encontra sucessivas vezes com Deus (aqui apresentado na figura de um menino voluntarioso, o ator britânico Isaac Andrews, com aparições sempre surpreendentes) e busca, por meio de estratégicas bélicas, tirar seu povo da opressão.

Com sua mistura às vezes bem azeitada entre fatos bíblicos e fenômenos inexplicáveis, Scott consegue segurar duas horas e meia de um filme de ação. A longa cena em que milhares de hebreus atravessam o Mar Vermelho, por sinal, vale o ingresso do 3D, apesar de um inesperado arremate. Moisés não tem cajado, mas uma espada cheia de simbologia presenteada pelo faraó Seti. São liberdades poéticas que o espectador terá que perdoar.

AS VÁRIAS FACES DO PROFETA

. Os Dez Mandamentos (1923)

Filme mudo dirigido por Cecil B. DeMille, dividido em duas partes. A narrativa tem início já na última das 10 pragas do Egito, a da morte dos primogênitos. Todas as legendas são citações bíblicas e Moisés é interpretado por Theodore Roberts, ator de 23 produções de DeMille. Já a segunda parte da narrativa é ambientada na São Francisco da época, mostrando a eficácia dos mandamentos na vida moderna.

. Os Dez Mandamentos (1956)

Não contente com o primeiro filme, Cecil B. DeMille resolveu, 33 anos mais tarde, filmar novamente a história. Dessa vez, a narrativa de Moisés é contada do início ao fim, desde que é encontrado no Nilo ainda recém-nascido. A superprodução (com roteiro de 300 páginas e 220 minutos de duração) é o primeiro longa-metragem bíblico protagonizado por Charlton Heston, que virou ator-símbolo dos filmes do gênero. DeMille sofreu infarto durante as filmagens, ficando apenas poucos dias afastado. Está entre os 10 maiores sucessos do cinema.

. A Terra Prometida – A verdadeira história de Moisés (1974)
Minissérie produzida para a TV italiana que posteriormente foi editada para ser apresentada nos cinemas. Burt Lancaster interpreta Moisés na narrativa dirigida por Gianfranco De Bosio, com Anthony Burgess (autor de Laranja mecânica) como um dos roteiristas e Ennio Morricone assinando a música-tema. A despeito da ficha técnica, a crítica não engoliu a produção. “O filme faz Os Dez Mandamentos de DeMille parecer um trabalho de Eisenstein”, escreveu o The New York Times.

. Bíblia Sagrada (1995)

Bem antes de interpretar Nun, o líder hebreu no filme de Ridley Scott, Ben Kingsley viveu o próprio Moisés. No filme para a TV, coprodução de sete países (EUA, Reino Unido e Itália entre eles), Sônia Braga interpreta Séfora (ou Zipora), mulher de Moisés. Kingsley voltaria mais tarde às produções bíblicas de maneira diferente. Foi o narrador da animação Os Dez Mandamentos (2007).

. Os Dez Mandamentos: O musical (2006)

A carreira de Val Kilmer já estava descendente quando ele encarnou Moisés num musical que estreou há 10 anos no Kodak Theater, em Los Angeles. A despeito da carreira do ator no cinema não ter nada de muito relevante no período, a montagem teatral fez tanto sucesso que acabou rendendo uma versão em filme. Kilmer já tinha experiência no papel quando interpretou o personagem: emprestou sua voz a Moisés na animação O príncipe do Egito (1998).

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