'Hoje eu quero voltar sozinho' será o representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar

Filme é o melhor candidato do cinema nacional dos últimos tempos

por Carolina Braga 19/09/2014 11:08

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Vitrine Filmes/Divulgação
Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, trata da homossexualidade com rara delicadeza (foto: Vitrine Filmes/Divulgação)
"É uma obra de alta sensibilidade, de linguagem universal. Pode fazer história para nós", resumiu a ministra da Cultura, Marta Suplicy, ao anunciar Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, para representar o Brasil na corrida por uma indicação ao Oscar na categoria de melhor filme em língua estrangeira. Ela tem razão. Desde Central do Brasil (1999), essa talvez seja a história com o diálogo mais aberto com o mundo.


O Brasil nunca deixou de enviar seus representantes, mas, nos últimos anos, as apostas feitas pela comissão de seleção do Ministério da Cultura fracassaram. Como eram quase sempre filmes independentes, comparados aos concorrentes internacionais não tiveram força suficiente para enfrentar o poderoso esquema de Hollywood. Resultado: tem tempo demais que nem chegamos a morrer na praia, ainda que curiosamente fossem longas que deram o que falar por aqui.

Tropa de elite 2 (2012), de José Padilha, O palhaço (2013), de Selton Mello, e O som ao redor, de Kléber Mendonça Filho (2014), por exemplo, chegaram perto, mas convenhamos: são tramas que carregam um olhar sobre o país. Interessam mais aos brasileiros do que ao mundo. Por mais que a produção nacional demonstre notório salto qualitativo, faltava um representante que aliasse popularidade e uma repercussão internacional que fosse além do circuito de festivais. A equação comercial de um candidato ao Oscar é complexa demais para acharmos que a empatia causada em sua terra natal seja suficiente para garantir qualquer coisa.

A história de Hoje eu quero voltar sozinho já começou diferente. O longa não só estreou no Festival de Berlim como saiu de lá com dois prêmios a tiracolo: o concedido pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) e também o Teddy, entregue ao melhor longa com temática LGBT. Depois disso, a reputação no exterior foi crescente. Hoje eu quero... saiu de Berlim com garantia de distribuição em pelo menos 17 países. Lista que só aumentou. Ou seja, conseguiu “falar” todas as línguas características que longas como Tatuagem, de Hilton Lacerda; Praia do Futuro, de Karin Aïnouz; O lobo atrás da porta, de Fernando Coimbra; e muito menos Getúlio, de João Jardim, não alcançam.

Simples assim "É um filme extremamente positivo. Trata do tema da homossexualidade com rara delicadeza", elogiou Marta Suplicy. Entre os tantos méritos do longa dirigido por Daniel Ribeiro, um deles é a simplicidade. Ao narrar o primeiro amor de dois colegas de escola, Hoje eu quero voltar sozinho é livre de preconceitos, é bem-humorado e romântico, sem deixar de ser crítico em relação ao tempo em que vivemos.

Nas últimas edições do Oscar, os vencedores também foram filmes que, por mais que tivessem particularidades regionais, abordavam temas universais. O italiano A grande beleza (campeão deste ano) trata com ironia mordaz a decadência da sociedade. Já Michael Hanecke, em Amor (2013), foi outro que explorou situação inevitável a qualquer pessoa: a morte. Esse também foi o ponto forte na trama sobre o fim de um relacionamento do iraniano A separação, campeão em 2011.

Concorrentes Pouco a pouco, os países vão apresentando seus candidatos. Cerca de 20 já informaram os concorrentes. Da América Latina, México, Venezuela e Chile anunciaram seus longas. São, respectivamente, Cantinflas, cinebiografia do humorista dirigida por Sebastian del Amo; Libertador, de Alberto Arvelo, sobre Simon Bolívar; Matar a un hombre, o terceiro longa do diretor Alejandro Fernández Almendras sobre um homem de classe média que observa a invasão da violência em seu bairro.

Da Europa, a Turquia inscreveu Winter sleep, de Nuri Bilge Ceylan, sobre um casal num hotel isolado, e a Espanha informará sua escolha no dia 25. Os pré-selecionados são 10.000 Km; El Niño e Vivir es fácil con los ojos cerrados. A 87ª edição do Oscar está marcada para 22 de fevereiro e os indicados serão conhecidos em janeiro de 2015.

ÚLTIMOS VENCEDORES

2014 – A grande beleza (Itália)
2013 – Amor (França)
2012 – A separação (Irã)
2011 – Em um mundo melhor (Dinamarca)
2010 – O segredo dos seus olhos (Argentina)

ÚLTIMOS INDICADOS DO BRASIL

O som ao redor (2014)
O palhaço (2013)
Tropa de elite 2 (2012)
Lula, o filho do Brasil (2011)
Salve geral (2010)

Três perguntas para: Aniel Ribeiro, diretor  

A escolha de Hoje eu quero voltar sozinho para representar o Brasil muda alguma coisa na estratégia de lançamento do longa nos EUA?

Ainda não sabemos o que pode mudar. O plano era estrear em 7 de novembro, no período em que os integrantes da Academia de Hollywood podem votar no filme, e isso já cria uma possibilidade extra de eles assistirem ao filme, já que estará em cartaz. Agora, vamos falar com a distribuidora e ver se eles acham que podemos fazer algo diferente.

Qual característica do filme você aposta como o diferencial para o exterior?

Acho que o filme trata da homossexualidade, que é uma questão que enfrenta muitos problemas hoje em dia, de forma leve. Pela reação que tivemos dos espectadores até hoje, fica claro que, mesmo com um personagem gay e cego, o filme consegue dialogar com um público muito diverso e de culturas e países diferentes.

O longa tem tido campanha surpreendente dentro e fora do Brasil. O que uma indicação ao Oscar poderia agregar ainda mais ao projeto?

Por melhor que tenha sido a carreira, ainda se trata de um filme pequeno, com alcance limitado. Acho que essa indicação pode ampliar um pouco o interesse de novos públicos.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE CINEMA