Trinta conta a história do artista que revolucionou o carnaval

Filme tem Matheus Nachtergaele no papel de Joãosinho Trinta

por Mariana Peixoto 04/10/2014 00:13

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Julia Schmidt/Divulgação
(foto: Julia Schmidt/Divulgação)
De um artigo de jornal nasceu o filme Trinta, de Paulo Machline. Corria o ano de 2002 e o diretor descobriu, em texto de Carlos Heitor Cony, a história de Joãosinho Trinta (1933-2011). Ou melhor, a trajetória de João Clemente Jorge Trinta, maranhense de origem humilde, que nunca tinha frequentado a academia, mas falava de Shakespeare, Beethoven e Verdi como ninguém. Que, saído de São Luís, na década de 1950, havia chegado ao Rio para tentar a vida como bailarino clássico, apesar de seu pouco mais de 1,50m de altura. Que passou muitos anos no Theatro Municipal, também como aderecista e cenógrafo. Que desafiou uma comunidade inteira ao assumir o carnaval de uma das mais tradicionais agremiações cariocas, o Salgueiro. Iniciava-se ali, 40 anos atrás, a trajetória do mais importante carnavalesco brasileiro.

 

"A escolha óbvia seria contar a história do carnaval de 1989, dos mendigos (a polêmica e revolucionária Ratos e urubus, larguem a minha fantasia, da Beija-Flor), que é muito interessante e dá um filme. Mas queria contar algo que ninguém conhecesse, quase uma mitologia do super-herói. Todo o mundo conhece o Batman, mas como ele se tornou super-herói?", pergunta Machline. O filme, com tratamento ficcional, chega aos cinemas em 13 de novembro e teve première no próprio Theatro Municipal, durante o Festival do Rio.

 

Matheus Nachtergaele é o personagem-título, em mais uma boa atuação ao lado de elenco homogêneo formado por Paulo Tiefenthaler (o carnavalesco Fernando Pamplona, uma espécie de padrinho criativo de Joãosinho), Paolla Oliveira (Zeni, bailarina do Municipal e mulher de Pamplona), Milhem Cortaz (Tião, personagem ficcional, responsável pelo barracão do Salgueiro e antagonista de Joãosinho), Fabrício Boliveira (Calça Larga, também da comunidade salgueirense), Mariana Nunes (Isabel, a musa do Salgueiro) e Ernani Moraes (Germano, o bicheiro que demitiu Pamplona e contratou Joãosinho). Com forte apelo popular (a reação da plateia na première, dos risos às lágrimas, com aplausos durante a exibição provou isto), o longa de Machline busca apresentar um homem que foi muito visto, mas pouco conhecido. E que encontrou no carnaval o reconhecimento do público que sempre almejou.

 

Quando Machline começou o projeto, em 2003, Joãosinho ainda estava saudável – sofreu acidente vascular cerebral (AVC) em 2004 e 2006, aposentando-se da avenida nesta época. Para reconstruir uma história pouco conhecida, ele fez uma série de entrevistas com o carnavalesco, seus companheiros de carnaval e amigos. Com o material colhido, acabou produzindo um documentário, A raça síntese de Joãosinho Trinta (2009), também lançado numa edição do Festival do Rio. "O filme tem muitas falas que transcrevi das conversas que tive com ele", conta o diretor. Numa delas, Joãosinho, Tião e Calça Larga batem papo numa mesa de bar e o carnavalesco compara um desfile de carnaval a uma ópera. "Aquelas palavras são dele."

 

Por outro lado, Machline permitiu várias adaptações. Tião, que sonha assumir o Salgueiro depois da saída de Pamplona e não se conforma com a entrada de Joãosinho é, segundo o diretor, uma somatória de várias situações. A antológica frase "pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual" foi proferida nos anos 1980, e não nos 1970, como está no filme. A musa salgueirense Isabel é um misto de duas musas reais: Isabel Valença e Piná. E o momento que marca no filme a grande virada do criador – , quando ele, no barracão, cansado de não ser ouvido, profere aos gritos uma série de palavrões (que, dada a ingenuidade do personagem, provocam simpatia do espectador) –, é pura invenção. "Ele realmente tinha uma dificuldade de comunicação. Mas palavrão, quando falava, era ao ouvido", finaliza.

 

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Três perguntas para…

Matheus Nachtergaele

Ator

 

Como você trabalhou para construir um personagem que foi tão público?

Nunca me preocupei em copiar o Joãosinho, fosse na maneira exata de falar ou até fisicamente, pois não o conhecemos na intimidade, não existe muito registro disso. Quando ele dava entrevistas, falava em público, tinha uma persona que falava. Procurei então um estado que fosse como uma fenda, onde as pessoas pudessem projetar sua saudade ou seu desejo de Joãosinho Trinta. Isso significa certa economia e confiar em algumas coisas: uma delas é certa obsessão genial, que pode descambar para ingenuidade ou para a agressividade. São características de artistas com alguma incapacidade de lidar com a vida concreta. E houve um momento que deixei de pensar no Joãosinho e mais no personagem da ficção. Foi libertador.

 

Como foi o único encontro que vocês tiveram?

Depois da exibição d’A raça síntese no Festival do Rio (em outubro de 2009), houve uma recepção para ele na casa de uma das produtoras do filme. Um pouco, me pareceu, para que eu me encontrasse com ele. Ele estava numa cadeira de rodas, com uma enfermeira, e tinha uma traqueostomia, mas o olhar permanecia inquieto. Tinha certo espanto, quase como o de uma criança. Tentei não copiar, mas buscar olhar para o mundo com aquele espanto criativo, de coragem e também de medo.

 

Ainda que o personagem sofra muito preconceito no filme, a homossexualidade dele não vem à tona. O que achou da abordagem?

Me falaram coisas que não sei se são verdade ou mentira. O Joãosinho era homossexual, mas ele nunca assumiu isso publicamente. O filme mostra claramente a rejeição das pessoas ao homossexualismo na época, mas há um momento em que isso não importa mais. No filme, a questão não é importante, a não ser para mostrar o quão sozinho ele ficou. Apesar de estar cheio de gente no barracão da escola, a criação era solitária. As pessoas não entendem trabalho dele, é como se ele falasse para as paredes. Uma solidão bonita.

 

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Na real

Para assistir ao documentário A raça síntese de Joãosinho Trinta (2009), que Paulo Machline produziu enquanto se preparava para a ficção Trinta, basta entrar no site de compartilhamento de vídeo Vimeo (www.vimeo.com) e fazer a busca pelo nome do diretor. O documentário está disponível em HD. Ele é chamado pelo autor de documentário acidental. "Não era para ter existido, pois foi feito apenas para a pesquisa para o filme. Ainda bem que foi feito, pois foi o que o Joãosinho viu", diz Machline.

 

* A repórter viajou a convite da Oi.



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