Luiz Carlos Lacerda filma em MG roteiro que recebeu de Lúcio Cardoso há 50 anos

Profissionais formados em Cataguases o ajudam na empreitada

por Carolina Braga 14/09/2014 00:13

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Fotos: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, adorou as casas do interior que servem de cenário para o seu novo filme (foto: Fotos: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press )
“Ele me entregou um papel, mas não entendi nada do que falou”, relembra Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, enquanto passeia pela plataforma da antiga estação de trem de Abaíba, lugarejo entre Cataguases e Leopoldina, na Zona da Mata, a 340 quilômetros de BH. O cineasta descreve a cena de 50 anos atrás, quando o escritor mineiro Lúcio Cardoso lhe deu o argumento de Introdução à música do sangue.

Foi Lelena Cardoso, a irmã de Lúcio, quem ajudou o jovem aspirante a diretor a entender o recado, pois a fala do escritor ficara comprometida depois de ele sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). “Isto aqui é para você filmar um dia”, traduziu ela.

Bigode passeia pelas memórias enquanto passa orientações para a equipe de filmagem, em ação do outro lado da linha do trem. Desde as 7h, um grupo de jovens entusiastas do cinema autoral muda a rotina de Abaíba. A movimentação chama a atenção das crianças durante o recreio. Até as costureiras fazem uma pausa para o café, curiosas com aquela tralha – afinal, câmeras, spots e microfones são novidades por ali. Até dia 30, Bigode estará rodando em Abaíba o longa-metragem desenvolvido a partir do rascunho deixado pelo autor de Crônica da casa assassinada.

Luz

O elenco de Introdução à música do sangue – Ney Latorraca, Bete Mendes, Armando Babaioff e Greta Antoine – tornou-se atração à parte no pequeno lugarejo. A trama do filme é focada nas aflições de uma família da zona rural que resiste à chegada da luz elétrica. Por trás disso, bem ao estilo “cardosiano”, está a moral mineira, a introspecção e mistérios envolvendo os desejos da carne. Apaixonado pelo Rio de Janeiro, o carioca Bigode está convicto: não há como contar essa história a não ser em Minas Gerais.

“Devo esse filme a Minas”, resume ele, que se dedica ao projeto há dois anos. A primeira cruzada foi recuperar o papel entregue por Lúcio Cardoso. “Nos anos 1970, Londres, Arembepe, Katmandu, Ipanema e o vendaval do desbunde levaram o argumento junto com meus livros e discos. Perdi tudo”, revela Bigode. Só às vésperas do centenário de nascimento de Lúcio Cardoso, em 2013, Introdução à música do sangue voltou para as mãos do cineasta. “Ao procurar o roteiro de A mulher de longe, achei os originais. Peguei o material e faltavam coisas no meio”, conta. O próprio Bigode completou a história, criando tramas paralelas.

Quando o roteiro ficou pronto, novo desafio: achar um lugar com o clima pedido pela trama. Bigode aceitou a sugestão da produtora e empresária Mônica Botelho para visitar sua fazenda, em Leopoldina. A empolgação com que o carioca exibe cada canto do casebre-locação comprova o acerto da escolha. Coube ao diretor de arte Oswaldo Eduardo Lioi e a sua equipe “envelhecer” elementos do filme, mas sem deixar de lado detalhes da vida contemporânea, pois a ideia é mostrar uma família presa ao passado.



Sol


Outra aposta de risco de Introdução à música do sangue está na fotografia. Alisson Prodlik topou usar apenas luz natural – seja ela solar, de lampiões ou de velas. “Conversei com outros fotógrafos antes de me decidir por ele. Quando fazia a proposta conceitual, os caras desistiam. Queriam saber qual era o tamanho do caminhão de luz à disposição”, conta o diretor.

Mineiro de Itapecerica e ex-aluno do Bigode em uma de suas famosas oficinas da Mostra de Cinema de Tiradentes, Alisson topou o desafio. “Foi muito corajoso, porque é o primeiro longa da carreira dele”, diz o professor. Para ele, vários elementos vão fazer a diferença: o cuidado na escolha das locações, os detalhes da direção de arte, o respeito pela luz natural e a força do elenco. É um caminho coerente com a artesania que caracteriza a produção brasileira.

Orçado em R$ 1,4 milhão, o filme vem sendo rodado, por enquanto, com R$ 800 mil.

Feito em casa

Pelo menos 60% da equipe de filmagem é formada por mão de obra vinda de Cataguases e região. Produtores, continuístas, figurinistas e assistentes de direção de arte, a partir de oficinas oferecidas pela Fábrica do Futuro, encaram a experiência de se profissionalizar no set. Pouco a pouco, a cidade mineira tem se tornado um polo de produção cinematográfica.

Desde 2012, foram rodados em Cataguases os longas O menino no espelho, de Guilherme Fiuza Zenha, e Estive em Lisboa e lembrei de você, de José Luís Bahaona. Introdução à música do sangue é o segundo projeto deste ano. Nos próximos dias, a equipe de Redemoinho começa a trabalhar. É o primeiro longa do mineiro José Luis Villamarim, responsável por sucessos da TV Globo como Avenida Brasil, Amores roubados e O rebu. O elenco terá Selton Mello, Irandhir Santos e Dira Paes.

“Esse pessoal de Cataguases traz renovação para a gente. Aprendemos mais com eles, porque não têm vícios, muletas. Já chegam com sangue novo e vontade de fazer. Isso é muito saudável”, elogia o ator Ney Latorraca.

Carlos Tavares, o Maraca, já está no sexto filme. O taxista de Cataguases se tornou um dos atores mais requisitados pelas produções forasteiras. “A cidade fica em polvorosa por causa do metiê que isso tudo causa. É muito bom”, diz ele. Assim como em O menino no espelho, no longa de Bigode ele vai interpretar o dono do armazém frequentado pelo protagonista Uriel. “Isso aqui é um hobby. Faço porque gosto”, conclui.

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Lúcio Cardoso



Nascido em Curvelo e filho de tradicional família mineira, Lúcio Cardoso (1913-1968) foi escritor, jornalista, dramaturgo e poeta. Radicado no Rio de Janeiro, escreveu 15 livros e se dedicou à pintura e ao desenho. Em 1962, sofreu um derrame, que limitou suas atividades criativas. Morreu seis anos depois, em decorrência de um segundo acidente vascular cerebral. Crônica da casa assassinada é sua obra-prima, publicada em francês, inglês e italiano.

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