Ilustrador brasileiro vence duas principais categorias do Festival Annecy

O longa-metragem 'O menino e o mundo' deixou o diretor Alê Abreu orgulhoso e imerso em sentimentos de leveza e de dever cumprido

por Lucas Lavoyer 03/07/2014 09:50

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Filme de Papel/Divulgação
Cenas do longa-metragem 'O menino e o mundo', que faturou o 38º Festival de Cinema de Animação de Annecy (foto: Filme de Papel/Divulgação)
Sob a luz de importantes holofotes, um brasileirinho há pouco conquistou o mundo. O episódio vitorioso ocorreu sobre o palco de um anfiteatro improvisado numa vasta área do município francês de Annecy, longe dos gramados tropicais e do tema futebol. A criança construída por Alê Abreu sobre traços simples, com giz de cera, lápis de cor, caneta bic e outras técnicas, protagonista do longa-metragem 'O menino e o mundo', faturou duas das principais categorias do 38º Festival de Cinema de Animação de Annecy — troféus do júri e do público.

Alê Abreu surpreendeu-se ao notar que se tornou, ao menos por alguns dias, uma sensação nas ruas francesas. Ao desembarcar e transitar pelo município que dá nome à principal premiação do gênero, passou a ser reconhecido por pessoas de várias partes do mundo, que, de vez em quando, até pediam autógrafos e fotografias. O ilustrador atingiu um estranho status de ídolo e adorou o carinho recebido. Em entrevista exclusiva, revelou os bastidores de 'O menino e o mundo', obra que o deixou orgulhoso e imerso em sentimentos de leveza e de dever cumprido.

O filme demorou três anos e meio para ser concluído e os primeiros esboços surgiram de ideias e anotações aleatórias, vindas de uma caos natural que faz parte do processo de produção do autor. “No meu ateliê, estou no centro de uma roda onde há pinturas, lápis de cor, tinta de parede, rabiscos, anotações, trechos de storyboard que até então não eram nada. É desse caos que junto pequenas peças, como num quebra-cabeça. Sei que minha história vai terminar um dia e vou ficar com peças soltas por aí, isso é minha maior angústia”, revelou.

A trama insere o personagem central, residente de uma aldeia rústica, numa aventura apoteótica em busca do pai. O boneco simples, ilustrado com traços infantis, viaja por cenários fantásticos, coloridos com requintes exemplificados em obras de arte. “Não desenhei como uma criança porque não sou uma criança. Simplesmente exerci a liberdade que uma criança tem ao desenhar, essa foi a chave. Eu me deixei livre para fazer o filme do jeito que queria, com as técnicas que queria. Misturei tudo, dispus de tempo e materiais para usar da maneira que queria”, pontuou Abreu.

Durante a jornada de autoconhecimento, o menino convive com extremos. Enquanto se encanta com seres surreais e denominadas máquinas-bichos, descobre um mundo composto de problemas político-sociais, embasados, principalmente, pela desigualdade. Este cenário, idealizado por Abreu, surgiu de várias viagens a países latino-americanos, que o ajudaram tanto na construção do roteiro quanto na coloração e no uso das demais técnicas. As vivências do autor formam o principal ingrediente de suas obras.

Música


A trilha sonora de 'O menino e o mundo' rege toda a trama, é parte imprescindível. Até hoje, Alê Abreu ainda não sabe explicar o motivo de ter optado pela carreira que o consagrou com um prêmio Annecy. “Fico feliz quando me dizem que tenho alma de instrumentista. No filme, cantarolei algumas coisas que usamos. Acho que, no fundo, queria ser músico, mas nunca estudei. Para mim, a música é algo tão abstrato quanto pintura”, revelou.

A música tornou-se uma das principais inspirações que ajudaram Abreu. A voz de Milton Nascimento em 'Canto latino' pode ser considerada o pontapé de partida do longa. “Eu me encantei com o trabalho de Milton. Sempre senti que ele me dizia coisas sobre um país que não se colocavam em palavras. Era de uma energia, de uma alma… Isso me deixava absolutamente instigado, e tenso, de não entender por que não conseguia colocar em palavras o que sentia ouvindo aqueles discos”, avaliou.

Três perguntas / Alê Abreu

Qual é o seu envolvimento com o universo das animações? Como faz para estudá-las?
Na verdade, não acompanho animações. Sou pouco animaníaco. Quase não vejo filmes de animação, a não ser quando sai algo da Ghibli (estúdio japonês fundado por Hayao Miyazaki, autor de obras como 'A viagem de Chiiro'), ou algo japonês. Meu interesse especial é por pintura, artes plásticas e música. Já me encantei pela animação, mas há muito tempo. Comecei a animar com 12 anos, hoje tenho 43. São 30 anos sem nunca parar de fazer animação, hoje animo de olhos fechados. É muito natural para mim e, quando penso em fazer um filme, não penso em 'Shrek' ou 'Toy Stor'y, penso em música e artes plásticas.

Quando estava construíndo 'O menino e o mundo', não temeu críticas pela simplicidade, já que vivemos num momento marcado pela tecnologia e pelos recursos visuais?
Na arte, você precisa correr riscos. É assim que encontramos coisas novas. Creio que foi isso que fez 'O menino e o mundo' encantar. Ouvimos do próprio diretor do festival que o filme traz um ar novo da animação do mundo, que mostra um novo caminho. Não tenho pensamentos mercadológicos na hora de produzir. Meu temor, minha preocupação, foi sempre ser muito sincero com o que estava fazendo. Precisava alcançar aquela paz que buscava e realmente consegui nesse filme.

Após vencer o Annecy, você teme comparações quando lançar outros projetos?
As comparações são inevitáveis agora. É uma grande armadilha e não posso me dar ao direito de pensar nisso. O que exerci em 'O menino e o mundo' preciso seguir. Nunca caí na armadilha de fazer e tentar entender o que esperavam de mim, isso é muito perigoso. Se não gostarem do meu próximo, vou entender. Prefiro fazer os trabalhos para mim, não me repetir, seguir em caminhada. Um passo leva ao outro.

Assista ao trailer do filme:

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