Cresce o número de realizadores que produzem filmes ainda na universidade

Importância ou não da graduação na área sempre foi polêmica

por Carolina Braga 03/11/2014 07:00

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Tokyo Filmes/Divulgação
'Castanha', documentário de Davi Pretto que abre a programação do Lumiar, foi feito durante curso na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (foto: Tokyo Filmes/Divulgação)
Para uma plateia de mais de 1 mil estudantes de cinema e novos realizadores, durante a edição do Festival de Cannes de 2007, o cineasta Quentin Tarantino polemizou: “Pegue todo o dinheiro que seu pai gastaria em uma universidade e faça um filme”. Foi aplaudido, óbvio. Mas é preciso ressaltar que o diretor de 'Pulp Fiction', 'Kill Bill', 'Bastardos inglórios', 'Django livre' e tantos outros sempre foi viciado em sétima arte. Vale lembrar que Steven Spielberg, Martin Scorcese e Francis Ford Coppola são alguns egressos de universidades americanas e que não concordam, necessariamente, com a dica dele.


“Tarantino tem um volume de filmes assistidos muito maior do que a média mundial. É compreensível ele tender para um empirismo radical, mas essa não é a realidade de 99% das pessoas”, pondera o crítico e professor Rafael Ciccarini, coordenador do curso de cinema do Centro Universitário Una. Como não adianta ir para o set de filmagens sem referências e mesmo com as facilidades digitais, e como nem tanta gente assim tem a disposição de Tarantino para ser autodidata, o resultado é uma crescente oferta de cursos de graduação na área. A qualidade aparece nas telas. Tem quantidade também.
Na recente edição do Janela Internacional de Cinema de Recife, dentre os 25 curtas-metragens nacionais em competição, seis são produções feitas ainda na universidade. Ano após ano, a seleção de curtas na Mostra de Cinema de Tiradentes também é assim. É o cinema feito por quem está começando que interessa ao Lumiar – 1º Festival Interamericano de Cinema Universitário. O evento, coordenado pelo curso de cinema da Una, ocupa até o dia 8 o Cine Humberto Mauro. Será uma semana dedicada exclusivamente à produção escolar, o que não significa baixa qualidade. Pelo contrário. São obras premiadas e até destacadas internacionalmente.


Serão exibidos trabalhos de 13 universidades brasileiras e também da Universidad del Cine (Argentina), Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba), Escuela Nacional de Cine (Colômbia) e Escuela Nacional de Cine del Uruguai). O objetivo é reforçar o papel da escola como espaço de reflexão e troca de ideias sobre o pensar e o fazer cinematográfico.

Para Rafael Ciccarini, com o crescimento do estudo formal desta área, cria-se no Brasil uma geração mais consistente de realizadores. Aos 26 anos, o diretor e hoje assessor internacional da Agência Nacional do Cinema, Eduardo Valente, recebeu o prêmio da Cinèfoudation, no Festival de Cannes de 2001, com o curta Um sol alaranjado. O filme era o trabalho de conclusão do curso de cinema, feito na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Audiovisual “Creio que a principal mudança desde que me formei é que o conceito de audiovisual hoje é muito mais importante; cinema é um termo que tem um quê de ultrapassado. Claro que o cinema como tal ainda existe, mas essa ideia de pensar e estar preparado para um ambiente do audiovisual é muito mais forte nos cursos, assim como, em geral, no setor”, comenta Valente. “O cinema contemporâneo não comercial tem a característica da autorreflexividade, pensa muito sobre si mesmo. Observamos isso na safra de longas e curtas. Tem essa característica de refletir o próprio cinema, as relações éticas que se estabelecem ali, entre outras coisas”, complementa Rafael Ciccarini.


Como Eduardo Valente ressalta, o ensino universitário de audiovisual hoje se torna cada vez mais prático, ajudado justamente pela disponibilidade cada vez maior de equipamentos simples e não muito caros, que auxiliam a que se façam cada vez mais exercícios. “Alguns cursos mais antigos, como o da UFF, seguem com a tradição do ensino teórico, mas acho que mesmo lá se incorpora cada vez mais a prática constante, o que me parece sempre algo positivo”, diz Valente.


Se nos tempos da película a produção esbarrava em uma questão financeira, com o alto custo dos negativos, da pós-produção, cópias etc., hoje fazer cinema passou a ser uma questão de vontade e esforço. Mesmo que existam vários editais de apoio e uma conversa sobre o possível surgimento de uma indústria comercial cinematográfica, ter dinheiro não significa fazer algo relevante. “É aí que entra o papel do estudo. É fundamental para dar consistência a essa situação que vivemos hoje”, completa Ciccarini.

Festival Entre os 67 longas e curtas selecionados para a programação do Lumiar, 14 são trabalhos de diretores consagrados como Martin Scorcese, George Lucas, Brian de Palma, Francis Ford Coppola e outros. O detalhe é que vão para a tela do Cine Humberto Mauro obras como 'Barbear', curta que o diretor de 'Taxi Driver' fez em 1968, nos tempos em que ainda era aluno da Universidade de Nova York. O mesmo vale para os curtas 'Liberdade' (1966), de George Lucas, e 'O despertar de Woton' (1962), de Brian De Palma. Esses são os hors-concours.


