Fluxus Slow Cinema traz a Belo Horizonte três filmes de diretores cultuados da China, Malásia e Hungria

São obras de planos longos e narrativa lenta, que propõem experiência contemplativa

por Gracie Santos 05/10/2014 00:13

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Fotos: Fluxus Slow Cinema/Divulgação
(foto: Fotos: Fluxus Slow Cinema/Divulgação)
Defina lento. Já foi o tempo em que a palavra era apenas o antônimo de apressado, sinônimo de vagaroso. Slow, hoje, é um conceito de vida. No livro Devagar (2005, Editora Record), o escocês Carl Honoré maldiz a cultura da velocidade, que nasceu durante a Revolução Industrial, cresceu alimentada pela urbanização e a tecnologia e hoje faz milhares de vítimas aceleradas. Honoré relata sua experiência de meditação, fala da importância do silêncio e de se afastar de estímulos que nos mantêm plugados: TV, rádio, internet, celulares etc. Mas foi essa mesma sociedade da correria que gerou fruto interessante: a revolução Devagar. Desacelerar é o slogan de quem defende calma, paciência, reflexão. E traz também embutidas questões políticas, como no caso do slow food, que sugere trabalhar com produtores locais, pagar preço justo para que as pessoas tenham condições dignas de trabalho...

Na mesma raia, que propõe questões políticas e a “luta” contra os bits acelerados, corre o slow cinema, que ganha mostra instigante em Belo Horizonte, a partir de terça-feira. A Fluxus Slow Cinema exibe no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia três filmes de grandes expoentes do cinema atual: o chinês Zhengfan Yang, que estreou o longa em exibição, Distante (88min), no Festival de Locarno do ano passado; o malaio Tsai Ming-Liang, vencedor de Leão de Ouro em Veneza e do Urso de Prata em Berlim, de quem será apresentado Jornada ao Oeste (56min); e o húngaro Benedek Fliegauf, vencedor em Locarno e em Berlim, que chega aqui com seu terceiro longa, Via Láctea. A mostra é realizada pela produtora mineira Zeta Filmes até 9 de novembro e a entrada é franca.

Diretora da Zeta Filmes e curadora da exposição ao lado de Daniela Azzi, Francesca Azzi explica que “slow cinema não é um gênero, não define um grupo nem um movimento. Às vezes, os filmes têm personagens, noutras, não. Os planos são sempre longos”. Por isso mesmo, ela diz que o espaço expositivo é o local ideal, pois o espectador pode ter seu próprio tempo. “É um cinema mais para o universo das artes visuais, quase uma proposta estética, artística. E não existe a expectativa de quem vai assistir ao longa de ver algo em linguagem tradicional; assim, o artista poderá se expressar como quiser”. O slow cinema ou cinema de contemplação reúne filmes com ações narrativas subordinadas ao tempo, feitos com silêncios, planos longos e movimentos lentos.

Performático


Jornada ao Oeste, do cultuado diretor malaio Tsai Ming-Liang, integra a série do diretor intitulada walker (andarilho). Em cena, “um monge (interpretado pelo ator taiwanês Lee Kang-sheng) de roupa vermelha anda lentamente pela cidade, como se estivesse em câmera lenta”. Francesca conta que o monge se coloca em situações performáticas em Marselha (França), cidade cosmopolita, um porto que tem gente de diversas raças, falando línguas diferentes. Não há diálogos, apenas o som ambiente e é até possível contar os planos.

Já Distante, do chinês Zhengfan Yang, e Via Láctea, do húngaro Benedek Fliegauf, têm propostas bem semelhantes, “de um plano apenas, sem cortes, com vários episódios mostrados de ângulos diferenciados. O primeiro é mais irônico, o segundo, mais soturno, com um elemento fantástico”, revela a curadora. No filme chinês, como o próprio título entrega, os personagens vão ficando cada vez mais distantes, até o ponto de o espectador tentar entender o que se passa na cena. “Em Via Láctea, Fliegauf cria uma dramaticidade e a fotografia é mais trabalhada. Cada elemento visual e sonoro é meticulosamente selecionado para criar os diversos ambientes e para emergir o espectador numa experiência sensorial íntima”, conta Francesca. A curadora não entende como as pessoas não se entregam a obras do tipo, “muitas nem sequer experimentam”. Mas quem assiste, se rende e respira devagar.

