Atores falam sobre dificuldades de viver Tim Maia no cinema

Robson Nunes e Babu Santana revelam que têm muito da personalidade do Síndico da MPB

por Ricardo Daehn 10/11/2014 10:47

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Aurelio Amorim/Divulgação
Robson Nunes viveu Tim Maia jovem: honra de interpretar o ídolo na tela do cinema (foto: Aurelio Amorim/Divulgação)
Ator que divide os holofotes com o colega Babu Santana, no longa-metragem 'Tim Maia', Robson Nunes assume: no aspecto físico, existiram “Tim Maias” que foram “pessoas diferentes”. Na personalidade, entretanto, tem a certeza da singularidade do ídolo. “Ele e o Wilson Simonal foram caras à frente do tempo deles, referências para mim. Foram conscientes do papel que tinham, dizendo: ‘Eu sou negro, sim, e tô aí, como exemplo’”, destaca o ator de 32 anos. Em comum com o artista, o ator ressalta que, desde cedo, sabia o que queria. “Com 12 anos, descobri que queria ser ator, num meio nada favorável. Entre os irmãos, há um engenheiro mecânico e outro que dá aulas de tornearia mecânica. Meu pai, pedreiro; minha mãe, dona de casa. Eu estava num meio que não tinha nenhuma referência próxima ao meio dos palcos”, conta.

Morador de São Bernardo e, em seguida, do bairro de Jabaquara, em São Paulo, Robson comenta que o pai sempre o apoiou, mesmo sem condições de bancar cursos de interpretação. “Estudei no Senai, fiz mecânica geral. Estudei em escola técnica em Santo André, onde fiz até eletrônica”, ressalta, ao falar da etapa de vida anterior à experimentada com filmes como 'Caixa dois' e 'Família vende tudo', além de produções assinadas por Fernando Meirelles, Ugo Giorgetti e Hector Babenco.

“Nunca pensei que viveria da arte, mas, para minha grata surpresa, passei num teste para 'Malhação'. Na trama, era o garoto negro, o único da novela. Era um CDF, bem aplicado, boa pessoa — me surpreendi, porque, até aquele momento, eu só tinha feito ladrão, marginal”, observa o ator. Já em “programas para a elite”, como os do Disney Channel (apresentados por ele nos anos 2000), Robson Nunes sublinha a preocupação de embutir a sua cultura, nas coisas que tinha dentro de casa, como o convívio e a educação dada pelos pais nordestinos.

“Querendo ou não, fui uma referência para a molecadinha que assistia — salvo engano — não vi ninguém, exceto o Jairzinho, no comando de um programa infantil. Por lá, fiquei 10 anos, sem nunca abandonar o cinema. Levava para o programa o quão interessante a diversidade pode ser”, demarca. No mesmo clima, surgiu o espetáculo 'Afro Bege', um solo de humor baseado na experiência desconcertante. “Uma menina negra que me classificou assim: afro-bege. Pra mim, não tem essa do moreno claro, moreno escuro. Me recusei a abordar racismo no meu espetáculo, preferia a chave da consciência. Essa é a grande arma que a gente tem. A grande mudança está na consciência. Quando você é um negro consciente, você consegue ao menos iniciar a revolução”, avalia o ator que faz sucesso nos cinemas, com o mesmo personagem que interpretou em 2007 no especial da Globo 'Por toda minha vida'.

“Ser convidado para o filme, para mim, foi uma grande honra, porque eu já era fã do Tim Maia. As fontes para o personagem mudaram bastante, e o surgimento do livro feito pelo Nelson Motta facilitou muito”, diz o ator, ferrenho defensor da ideologia marcante em Tim Maia, avessa ao preconceito carregado no mainstream. “Quando falo em revolução racial, não falo de guerra, mas de conscientizar as pessoas preconceituosas que, ainda hoje, têm pensamentos retrógrados. Além de conscientizar o branco, é preciso conscientizar o negro. Isso, pelo orgulho de ser negro, de assumir a negritude”, finaliza.

"Falo, por experiência própria: só fui me sentir bonito aos 17 anos de idade. A partir do momento em que vi beleza no meu cabelo e no meu sorriso, eu usei isso sempre a meu favor"

Divulgação
Babu Santana deu vida ao Tim Maia mais velho na cinebiografia (foto: Divulgação)
O Tim Maia mais velho

Houve um momento, no set de filmagens, em que as pessoas não enxergavam o que o ator Babu Santana — um dos intérpretes do protagonista — “tinha passado”. Pelo aspecto interno, o feito de superar o preconceito e a invisibilidade foi motor de identificação. “No fator externo, engordar não foi nenhum sacrifício, descontado o fator estético”, explica o ator que sempre se sentia atraído pela arte, por causa da rotina de acompanhar o pai, um funcionário da Globo. No Vidigal, aos 15 anos, ele atendeu ao desejo e ingressou no grupo 'Nós do Morro', montado pelo “vizinho” Guti Fraga.

“Depois, fiz curso de cinema e segui para a parte técnica, cuidando de produção, arte e cenário de filmes. Com 'Cidade de Deus' foi que o grande cinema entrou na minha vida”, observa o ator de 35 anos. Depois de desafios driblados em filmes como 'Uma onda no ar' e 'Estômago', Babu agora enfrenta obstáculo que lhe causou até medo (assumido). “Fiquei preocupado em alcançar a rouquidão. Mas no passado fizemos muitos musicais, em que estudava muito coro. Além disso, no filme, contamos com recursos como o da afinação eletrônica”, entrega, sem ocultar artifícios.

Você nota renovação na questão racial no Brasil?
Além de ter minhas origens negras, vejo a existência da questão social: no nosso país, isso é muito confundido. Quando se tem um negro e pobre, não se ganha muitos sorrisos da sociedade. Inconscientemente, fui para a vida de ator em busca de um sorriso e de um espaço. Não tenho muito do que me queixar, por ter sido muito amado pela minha família. A questão foi bem suprida, dentro de casa. Sempre fui muito alto, grande, forte, então poucas vezes tive que confrontar isso.

Você concorda que há um passado árduo em comum com o Tim Maia?

Eu sinto, como o Tim Maia sentiu: um garoto negro, um mulato que as pessoas não davam muita atenção, tinha o triplo do talento dos outros e, mesmo assim, não era reconhecido. Depois de um tempo, Tim Maia consegue expor o talento, e as pessoas que pisavam nele quiseram fazer carinho. Aí, ele falou: “Não, meu irmão, eu também não sou otário”. Para mim, foi muito fácil fazer essa personalidade dele porque já apanhei muito da vida. Não farei que nem ele, pelo ensinamento que deu, e com o tapete vermelho já estendido para mim: a gente tem que ser político, e não agressivo.

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