Em 'Tim Maia', cineasta Mauro Lima aposta no descompasso que movia vida do 'Síndico'

Longa sobre a vida do músico brasileiro é estreia deste fim de semana em BH

por Ricardo Daehn 31/10/2014 07:00

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Páprica Fotografia/Divulgação
Babu Santana optou por cantar - e não dublar - 'Ela partiu', 'Sossego' e 'Azul da cor do mar' (foto: Páprica Fotografia/Divulgação)
Em 1959, com mirrados dólares entre os punhos fechados, um músico brasileiro de estilo único e determinação inabalável partiu para Nova York. Ignorando as oportunidades de futuro para a nascente Brasília, em que até um "idiota", como ressalta a mãe (interpretada por Valdinéia Soriano) "compra automóvel", Tim Maia se desprendia da trajetória do "mulato sem vez". Já não era o mesmo Tião Marmita, que, entre 18 irmãos, anos antes, havia gastado sola de chinelo, pelas ruas da Tijuca, ajudando na renda familiar de dona Maria. À frente de projeto de cinema urdido para desbravar (com o apoio do livro 'Vale tudo – O som a fúria de Tim Maia', de Nelson Motta) uma vida turbulenta, encerrada em 1998, o diretor Mauro Lima (do hit 'Meu nome não é Johnny') encara mais uma figura potencialmente controversa e avessa ao mainstream.

 

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"Quando falei em imagem quase fofa do Tim Maia, no passado, referia-me apenas à aparência dele. Ao meu ver, dava a impressão de que um ator apenas não faria. Na segunda fase da vida dele, talvez eu não emprestasse uma folha de cheque em branco, para ele", brinca o diretor Mauro Lima. Filmado parte em Ironbound (Newark), locação para Spielberg em 'A guerra dos mundos', 'Tim Maia' não deixa de contemplar teor bélico: num dado momento da trama, o protagonista parece adversário de si mesmo, sem equilíbrio para a ressaca do sucesso. "Eu tenho um milhão de inimigos", chega a definir, em cena, Tim (personagem dividido entre os atores Babu Santana e Robson Nunes), com direito a arma na mão e miolos amolecidos. O roteiro do cineasta, ao lado de Antônia Pellegrino, por absoluta coerência, não ignora festivais de polêmicas que cercaram Sebastião Rodrigues Maia.

Ácidos, ópio do Camboja, "sexo, drogas e drogas", farras e a citação ao faltar a compromissos (por motivos "esdrúxulos") estão presentes na narrativa de 'Tim Maia'. Para contrapor, há momentos hilários, quando da aparição de Mallu Magalhães (vivendo Nara Leão), contestada, pela cadência bossa nova, pelo personagem de Tim: "Morreu alguém aqui, nessa porra?!". Até o hit de 1978, 'Sossego', muita coisa na vida de Tim parecia vinculada, na verdade, ao também futuro êxito 'Vale tudo'. Depois das serenas 'Azul da cor do mar' e 'Primavera' – emplacadas no primeiro disco, de 1970 –, em meados daquela década, o envolvimento com a doutrina da Cultura Racional teve como legado um apaziguamento interior, além do controle sobre dois volumes de discos lançados.

O filme, conduzido por Mauro Lima, mostra-se arejado, nos primeiros passos de Tim Maia. O personagem cresce, nas telas, com o nível de preparação dos atores. Babu passou dois anos pesquisando o papel. Mauro ressalta que músicas como 'Ela partiu', 'Sossego' e 'Azul da cor do mar' foram, de fato, cantadas por Babu.

Méritos e limitações Envolvido pela camisa cintilante azul-piscina, contrariado pelo "calor moçambicano" e indisposto a levar desaforo para casa, Tim Maia, desde a primeira cena do filme (de Mauro Lima), habita as telas, personificado por Babu Santana e por Robson Nunes. Na estrada da música, em que "brancos eram alunos e pretos, catedráticos", Tim Maia soube se impor, mas, num galope árduo, que teve por ensaio a passagem pelo grupo Os Tijucanos do Ritmo.

Bem emoldurado, com rigorosa direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto (de 'O palhaço'), 'Tim Maia' segue eficiente andamento de pouco risco, comum às biografias – em que há narrador em canal direto com a plateia. O problema é que insiste demais na, pouco a pouco, cansativa fórmula da comunicação (é gritante o estilo de Nelson Motta, cuja obra deu esteio à produção).

O filme dá cabo da missão de equiparar méritos do retratado (como o de entregar balanço e soul para Roberto Carlos) às suas limitações (há de deportação a reclusões, passando por barreiras sociais). Tudo como se contrapusesse as lamentações de 'Ela partiu' e 'Adeus, cinco letras que choram' à euforia de 'Não quero dinheiro'. Mauro Lima aposta num ciclo de altos e baixos, bem caracterizados na fala da amada personagem de Alinne Moraes: "Cara, você (Tim) tá ficando intratável". Tim Maia, em cena, chega à proporção até de desagradável. Mas, saído de cena, justifica o vazio sentido.

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