Chega a BH a última obra de Alain Resnais, 'Amar, beber e cantar'

Cineasta francês faleceu em março desse ano

por Fernanda Machado 21/11/2014 08:00

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Imovision/Divulgação
(foto: Imovision/Divulgação)
Quase teatro, com direito a cenários minimalistas em que as paredes são substituídas por papéis. Impactante é o mínimo que se pode dizer de 'Amar, beber e cantar', obra derradeira do cineasta francês Alain Resnais, que morreu em março. A surpresa começa logo na abertura, quando a câmera, instalada a uma distância de cerca de 3m do chão, passeia pelas ruas de um vilarejo inglês, mostrando a arquitetura do lugar e as ruas. A panorâmica vem junto com créditos apresentados de maneira inusitada – não vale a pena revelar para não transformar o texto em spoiler.

Fato é que o último filme do diretor de obras densas como 'O ano passado em Marienbad' está mais próximo dos seus projetos finais, mais leves e inusitados, filmes de realismo que rompe com a realidade, sempre mostrada em tom de fantasia. Tudo isso, claro, sem se tornarem superficiais.

Em 'Amar, beber e cantar', o francês adapta pela terceira vez peça do inglês Alan Ayckbourn – as anteriores foram 'Smoking/No smoking' e 'Medos privados em lugares públicos'). Na nova obra, Resnais mantém a estrutura teatral e tem para isso trama perfeita, os personagens ensaiam a montagem amadora de uma peça ('Relatively speaking', outra obra de sucesso do dramaturgo). O cineasta vale-se do jogo de cena, território demarcado sempre pela cenografia nada realista.

Premiado duplamente no Festival de Berlim, em fevereiro, com o troféu da crítica internacional e o Alfred Bauer, outorgado a filmes que “abrem novas perspectivas para a arte cinematográfica”, 'Amar, beber e cantar' é na realidade uma peça de teatro dentro de um filme. O espetáculo é ensaiado por um grupo de amigos, que se unem a George Riley, um cara misterioso sobre quem se ouve mas nunca aparece. Doente, ele não tem perspectiva de vida de mais de seis meses.

A trama começa quando o médico Colin (Hippolyte Girardot) deixa escapar para sua mulher, Kathryn (Sabine Azéma), a notícia da iminência da morte de Riley. Os dois se preparam para o tal ensaio da peça, que terá direção de Peggy Parker (outra personagem “invisível”). O boato da doença se espalha, e o casal Tamara (Caroline Sihol) e Jack (Michel Vuillermoz) se desespera. O problema é que eles passam a hostilizar Monica (Sandrine Kiberlain), ex-mulher de George, que mora com Simeon (André Dussollier).

É sobre as relações desse grupo, a morte, as lembranças e os planos deles (com ou sem Riley) que a trama se desenrola, sem dramas mas numa espécie de celebração à vida. É da crise que nasce mais uma obra de peso do diretor, que, depois de mais velho, passou a brincar com a dor e o cotidiano, desafiando a realidade com humor e intensidade.

SAIBA MAIS

Obra polêmica

Alain Resnais (1922/2014) tornou-se conhecido por obras-primas de ficção poética como Hiroshima meu amor (1959), filme com Marguerite Duras, e O ano passado em Marienbad (1961), com roteiro de Alain Robbe-Grillet). Nos dois longas, o cineasta aborda questões de tempo e memória, sendo o segundo o melhor exemplo de seu estilo, que provocou estranheza e, muitas vezes, incompreensão. Polêmico, ele também filmou documentários. Entre os destaques, Noite e nevoeiro (1955), sobre os campos de extermínio nazistas. Entre os longas de ficção mais conhecidos do francês está Meu tio da América (1980).


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