Ditadura é tema do Forumdoc.bh neste sábado

Arquivos da ditadura militar ajudam a compreender um período crucial da história do Brasil. A diretora Anita Leandro defende a importância de conscientizar os jovens sobre o passado

por Eduardo Tristão Girão 29/11/2014 09:00

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Anita Leandro/Divulgação
'Retratos de identificação' reconta a história dos militantes de esquerda Antônio Roberto Espinosa, Chael Schreier (acima), Maria Auxiliadora Lara Barcellos e Reinaldo Guarany (foto: Anita Leandro/Divulgação)
Nos últimos dias, não é difícil esbarrar por aí, na vida real ou digital, com alguém defendendo a volta da ditadura. “Bom, mesmo, era na época dos militares”, dizem. Tal pensamento pressupõe total falta de conhecimento sobre a história brasileira nos anos 1960 a 1980, marcado por repressão, tortura e morte. Nesse contexto, é oportuna a exibição do documentário 'Retratos de identificação', da jornalista mineira Anita Leandro, nesta sábado à tarde, no 18º Forumdoc.bh, no Cine Humberto Mauro. A diretora vai conversar com o público.


Resultado de quatro anos de pesquisas por arquivos públicos, o trabalho enfoca a história de quatro presos políticos durante a ditadura: Maria Auxiliadora Lara Barcellos (Dodora), Chael Charles Schreier, Reinaldo Guarany e Antônio Roberto Espinosa, esse último integrante da organização de esquerda Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

Anita desmente a versão oficial de que Schreier morreu durante confronto com a polícia. O filme mostra que isso ocorreu durante o período em que ele ficou preso e traz à tona depoimentos dos quatro. Chael e Antônio Roberto estão vivos. Traumatizada com os horrores que sofreu na prisão, a médica Maria Auxiliadora (1945-1976) se matou na Europa. Em 2010, quando foi indicada a disputar a Presidência da República pela primeira vez, Dilma Rousseff se referiu à amiga mineira em seu discurso: “Dodora, você está aqui no meu coração. Mas também aqui entre todos nós”.


Filme é documento


Com 72 minutos, o documentário 'Retratos de identificação', ganhou sessão de pré-estreia em setembro, no Rio de Janeiro, durante a mostra Arquivos da ditadura. A versão que os belo-horizontinos verão hoje, às 17h, no Cine Humberto Mauro, não é a mesma. Como a diretora não interrompeu as pesquisas, novas imagens foram adicionadas ao filme durante a finalização.

“A ausência total de documentários sobre os arquivos da ditadura foi uma de minhas motivações. O que há em trabalhos desse tipo é a título de ilustração, com depoimentos e fotografias de presos. Essas imagens nunca estão em primeiro plano como personagens principais, como fiz agora. Esse é o primeiro filme que coloca os arquivos como protagonistas. Os sobreviventes Reinaldo Guarany e Antônio Roberto Espinosa falam o tempo todo a partir dos arquivos. Não fiz perguntas a eles”, explica Anita.

Assumir a tarefa de jogar luz sobre o importante período da história brasileira – ignorado por muitos atualmente, sobretudo os jovens – ganha dimensão maior com a opção pelo formato audiovisual. “Num documentário, a montagem é uma escrita muito potente da história. É possível cruzar arquivos iconográficos com documentais, fazer associações entre passado e presente, além de trazer para o debate coisas que num livro de história ficariam circunscritas a pesquisadores. A imagem permite a compreensão de fatos de uma forma que, às vezes, não está nos livros”, observa.

Professora de cinema da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Anita Leandro acredita que o documentário tem relevância no esclarecimento dos jovens. “A formação no colégio é muito elementar, a desinformação sobre a ditadura é muito grande. A nova geração é desinformada e é urgente corrigir isso. Nosso futuro depende do conhecimento do passado. Senão, o presente nos absorverá completamente”, afirma.

TRANSFORMAÇÃO

O antropólogo Paulo Maia, cofundador do Forumdoc.BH e professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que filmes podem extrapolar a mera representação do mundo. “Eles têm a capacidade de transformá-lo. O festival insiste em mostrar produções como as filmadas pelos índios. É um cinema que não tem ação de contemplação, mas de transformação, trazendo questões importantes”, explica.

Na opinião dele, os documentários do israelense Avi Mograbi, que ganhou mostra retrospectiva no Forumdoc.bh e veio à capital, são exemplares. “Ele faz um cinema político, com olhar muito próprio. Às vezes, ele próprio entra em cena. Esse cara se negou a participar da guerra com o Líbano e foi preso por isso. É um judeu que não está a favor de Israel, e a maioria dos filmes dele representa esse conflito. Ele tem uma posição incômoda”, conclui.

Três perguntas para...

Avi Mograbi
cineasta e videoartista

Como você define o seu estilo de fazer documentário?


Prefiro não chamar o que faço de documentário, mas de filme. De fato, eles tratam da realidade e de situações reais, mas chamá-las de documentário os limita. Meus filmes tentam contar o que penso sobre como a realidade deve ser contada. Não acho que tenham um estilo específico, mas, com certeza, é possível distingui-los dos trabalhos de outros diretores. A minha impressão digital está nos meus trabalhos, incluindo a minha presença na maioria deles.

Qual é o papel do documentário na preservação da memória política?

O papel do documentário na cena política do Oriente Médio ou de qualquer outro lugar é como o dos livros ou até mesmo da música, de pensamentos escritos e de objetos que permitem às pessoas conhecer o ponto de vista de quem os produziu. Com sorte há um ponto de vista alternativo em relação ao oficial para que as pessoas tenham uma compreensão alternativa do que acontece.

Como é a reação do público a documentários de cunho político?

Não sei como as pessoas reagem a eles. A acessibilidade a esses trabalhos depende muito da linguagem. Muitas vezes, tendem a ser secos, com caráter de pregação, propaganda. Mas também podem ser poéticos, engraçados e vibrantes. Isso – espero – determina a forma como as pessoas os aceitam.

CONFIRA
Domingo, às 19h, no Cine Humberto Mauro, será exibido o último filme da retrospectiva dedicada à obra do israelense Avi Mograbi. Agosto, um momento antes da explosão (2002) traz o próprio cineasta percorrendo as ruas de Israel com sua câmera. Para ele, o mês simboliza tudo o que seu país tem de mais insuportável.

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