FLUXUS SLOW CINEMA

Mostra de filmes. Abertura dia 7. Visitação de 8 deste mês a 9 de novembro. Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, Av Afonso Pena, 737, Centro, Praça Sete. De terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h; domingo, das 16h às 21h. Entrada franca.


DISTANTE, DE ZHENGFAN YANG
(Yuan Fang, 2013, China, 88 min)




Filmado em um único plano, tem 13 partes. Em cada uma, um pequeno relato. A proposta é mostrar momentos sutis e cotidianos nos quais as pessoas são, subitamente, confrontadas com a modernidade. Na escuridão, um farol pisca no mar. No ponto de ônibus, a espera. Em um parque, um telefone toca sem parar (desilusão?). Uma menina acha que a piscina é o lugar ideal para seu peixe, enquanto um homem brinca com o cachorro na beira da praia. Se um velho cai, alguém ajuda? O curioso é que tudo é observado a certa distância (que aumenta e aumenta...), não há diálogos e as cenas mesclam drama, realismo e mistério. Em cena, a sociedade contemporânea, a alienação, o abandono e a solidão. O diretor chinês Zhengfan Yang nasceu em 1985 e começou a fazer filmes aos 22 anos, quando se formou em direito. Mudou-se para Hong Kong para um programa de mestrado em produção de cinema e, em 2010, cofundou a produtora Burn The Film Production House. Distante (2013) é sua estreia em longas e teve sua première no Festival de Locarno do ano passado.

JORNADA AO OESTE, DE TSAI MING-LIANG
(Xi You, 2014, França/Taiwan, 56 min)


Enquanto um homem exausto respira agitado à beira-mar, outro, um monge budista trajando vestes vermelhas caminha a um ritmo imperceptível pelas ruas de Marseille, na França. O caminhar lento do monge chama a atenção dos pedestres das ruas movimentadas, e a câmera descobre pequenos e belos fragmentos da influência que esse caminhante tem nos habitantes da cidade, até o momento em que o monge ganha, enfim, um discípulo. O diretor Tsai Ming–Liang nasceu em Kuching, na Malásia, em 1957. Mudou-se para Taiwan aos 20 anos, para estudar cinema e teatro na Chinese Culture University. Começou a carreira como diretor e produtor na TV Taiwanesa e ganhou destaque ao vencer o Leão de Ouro no Mostra de Veneza, em 1994, com o filme Vive l'amour. Em 1997, O Rio ganhou o Urso de Prata do Festival de Berlim. Em 2013, Cães errantes recebeu o Prêmio Especial do Júri na Mostra de Veneza. Por essas e outras, ele é considerado um dos diretores mais importantes em atividade no cinema mundial.

VIA LÁCTEA, DE BENEDEK FLIEGAUF
(Tejút, 2007, Itália/Reino Unido/Israel, 82 min)


Tem 12 cenas em sequência filmadas em lugares diferentes – uma pradaria à noite; à beira de uma estrada; um pátio fechado por edifícios; um banheiro público –, todos locais habitados por seres humanos que agem de forma bizarra. As imagens vão formando uma espécie de pintura viva, mostram as sublimes arquiteturas da natureza e da cidade. Com a música, os sons – respirações, água, motores, cantos de pássaros – e a fotografia, criam uma experiência sensorial que transcende o uso das palavras. Representante da nova geração do cinema húngaro, Benedek Fliegauf nasceu em 1974, em Budapeste. Ele nunca frequentou escolas de cinema, mas foi assistente de direção na TV e trabalhou com direção, roteiro, cenografia e engenharia de som. Via Láctea, terceiro longa do diretor, ganhou em 2007 o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. O quinto (e mais recente) longa de Fliegauf, Apenas o vento (2012), recebeu o Grande Prêmio do Júri, Urso de Prata no Festival de Berlim 2012. O filme marcou também a volta dele à Hungria, já que seu filme anterior, Womb (2010), foi realizado em língua inglesa e foi considerado, pela revista Screen International, “um dos filmes mais espetacularmente belos do ano”.

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