Mudança do sistema analógico para o digital levanta dúvidas sobre qualidade de exibição dos filmes

Falta de fiscalização pode prejudicar público e comprometer resultado de som e imagem

por 23/08/2014 00:13

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Gracie Santos

Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
(foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
O cineasta Jim Jarmusch é conhecido por ser exigente demais. Não permite, por exemplo, que seus filmes sejam dublados, para não “alterar o produto”. Certamente, não gostaria de ver seu novo longa, Amantes eternos, exibido com o som abaixo do volume ideal para apreciação da (incrível) trilha sonora e a imagem mais escura que a do “original”. Em cartaz apenas no Belas 1 desde o dia 14, o filme teve sessão para a imprensa no dia 12, na sala 2 do Pátio Savassi (a mais bem equipada do shopping, com tela e lâmpada novas e projetor com definição 4k), em exibição que permitiu perceber claramente a qualidade da obra. A música intensa invadiu a sala e a fotografia bem cuidada criou clima perfeito para o casal de vampiros refletir sobre a vida e a contemporaneidade. Já na sessão aberta ao público, na noite do sábado (16), no Belas 1, foi diferente: a música se perdeu em volume baixo e a tela parecia mais escura. Detalhes obviamente só percebidos por quem teve a sorte de assistir ao “outro” filme no Pátio.

O ocorrido levanta questões importantes em momento de transição do analógico para o digital, em que as salas estão passando por transformações e se adaptando às mudanças. E deixa suspeitas de que as normas do Digital Cinema Initiative (CDI) – veja abaixo –, comitê criado por sete grandes estúdios de Hollywood para garantir exibição de qualidade, são insuficientes. No caso de Amantes eternos, em particular, o escritório da distribuidora Paris Filmes em São Paulo informa que “as cópias em DCP (Digital Cinema Package) foram distribuídas em 2k (resolução que é exigência mínima para a CDI) para todas as salas, e a cópia exibida na sessão de imprensa do Pátio é a mesma que está no Belas. Portanto, as possíveis diferenças são uma questão a ser vista com o exibidor, já que pode haver diferenças nas telas ou lâmpada – novas e velhas. E, como não há lei, apenas regras, não existe fiscalização”.

“A impressão que tenho é de que metade dos meus cabelos brancos nasceram das projeções dos filmes que fotografei, produzi ou dirigi”, declara o cineasta Walter Carvalho. Conhecedor da maioria dos cinemas das capitais do Brasil, ele afirma que a questão “é caso de polícia, graças ao descaso, à falta de normas nas construções das cabines e à falha na manutenção”. Walter Carvalho acredita que o momento de transição do analógico para o digital esteja contribuindo também para o sucateamento de equipamentos, coisas que, com a falta de fiscalização, “ficam ao deus-dará. Cada um faz à sua maneira”. Problemas que se agravam, na opinião do cineasta, em um país em que um produtor ou diretor põe um pouco de sua vida para fazer um longa e tem que brigar no mercado em disputa desleal com blockbusters. “São pessoas visionárias, que acreditam na arte, querem levar o melhor para o público e, muitas vezes, morrem na praia”, lamenta.

Círculo vicioso Recentemente, com a exibição de seu documentário Raul, o início, o fim e o meio, Walter Carvalho teve problemas em um shopping em Salvador. “Ninguém ouvia nada”, conta, explicando que se não está nada regulamentado, consequentemente, não há fiscalização. “O que cria círculo vicioso. Às vezes, não há imagem e tem som, noutras é o contrário”, denuncia. Se não há como opinar sobre o caso de Amantes eternos, Walter Carvalho destaca apenas que há exceções no mercado, e uma delas, por exemplo, é Adhemar Oliveira (“pessoa cuidadosa, que tenta manter suas salas da melhor forma possível”), da empresa exibidora Espaço de Cinema, exatamente o responsável pelas salas do Belas Artes em Belo Horizonte.

