Aguardado longa 'Boyhood - Da infância à juventude' vai chegar com atraso em BH

Filme de Richard Linklater é uma das sensações da temporada, e estreia em SP e Rio nesta quinta-feira

por Mariana Peixoto 28/10/2014 07:00

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Universal/Divulgação
Ellar Coltrane e Ethan Hawke vivem pai e filho em 'Boyhood - Da infância à juventude'', filme feito ao longo de 12 anos (foto: Universal/Divulgação)
São duas horas e 45 minutos que passam num piscar de olhos. Assim é a vida, não? Com 'Boyhood – Da infância à juventude', Richard Linklater, um dos mais prestigiados cineastas norte-americanos da atualidade, realiza seu pequeno milagre cinematográfico. O filme estreia quinta-feira apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Por uma decisão – incompreensível – da distribuidora, Belo Horizonte ficou de fora e terá que esperar para assistir ao filme-sensação da temporada.


Vencedor do Urso de Prata em Berlim, entre nove outros prêmios em festivais, 'Boyhood' merece muita atenção por duas razões básicas. Uma é o próprio mérito do longa-metragem, de uma simplicidade apenas aparente. 'Boyhood' é um filme sobre o garoto Mason, da infância (6 anos) à juventude (18), como expressa o auto-explicativo subtítulo em português. Sua forma de realização é o motivo de todo o frisson que cerca o longa-metragem desde sua primeira exibição, em janeiro, no Festival de Sundance.

Ao longo de 12 anos, Linklater filmou seus personagens principais, interpretados por não atores e atores em atuações impecáveis: Mason (Ellar Coltrane, um garoto de Austin, Texas, escolhido porque Linklater viu “algo de peculiar” nele); sua irmã mais velha Samantha (Lorelei Linklater, filha do cineasta); sua mãe (Patricia Arquette); e seu pai (Ethan Hawke, o ator preferido do diretor, aqui em sua sétima atuação sob a lente do cineasta).


De 2002 a 2013, com uma equipe mínima, já que o projeto foi mantido em sigilo durante toda sua execução, encontrou-se com o elenco uma vez por ano para não mais do que quatro dias de filmagem. Como trabalhava em um projeto de longuíssima duração, Linklater não dispunha de um roteiro convencional. À medida que o longa se desenvolvia, ele trabalhava tanto no roteiro quanto na montagem.

Quais os riscos de se trabalhar assim? Ao longo de 144 meses (ou 4.272 dias) tudo poderia acontecer: um ator desistir do projeto; o filme tornar-se inviável durante sua realização. Até a ideia da morte é algo absolutamente possível se tomarmos como espaço temporal uma dúzia de anos. Pois contra todo o pessimismo, Linklater chegou ao fim de sua jornada com o mesmo elenco e a intenção inicial. “Foi como dar um grande salto de fé para o futuro”, disse em entrevista.

DIA A DIASob o azul do céu, sobre o verde da grama e tendo ao fundo a canção 'Yellow', do Coldplay, assistimos a Mason na cena inicial de 'Boyhood' – a música é quase personagem nos filmes do diretor e aqui ela colabora na comunicação do garoto com seu pai, vide a cena em que ele presenteia o filho com o 'Black album', seleção de músicas de ex-Beatles. Deitado ali, com o olhar perdido, o garoto não está em busca de alguma revelação que seus parcos 6 anos podem trazer. Apenas espera a mãe para levá-lo para casa, já que o pai manteve a distância durante parte de sua infância. Nessa primeira cena Linklater já apresenta sua carta de intenções.


Toda a narrativa de 'Boyhood' será construída por meio do cotidiano, de ações comuns (até mesmo banais) que constituem o universo de uma pessoa qualquer. No caso, o foco está no garoto, em sua descoberta do mundo, suas frustrações e conquistas. Inteligentemente, o diretor não opta pelo recurso fácil de mostrar situações definidoras, já tão espetacularizadas pelo cinema.

Não vemos Mason se formando, transando com a primeira namorada, nem sequer sagrando-se vencedor de um torneio escolar. O que acompanhamos, sempre com um olhar bem próximo (a montagem é algo de brilhante, não há sequer um corte brusco e sem sentido), é a vida daquele menino brincando e brigando com a irmã, jogando em frente à TV, fazendo um corte radical de cabelo, descobrindo o mundo da fotografia, acampando com o pai. Chato? Nunca sob a lente de Linklater.
A passagem do tempo, tema caro ao cineasta (vide a trilogia 'Antes do amanhecer', filmada ao longo de 18 anos), surge na tela com delicadeza. Assistimos a Mason e Samantha construírem suas personalidades enquanto vemos seus pais deparando-se com as próprias fragilidades. Atores que despontaram na geração 1990, a mesma de onde saiu Linklater, Ethan Hawke e Patricia Arquette corajosamente vão envelhecendo em frente às câmeras ao mesmo tempo em que seus personagens tomam caminhos distintos, alguns bem contrários às suas intenções de juventude.


Na cena final, Mason está às portas da universidade. Com três amigos, viaja de cogumelo num parque no Texas. Curando-se das dores do primeiro grande amor, Mason conversa com uma garota que acabou de conhecer. A vida está aberta para eles, dali pra frente tudo pode acontecer. O momento é tudo, ele filosofa. Pois é dessa maneira que 'Boyhood' encanta. Bons ou maus, doces ou amargos, os momentos é que nos formam. E eles, na maior parte das vezes, ocorrem no tempo comum, sem qualquer fogo de artifício.

Tudo sobre Richard


Com 54 anos, Richard Linklater, texano de Houston radicado em Austin, completou 18 filmes com 'Boyhood'. Já dirigiu animações, filmes sobre adolescência e beisebol. Ethan Hawke, Jack Black, Keanu Reeves, Billy Bob Thornton, Matthew McConaughey e Julie Delphy e outros atores e diretores que já trabalharam com eles foram reunidos no documentário '21 years: Richard Linklater'. O filme-homenagem, produzido e dirigido pela dupla Michael Dunaway e Tara Wood, busca apresentar o sentido da obra do cineasta. O lançamento será em 7 de novembro. Depois deste, os mesmos realizadores vão lançar '21 years: Quentin Tarantino'. Informações: www.21yearsseries.com

Assista ao trailer do filme:


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