Leandro Hassum retoma tradição da comédia política no cinema nacional em novo filme

Longa conta a história de um político que, em plena campanha presidencial, é forçado a falar apenas a verdade

por Carolina Braga 24/09/2014 08:40

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
PÁPRICA/DIVULGAÇÃO
"No Brasil, não se pode mais fazer comédia%u201D Leandro Hassum, ator (foto: PÁPRICA/DIVULGAÇÃO)
O negócio é fazer rir. Mas se a graça puder vir com uma pimenta a mais, é bem melhor. É essa a lógica de O candidato honesto. Protagonizado por Leandro Hassum, o filme repete a bem-sucedida parceria do ator com o diretor Roberto Santucci e o roteirista Paulo Cursino. Problema de público eles nunca tiveram. Comédias como Até que a sorte nos separe ou De pernas para o ar alcançaram o topo das bilheterias. Por que não tentar ir um pouco além?


“O novo filme nasceu da ansiedade de procurar fazer algo diferente, mas foi muito difícil. É mais fácil falar de sexo do que de política”, diz o roteirista Paulo Cursino. Não é de hoje que o vespeiro do poder oferece matéria-prima de sobra para o humor. Vide Odorico Paraguaçu e seus desmandos em O bem amado. Porém, no mundo politicamente correto, esse tipo de crítica sumiu da TV e do cinema, migrando para a internet. O candidato honesto é uma tentativa – bastante soft, mas muito válida – de recuperar isso. A estreia está marcada para 2 de outubro.


Leandro Hassum faz o papel de João Ernesto, o corrupto candidato à Presidência da República que, em pleno segundo turno, tem de lidar com a mandinga da avó: dali em diante, só pode falar a verdade. Sem as mentiras, a vida dele se torna um caos. Não consegue mais segurar a língua dentro de casa, em programas de televisão ou na CPI para apurar denúncias do mensalinho, no qual está envolvido até o pescoço.


“Para fazer humor, a gente tem de bater em quem está em evidência, mas isso esbarra no partidarismo, o que poderia ser um problema”, admite Roberto Santucci. A saída foi abordar temas relacionados à história recente da política brasileira, mas sem dar nome aos bois. “Política é uma opinião muito pessoal. Não queremos soar partidários. Fazemos comédia: é para rir e, logicamente, se a gente acender a luz, aumentar um volume ali, puxar a cor mais de um lado, melhor”, diz Hassum.
Além de recuperar uma das tradições da comédia brasileira, O candidato honesto joga luz sobre o quanto vivemos sob a ditadura do politicamente correto. “Hoje em dia, não se pode mais fazer comédia com nada. Se faz uma piada com os gaúchos, vem a comunidade gaúcha e fala que está humilhada. O mesmo ocorre com os portugueses, os homossexuais. Então, todo mundo começa a travar, a ficar com medo”, comenta Hassum. O piadista nato, fã de um improviso, reconhece: muitas cenas foram cortadas para evitar problemas.


“Perdemos a nossa capacidade de rir da política, o Brasil perdeu um pouco do senso de humor e de crítica”, concorda Paulo Cursino, lembrando que Casseta e Planeta foi o último representante desse tipo de humor na TV aberta. Nas décadas de 1970 e 1980, mesmo sob a ditadura, Chico Anysio e Jô Soares mandaram muito bem em Chico City e Viva o gordo.

Internet Frequentemente tachada como terra de ninguém, a internet virou terreno fértil para esse tipo de crítica. Canais como Porta dos Fundos e Parafernalha cativaram um público específico – e crescente. “Ali, pode falar o que quiser, usar palavrões, fazer piada com minorias. Nos últimos 10 anos, o cinema veio a reboque do politicamente correto. Atores, autores e diretores oriundos da TV não fazem comédia política porque simplesmente não estão pensando nisso”, observa o roteirista Paulo Cursino.


Para Leandro Hassum, tudo tem o seu espaço. O humor de que ele gosta traz uma dose de crítica, mas é mais universal, para a família. “É diversão, acima de tudo. Deve haver todos os tipos de humor: o do Rafinha Bastos, o do Porta dos Fundos, que faz coisas com religião que dou cambalhota de tanto rir. Não é para mim, mas eles sabem fazer”, comenta.

 

Apoio mineiro
A produtora mineira Camisa Listrada, agora com filial carioca, aliou-se ao projeto de Roberto Santucci, Paulo Cursino e Leandro Hassum. “A gente teve uma empatia grande. Foi uma oportunidade para a Camisa entrar em projetos com mais relevância para o mercado. O filme O menino no espelho foi uma aposta no segmento infantojuvenil. Agora, demos um grande passo”, afirma André Carreira, sócio da produtora. O candidato honesto teve orçamento de R$ 6 milhões. 

 

Veja na internet


» O BEM AMADO
A novela de Dias Gomes foi ao ar em 1973. Até hoje, é um dos melhores exemplos da combinação eficaz de comédia e política. Corrupto incurável, Odorico Paraguaçu (Gracindo) fazia poucas e boas como o prefeito de Sucupira. Em 2010, a história foi adaptada para o cinema com direção de José Wilker e Marco Nanini no papel principal.

» CHICO CITY
Exibido de 1973 a 1980. Com Chico Anysio. Valfrido Canavieira era um prefeito populista e corrupto. Em torno dele, circulavam Setembrino, vulgo Esquerdinha, repórter do jornal da cidade de Canavieira. Na rádio, fazia sucesso o locutor Roberval Taylor. Nos comícios, apresentava-se o grupo Baiano e os Novos Caetanos (sátira a Caetano Veloso e aos Novos Baianos).

» VIVA O GORDO
O humorístico de Jô Soares foi ao ar de 1981 a 1987. Em esquetes, o comediante encarnava diversos personagens: Sebá, o último exilado, doido para voltar para o Brasil; Zé, operário que ouvia atentamente as notícias e ficava perplexo com os rumos da política e da economia; e Capitão Gay.

 

Veja a entrevista exclusiva com Hassum, o diretor Roberto Santucci e o roteirista Paulo Cursino:

 

 

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE CINEMA