Nelson Xavier participa em Belo Horizonte de sessão comentada do filme A Rainha Diaba

Ele planeja levar às telas Um passo atrás, com roteiro que escreveu sobre a ditadura militar

por Mariana Peixoto 08/12/2014 00:13

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Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr
Nelson Xavier, preocupado com a falta de memória política do país, quer se dedicar cada vez mais a escrever peças e roteiros para o cinema (foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr)
Nelson Xavier estreou no cinema em 1959 com um pequeno papel em Fronteiras do inferno, de Walter Hugo Khouri, aventura ambientada num garimpo entre o Brasil e a Bolívia. Nestes 55 anos, admite ter perdido a conta de quantos filmes participou. Algo entre 70 e 80, acredita, entre curtas e longas. Da recente incursão no espiritismo com Chico Xavier (2010), de Daniel Filho, a seu primeiro destaque na tela grande, com o clássico Os fuzis (1964), de Ruy Guerra, ele foi também Lampião, para falar de personagens célebres. Ainda encarnou militar, policial, preso político, padre, marginal. Aos 73 anos, Xavier chega hoje a Belo Horizonte para participar, no Cine Humberto Mauro, do encerramento da edição 2014 do projeto Curta Circuito.


Na sessão desta segunda-feira será exibido A Rainha Diaba, de Antônio Carlos da Fontoura, que também estará na apresentação. Com narrativa inspirada na vida de Madame Satã – o argumento é de Plínio Marcos –, traz como personagem-título Milton Gonçalves, que vive um homossexual que comanda o narcotráfico na região onde vive. Longa que coleciona vários prêmios, vários deles no Festival de Brasília, traz Xavier como Catitu, homem de confiança de Diaba. Quarenta anos depois do lançamento do filme – na época ele teve um público de 736 mil espectadores – é lembrado pelo ator com poucas palavras.

“O que me lembro de mais especial é que foi a primeira vez que se fez uma história com um personagem central homo e do mundo marginal”, comenta ele, que prefere falar mais de narrativas recentes. Neste ano, Xavier foi celebrado por dois personagens bem distintos. Em agosto, no Festival de Gramado, saiu como melhor ator no filme A despedida, de Marcelo Galvão, inédito no circuito comercial. Já em outubro foi visto em cinemas de todo o país na produção Trash – A esperança vem do lixo, do britânico Stephen Daldry. No primeiro filme é o protagonista; no segundo faz apenas uma participação, mas em uma das cenas mais fortes da coprodução Brasil/Reino Unido. Mesmo que bem distintos, ambos têm uma relação com a própria trajetória do ator.

Almirante, o personagem de Xavier em A despedida, é um senhor de 92 anos, já no fim da vida, que resolve se dar um último presente: uma noite de amor com Fátima (Juliana Paes), sua amante 55 anos mais nova. “A decadência física do personagem é tão grande que fiquei preocupadíssimo. Não me sinto como ele, sou bem jovem por dentro. Mas o Almirante precisava de andador, então tive assessoria de um médico, que me propôs alguns exercícios.” Já a relação do idoso com uma mulher bem mais nova foi a menor das preocupações de Xavier. “Estou casado há 25 anos com uma mulher muito bonita (a atriz Via Negromonte, 18 anos mais jovem do que ele) e essa diferença de idade nunca importou.”

Já o personagem de Trash – Jefferson, homem que vive encarcerado há décadas graças a suas convicções políticas – relaciona-se com a vida militante de Xavier. “Foi uma experiência linda, pois o personagem era um revolucionário, com ideias muito ligadas às da minha geração.” Ex-integrante do Partido Comunista, Xavier teve uma formação dividida. Interessou-se por cinema – seu principal canal de atuação, a despeito das inúmeras incursões no teatro e na TV – já estudante de direito. Simultaneamente a este curso, entrou para a Escola de Arte Dramática de São Paulo. “No fim do quarto ano de direito, me reuni com dois colegas que achavam que iríamos montar, juntos, um escritório. Quando falaram isso disse que iria fazer teatro. Foi esse o meu momento de desenlace”, relembra.

ESQUERDA Foi no Teatro de Arena que Xavier se envolveu ainda mais com o ambiente artístico. “Escrevi minha primeira peça e a apresentei no Seminário de Dramaturgia, dirigido pelo (Augusto) Boal. Lembro-me de que o primeiro tempo, O quarto e a casa, sobre uma família que sonha morar numa casa, foi espinafrado à beça.” Mesmo que a estreia em dramaturgia, nunca montada, tenha sido pra lá de desestimulante, ele continuou a fazer incursões no meio. Escreveu com Boal pelo menos três textos, um deles Mutirão em Novo Sol, peça sobre a resistência camponesa ao latifúndio, que o MST utiliza até hoje em suas escolas. “O que me dá muita satisfação”, diz Xavier. Há outros textos mais conhecidos, como O segredo do velho mudo e Trivial simples.

 O ator assume que, a despeito da atuação, o que gosta mesmo é de escrever. Seu texto mais recente é Um passo atrás, roteiro para cinema criado a partir de um caso real. “Sempre fui muito à esquerda e acho que o cinema precisava falar mais sobre a ditadura. É uma história que fala do período em dois tempos: 1973 e 2013. Tudo ainda está muito vivo e ainda existem bolsões de gente que acha que bom que houve ditadura. Hoje, essas comissões da verdade não funcionam plenamente, não sabem usar livremente as informações. Acho que nesse texto conto a história como deve ser contada”, afirma.

Nelson Xavier espera que o texto não permaneça inédito, mas reconhece as dificuldades para concretizar o projeto. “Gosto muito de escrever, tanto para cinema quanto para teatro, mas não sou empresário. Então, realizar um filme para mim sempre foi muito complicado.” O ator, no entanto, também tem história por trás das câmeras, tendo estreado na função como codiretor de Ruy Guerra em A queda, filme de 1978 que foi uma sequência de Os fuzis. Por isso aposta na ideia. “Agora, realmente, espero que possa dirigir Um passo atrás”, conclui.

 

Exibir e preservar

 

Criado em 2001 para exibir a produção curta-metragista, o projeto Curta Circuito, em 13 anos de atuação, ganhou diferentes formatos e telas, atingindo um público de 67 mil pessoas. Em BH com sessões sempre às segundas-feiras no Cine Humberto Mauro, a iniciativa, desde 2010, abriu espaço para o longa-metragem. Para além da exibição, o projeto também promove sessões comentadas, tanto pelos próprios realizadores quanto por críticos e estudiosos do cinema.

Exibindo filmes em diferentes formatos, o Curta Circuito criou uma itinerância, rodando por 15 cidades do interior do estado. Para além de Minas Gerais, o projeto já teve edições em Belém e pretende ir a Salvador, São Paulo e Fortaleza. Visando ainda à preservação da cinematografia nacional, restaurou, em 2013, o documentário Tostão, a fera de ouro (1970), de Paulo Laender e Ricardo Gomes Leite. Em 2015, o projeto volta a ter exibições em março.

CURTA CIRCUITO
Hoje, às 19h, exibição de A Rainha Diaba, de Antônio Carlos da Fontoura, seguida de bate-papo com o diretor e o ator Nelson Xavier. Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Entrada franca.

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