Padrão modificado

O cineasta Helvécio Ratton, diretor artístico do Belas Artes, explica que a cópia em DCP vem da distribuidora e o cinema não “é responsável pela qualidade desse produto, que pode ter cópias diferentes”. Ele também acredita que o momento de transição do analógico para o digital esteja trazendo problemas, “já que o padrão de exibição foi totalmente modificado”. O cineasta, que ainda não viu Amantes eternos, conta que assistiu recentemente à exibição de Praia do Futuro, de Karim Ainöuz, no Belas, sem qualquer problema, com som e imagens perfeitos, destacando o fato de o filme ser falado em português.

Sem falhas Gerente geral da cadeia de exibição Cineart (MG) e diretor do Sindicato das Empresas Exibidoras de Belo Horizonte, Betim e Contagem, Lúcio Otoni afirma que a reclamação de Walter Carvalho sobre a falta de fiscalização quando se trata de exibição “é apenas meia verdade”. Lembra que os filmes distribuídos pelas grandes majors têm garantia do padrão mínimo da DCI. “Já para o caso de filmes independentes, pode haver, às vezes, exibição em projetores sem a mínima qualidade.” No caso da Cienart, por exemplo, Lúcio explica que ‘‘eles trabalham com projetores de última geração e pelo menos 98% dos filmes mostrados são de grandes estúdios”. Como diretor do sindicato, Lúcio Otoni afirma que a maior parte dos cinemas convergem para o mesmo modelo de exibição e que a tendência será, com as novidades tecnológicas, reduzir ou eliminar as falhas técnicas.

Três perguntas para...
Adhemar Oliveira
da Espaço de Cinema

Apesar das reformas, muitas pessoas ainda reclamam e é comum ouvir: “O som estava ruim ou a imagem não estava boa no Belas”...
Estamos trabalhando desde maio com três projetores novos da NEC, com resolução 2K, equipamentos que atendem às exigências do mercado, com som Dolby digital...

E o que pode ter ocorrido no caso de Amantes eternos, exibido com som baixo e imagem que parecia mais escura?

Vou enviar um técnico (de São Paulo) para que ele possa exibir o filme em outra sala e checar o que houve. Nossos projetores ainda estão em garantia... Há várias hipóteses. Cada cinema recebe uma copia (DCP). Houve um caso em Porto Alegre, por exemplo, em que recebemos a cópia com a parte seis em branco, deu um trabalho danado. O digital pode ter problemas de copiagem. A probalidade é menor, mas pode existir. Já tive casos em que fui obrigado a rejeitar o DCP. Se o filme está no padrão DCI (e é este o caso de Amantes eternos), ele tem uma espécie de chave de segurança, se o projetor não for 2K, por exemplo, não passa, trava.

Com tudo automatizado, quem garante a qualidade da exibição?
Ainda não estamos familiarizados com todas as mudanças, não confio apenas na tecnologia, peço ao gerente para conferir. A questão do som pode variar. Normalmente trabalhamos no 6 ou 7, se colocamos muito alto vem gente e reclama. Cabe, então, ao operador abaixar ou aumentar o volume. No caso do projetor novo, ele sinaliza, por exemplo, quando a lâmpada tem que ser trocada (lâmpadas velhas podem escurecer a imagem). O Belas está totalmente digitalizado desde maio. Diferentemente de quando trabalhávamos com o 35mm, não dá para abrir a máquina, mandar tornear peças. Estamos num período de adaptação, eu diria que, agora, é o 3D que está mais tarimbado.

Saiba mais

O QUE É DCI?

DCI é a sigla para Digital Cinema Initiative, comitê criado pelos sete grandes estúdios de Hollywood (Warner, Fox, Universal, Paramount, Disney, DreamWorks e Sony) para estudar padrões digitais que seriam adotados para a projeção de seus filmes. O DCI foi formado sem prazos estabelecidos, para escapar da pressão de fornecedores. Com a divulgação das normas, em julho de 2006, verificou-se que a digitalização das salas nesses padrões não seria tão simples, pois os equipamentos envolvidos não são de linha industrial. Os principais requisitos são a compressão de imagem em jpeg 2000 e a resolução de 2K ou 4K. Um dos objetivos da DCI foi a criação de um estudo único dos estúdios, para diminuir ao máximo concorrências internas que terminassem por polarizar a indústria, como ocorreu, por exemplo, na guerra entre o Blu-ray e o HD-DVD, na substituição do DVD. (Fonte: Filme B)

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