Mussum morreu há 20 anos, mas personagem está mais vivo do que nunca

Comediante foi redescoberto pelas novas geração, via internet, e continua a ser um dos humoristas mais cultuados do país

por Gabriel de Sá 07/07/2014 09:03

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Rede Globo/ Divulgação
(foto: Rede Globo/ Divulgação)
Mussum entra no boteco e, incomodado com o samba mal tocado que os bebuns fazem no local, quebra as cadeiras e manda todo mundo parar de cantar. “Isso aqui tá virando bagunça”, brada. Livre do barulho infernal, vai ao balcão e pede ao dono bar: “Bota um metro de cachácis aí”. Uma esquete do humorístico 'Os trapalhões', apenas, é suficiente para trazer à tona as características essenciais de seu personagem mais carismático: Mussum, vivido pelo ator e músico carioca Antônio Carlos Bernardes Gomes.

Apreciador contumaz da branquinha, a qual chamava carinhosamente de “mé”, o flamenguista frequentador do Morro da Mangueira, tinha a mania de acrescentar um “is” ao fim de cada palavra. E, como comprova a cena descrita no parágrafo anterior, sabia que música era coisa séria — ele foi integrante da formação inicial dos Originais do Samba. Tornou-se impossível dissociar o intérprete do personagem, e foi assim, mais Mussum que Antônio Carlos, que ele partiu, há 20 anos, em 29 de julho de 1994. “Quero morrer prêtis se eu estiver mentindo”, diria o malandro.

Acontece que Mussum foi redescoberto pelas novas geração, via internet, e continua a ser um dos humoristas mais cultuados do país. “O programa 'Os trapalhões' terminou em 1994, após 20 anos de sucesso. A TV Globo, então, passou a colocar no ar as reprises do melhor produzido naquelas décadas. Os fãs começaram a gravar em VHS. Quando apareceu o YouTube, em 2005, as pessoas tiraram os vídeos da gaveta e começaram a postar”, conta o jornalista Juliano Barreto, autor da biografia 'Mussum forévis — Samba, mé e Trapalhões' (Editora Leya), que será lançada nos próximos dias.

As esquetes de Mussum agradaram mais que as dos colegas (Didi, Dedé e Zacarias), segundo Barreto, porque são mais curtas, de cerca de 3 minutos, o que funciona muito bem dentro da linguagem virtual. Logo, o humor politicamente incorreto do personagem, repleto de bordões e tiradas sagazes, tomou a rede e depois as ruas. “É difícil passar um dia em que não se perceba a influência dele em algum lugar, mesmo que em uma piadinha postada nas redes sociais. Mussum é muito lembrado, mas o Antônio Carlos é pouco conhecido”, acredita o biógrafo, que pretende apresentar outras nuances do artista no livro.

“Fico emocionado ao ver como as pessoas se lembram dele até hoje”, diz ao Correio o ator Antônio Carlos, de 21 anos, filho caçula do humorista. Mussum teve cinco filhos de relacionamentos diferentes. “O humor dele era de alta qualidade, tanto que ainda está no coração do público”, conta Antônio Carlos, que até pouco tempo era conhecido pelo diminutivo do apelido do pai ilustre. “Mas não dava mais para um negão desse tamanho ser chamado de Mussunzinho”, diverte-se o ator.

Cacildis!
Os trejeitos e clichês que Mussum carrega consigo, contudo, não são unanimidade. Integrantes do movimento negro acreditam que alguns dos estereótipos associados ao personagem não são nada engraçados, e na verdade prestam um desserviço a uma luta histórica contra o preconceito racial. No caso do trapalhão, dois aspectos chamam a atenção do professor do Instituto de Artes da UnB Nelson Inocêncio, membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN): o português malfalado, que demonstra pouco ou nenhum letramento, e o alcoolismo. “A bebida, sobretudo a cachaça, ou ‘mé’, tem muito a ver com a desestruturação da família negra no Brasil”, avalia o estudioso.