Os representantes das 13 universidades brasileiras e das quatro estrangeiras convidadas exibirão 24 trabalhos na mostra competitiva. Todos são filmes produzidos entre 2013 e 2014, indicados pelas respectivas instituições de origem. 'Castanha', documentário de Davi Pretto escolhido para abrir a programação, foi feito como trabalho na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O longa estreou na última edição do Festival de Berlim e, desde então, foi exibido no Festival do Rio e também na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 

Nesta segunda-feira
19h30 – Castanha, de Davi Pretto (2014)

Terça-feira
17h – Despertar dos mestres
Barbear (1968), de Martin Scorsese; Liberdade (1966), de George Lucas;
O despertar de Woton (1962), de Brian De Palma; O campo da honra (1973),
de Robert Zemeckis (1973);
A ressurreição de Broncho Billy (1970), de James R. Rokos e John Carpenter.
 
19h – Mostra Competitiva Interamericana
O telegrafista (2013) de Gabriel Delano ; Procurando Rita (2013), de Evandro Freitas; Anos de luz (2013), de Aldemar Matias; O pracinha de Odessa (2013), de Luis Felipe Labaki; Arte do ofício: Fotógrafos do parque (2013), de Carlos Hamilton
e Luiza Fernanda Meira.

20h30
Mostra Competitiva Interamericana
Perto da minha casa (2013), de Carolini Covre e Diego Locatelli; Debaixo do céu, de
Renata Spiz; A mulher perseguida (2013), de Jerónimo Quevedo;
Tejo Mar (2013), de Bernard Lessa.

Cine Humberto Mauro, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro.
Entrada franca.

 

Onde estudar em BH

 

CENTRO UNIVERSITÁRIO UNA
Criado há nove anos, o curso de cinema e audiovisual tem duração de quatro. As disciplinas contemplam várias funções ligadas à produção cinematográfica, como direção-geral, direção de fotografia, de atores, figurino, teoria da imagem e do som, entre outras. Informações: www.una.br.

PUC MINAS
O curso de cinema e audiovisual é uma habilitação de comunicação social. A primeira turma foi formada no ano passado. As aulas são no turno da tarde. O aluno apreende todos os processos do cinema, incluindo ideia e roteirização, pré-produção, captação de imagem, pós-produção, políticas públicas de captação de recursos e exibição. Informações: www.pucminas.br.

UFMG
A habilitação em cinema de animação e artes digitais é oferecida desde 2009, na Escola de Belas Artes da UFMG, e capacita o aluno a trabalhar com técnicas como 2D, 3D e stop-motion, entre outras. São nove períodos com disciplinas como arte e mídia, panorama do cinema, fundamentos da linguagem audiovisual, montagem e edição e panorama do cinema de animação. Informações: www.eba.ufmg.br.

 

PEDRO CUPERTINO/DIVULGAÇÃO
(foto: PEDRO CUPERTINO/DIVULGAÇÃO)
Três perguntas para...

David Pretto
Cineasta

 

1– Qual a importância da universidade na sua formação como diretor de cinema?
Meu vínculo com a faculdade é muito grande. Me formei  com Bruno Carboni e Richard Tavares, amigos que conheço desde os 10 anos. E lá conhecemos Paola Wink e fundamos nossa produtora, Tokyo Filmes. O curta de conclusão de curso ('Quarto de espera', que codirigi com Bruno) foi nosso primeiro filme a fazer um circuito grande de festivais nacionais e internacionais e nos abriu muitas portas. Além disso, a universidade é minha base cinéfila e amor que tenho por fazer e ver cinema, que acredito que é bastante latente no Castanha.

2- 'Castanha' tem tido repercussão muito positiva nos festivais pelos quais passou. Podemos dizer que o longa é resultado de um processo que une teoria e prática no pensar cinematográfico?
Uma vez, um crítico me perguntou se eu pensava sobre os motivos que levam um filme a ter a fronteira implodida entre ficção e documentário ou se eram só críticos que pensavam nisso. É óbvio que todo realizador pensa sobre teoria, mas quando você está lidando com personagens que estão permitindo que você mescle a vida ‘real’ deles com a sua ficção/criação, você não pode se dar ao luxo de ficar teorizando sobre como a ficção necessita do documentário, assim como a luz precisa da sombra, etc. A filmagem é um momento de instinto e de vivência fugaz. O roteiro e a montagem, sim, são mais teóricos. Todo filme é um jogo entre uma abordagem reflexiva e instintiva.

3-Ao mesmo tempo que cinema é uma técnica, é também arte. Até onde é possível ensinar e/ou aprender uma arte?

Gosto de pensar que a arte pode ser um trabalho bastante manual. Assim como um artesão pode ensinar a um aprendiz como lidar com a madeira e suas ferramentas, o cinema lida com tripé, câmera, lente, refletor... A universidade ensina a manusear e a refletir sobre como usar tudo isso, mas, além dos objetivos das disciplinas, existe a paixão de alguns professores pelo cinema, assim como o aprendiz percebe o amor que o artesão tem pela arte, quando o seu mestre olha e segura a madeira. São coisas que não se falam, mas se percebem.

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