“Não culpo os artistas negros por determinadas representações, a escolha é dos diretores e do donos das empresas de comunicação. Mas essas caricaturas são reproduzidas no imaginário social há muito tempo, e, com o passar dos anos, o que existe são remodelações de algo que é muito antigo. O problema não está nos indivíduos, como Grande Otelo e Tião Macalé, que protagonizavam as cenas, mas no conjunto de ideias que faz com que os diretores insistam reiteradamente na manutenção dos estereótipos”, opina Inocêncio. “Os negros serão um eterno clichê na cultura brasileira?”, provoca.

Juliano Barreto lembra que, apesar de o papel do “malandro” ser mais associado a Mussum, ele apareceu encarnando outros personagens nas esquetes dos Trapalhões, de presidente da República a policial. “Quando perguntavam ao Antônio Carlos sobre a questão racial, ele dizia que o assunto não o interessava e que qualquer um que se esforçasse poderia prosperar. Contudo, nos bastidores, ele lutava muito pela valorização da cultura negra, vide as canções dos Originais do Samba, repletas de referências às religiões afro-brasileiras”, contextualiza o biógrafo.

Mussum é pop
O sambista das tiradas engraçadas, caretas marcantes e frases nonsense ganhou maior projeção diante das novas gerações à medida que o mundo virtual foi se consolidando. Nas redes sociais, os memes de Mussum vão desde bandas com nomes alterados (de Nirvanis a Tonico & Tinoquis) a frases de efeito soltadas por ele ao longo da carreira. Camisas com a imagem do humorista também são recorrentes (ou seria “recorrentis”?). Ano passado, um dos cinco filhos do humorista lançou a cerveja artesanal Biritis. “Suco de cevadis é leite divinis”, disse o humorista certa vez.

Reprodução / Instagram
(foto: Reprodução / Instagram)


Na camiseta
A febre das camisetas com o rosto e algum bordão de Mussum chegou em 2006, quando o serigrafista Natinho, fundador das lojas Kingdom Comics e Negro Blue, criou as estampas com as frases “I love mé”, “Mussum forévis” e “Godfathis” — este último baseado no filme 'O poderoso chefão'. “A partir de 2007, vendemos muito. Ele já era cult nessa época e tornou-se um viral”, lembra Natinho. Agora, o artista gráfico vai lançar a camiseta “I love Feira dos Importadis”, que promete ser um dos carros chefes da nova loja dele, a Kingdom Black.

Quarteto fantástico
Formado em 1966, o grupo Os Trapalhões teve outros nomes e diversos integrantes, mas a formação mais conhecida, implementada de meados dos anos 1970 em diante, trazia Renato Aragão, o Didi; Dedé Santana, Mussum e Zacarias. Em 1977, após passar por Excelsior, Record e Tupi, os humoristas são contratados pela TV Globo. O programa começa a ir ao ar aos domingos, antes do Fantástico, e torna-se enorme sucesso. Zacarias morreu em 1991, mas a atração seguiu até 1994, quando Mussum partiu.



Maracanã
Mussum jogava apenas “direitinho” na posição de lateral direito, segundo o biógrafo Juliano Barreto. Aos fins de semana, ele ia ao Maracanã para ver seu Mengo e os outros times cariocas. Foi na geral do estádio que ocorreu encontros com sambistas de outros morros, um dos primeiros passos para a carreira de músico. “Entre 1967 e 1976, Mussum morou em São Paulo. Como era difícil assistir aos jogos do Flamengo, começou a adotar o Corinthians como segundo time”, conta Juliano. O humorista viveu a fase áurea do time carioca, os anos 1980, e tirava onda com o vascaíno Renato Aragão e o tricolor Tião Macalé. “Quando estava internado, recuperando-se de um transplante de coração, em 1994, um dos primeiros pedidos do Mussum após sair da cirurgia foi ter uma televisão no quarto, para assistir aos jogos da Copa. Os médicos, porém, não permitiram”, lembra o biógrafo.

 

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